betclicpt
      O sítio dos Gverreiros
      António Costa
      2020/04/05
      E1
      "O sítio dos Gverreiros” é uma coluna de opinião de assuntos relativos ao SC Braga, na perspetiva de um olhar de adepto braguista, com o sentido crítico necessário, em busca de uma verdade externa ao sistema.

      Estávamos no verão de 2012, em pleno descanso de agosto. Sim, porque um professor que esteja envolvido nos exames nacionais, como classificador ou como relator nas reapreciações, não tinha, nem tem, muito por onde escolher o tempo de férias. O SC Braga tinha uma eliminatória difícil, no play-off de acesso à Liga dos Campeões, frente à Udinese, num sorteio pouco simpático. São sempre complicadas as eliminatórias contra equipas italianas, mas quem queria jogar com os melhores tinha que enfrentar as dificuldades existentes.

      A primeira mão, disputada na Pedreira, deu empate 1-1, pelo que a esperança se mantinha, apesar de se esperarem grandes problemas no jogo da segunda mão, em Itália.

      O SC Braga organizou, então, uma viagem de autocarro a Udine. Com o conhecimento dela, o entusiasmo dos meus dois filhos foi imediato e a viagem passou, num ápice, a ser uma realidade. Seria uma viagem louca, mas marcante, por fugir das rotinas.

      Chegava o dia 26 de agosto de 2012 e às 17 horas tudo estava pronto para que o autocarro, carregado de esperança, iniciasse a viagem. Havia muitos quilómetros para percorrer e muitas horas para andar dentro de um autocarro, que exigiam muitas conversas, com pessoas mais ou menos conhecidas. Deixámos rapidamente Portugal para trás, seguindo-se a passagem por Espanha, a travessia da França e a chegada a Itália. Muitas horas depois chegávamos a Bérgamo, local onde atualmente se situa um foco infindável da pandemia “COVID 19”, e onde a noite foi passadanum hotel local de boas condições. Para trás ficavam muitos túneis e muitos quilómetros percorridos. Era o descanso dos Gverreiros. Na manhã seguinte, já com novas energias, seguimos viagem rumo a Udine, afinal o nosso maior propósito. Chegámos finalmente à cidade onde o sonho podia tornar-se realidade ou, no pior dos cenários, dar lugar à tristeza de uma eliminação. O dia passou com o reconhecimento do estádio Friuli por fora, o almoço ali perto, pizza pois claro, uma curta visita à cidade, ainda distante, terminando com o jantar que colocava as forças em níveis que a ocasião pedia.

      Por fim, regressámos à zona do estádio, onde ficara o autocarro que nos permitia guardar as coisas antes da entrada. Tudo pronto e depois da revista lá entrámos, com bastante antecedência, no local onde tudo se jogava. Mais algumas fotos para memória futura e surgem as equipas para o aquecimento. Senti que estava num pedaço de Portugal, quando vi os jogadores do meu clube pisar aquele relvado. Cada pessoa tentava o melhor lugar naquela bancada distante do relvado para assistir ao espetáculo. Éramos poucos, por isso ficámos todos juntos e eu senti que fazia parte daquela claque que apoiaria a equipa ao longo do jogo.

      Chegava o momento em que tudo começava. A nossa bancada, com um número de pessoas incomparavelmente inferior aos italianos, cantava junta o jogo todo para que os jogadores sentissem o carinho que os levasse à transcendência, na tentativa da superação desta difícil missão de eliminar os italianos em sua casa. Aconteceu o golo italiano e tudo parecia ruir, mas a esperança dos Gverreiros no campo e na bancada era alimentada pelo guarda-redes Beto que, com algumas intervenções complicadas, mantinha a equipa na luta pelo resultado. Chegava o intervalo e o resultado era favorável aos italianos que, à semelhança da primeira-mão, se colocaram na frente do marcador.

      A segunda parte trazia uma equipa bracarense capaz de discutir o resultado e a eliminatória, mas o relógio era cruel, avançando a uma velocidade elevada, pelo que parecia o nosso maior inimigo. As gargantas continuavam a entoar cânticos de apoio, até que o momento mágico do golo do empate chegava por fim, através de Rúben Micael, que entrara para jogar a segunda parte. O resultado traduzia o equilíbrio das duas equipas e o prolongamento passava sem nada alterar. Outra vez o 1-1 e havia necessidade de desempatar através de pontapés da marca de grande penalidade, onde a descrença de uns era contrariada pela fé de outros. Ninguém falhava, até que ao terceiro penalti da Udinese, Maicosuel tentou marcar “à Panenka” e Beto defendeu. A seguir todos marcaram, com o pontapé decisivo a pertencer ao herói improvável chamado Rúben Micael que, depois de ter empatado o jogo, decidia a eliminatória. Era o momento mágico desejado e com ele os Gverreiros do Minho passavam, pela segunda vez, à fase de grupos da Liga dos Campeões. Viveram-se momentos de verdadeira loucura e histeria, numa comunhão entre os jogadores e os adeptos, que fizeram uma viagem tão longa na esperança de um final assim feliz para esta “história”. O sonho passara a realidade, nesse momento em que fazia todo o sentido a frase “quem não sente, não entende”. A viagem de regresso foi mais leve e plena de alegria, que contrasta com os momentos incertos e tristes que agora vivemos. Mas, em breve, o mundo sem receios voltará a sorrir.



      Comentários (1)
      Gostaria de comentar? Basta registar-se!
      motivo:
      JM
      Grande vitória
      2020-04-06 11h01m por jmfbraga
      Amigo António Costa, Excelente recordação de um dos grandes momentos da nossa história nas provas da UEFA. Felizmente, temos um percurso de grande prestígio nas competições europeias. Esta eliminatória contra a Udinese foi um desses momentos.
      OPINIÕES DO MESMO AUTOR
      A contagem decrescente para o regresso da Liga portuguesa continua e de modo acelerado. A DGS começou com exigência elevada, mas foi diminuindo a ponto de os estádios ...
      30-05-2020 15:14E1
      A bola promete voltar a rolar em Portugal, de modo oficial, brevemente. As regras vão mudando ao sabor dos ventos, como se vê no crescimento diário de estádios com ...
      23-05-2020 10:14
      A bola voltou a rolar, num dos campeonatos mais apetecidos. A Alemanha voltou a ter jogos e golos a sério. Deste modo, foi possível afagar a fome de bola que o vírus maldito ...
      17-05-2020 13:28
      Opinião
      A preto e branco
      Luís Cirilo Carvalho
      Pelas minhas gavetas do futebol
      Tiago S. Nogueira
      O sítio dos Gverreiros
      António Costa
      Pontapés na atmosfera
      Pedro Fragoso
      O sítio dos Gverreiros
      António Costa