betclicpt
      A preto e branco
      Luís Cirilo Carvalho
      2020/05/22
      E0
      "A Preto e Branco” é uma coluna de opinião que procurará reflectir sobre o futebol português em todas as suas vertentes, de uma forma frontal e sem tibiezas nem equívocos, traduzindo o pensamento em liberdade do seu autor sobre todas as questões que se proponha abordar.
      Uma das vantagens de viver a vida com alegria e optimismo, quanto baste, como é obvio, é o facto de ela nos dar a possibilidade de em quase tudo podermos ver um lado positivo e agradável, ainda que num cômputo geral muito negativo.

      Pese a crescente leviandade com que muitos portugueses vão saindo do desconfinamento provocado pela pandemia - estimulados, é certo, por discursos errados de quem devia ter a preocupação suprema de só fazer discursos certos -, a verdade é que o país atravessou momentos muito difíceis que condicionaram a vida das pessoas a muitos níveis.

      Um deles foi o futebol.

      Campeonatos parados, clubes em grandes dificuldades para cumprirem compromissos, receitas televisivas em “quarentena”, uma enorme indecisão sobre o que fazer quanto às provas interrompidas, decisões a variarem de país para país, sombras negras a adensarem-se sobre o futuro do futebol face ao não se saber se e quando poderá voltar à sua normalidade.

      Num cenário tão feio será caso para o leitor se interrogar sobre o que poderá ter existido de positivo, no que ao futebol concerne, num período tão complexo e que, ainda por cima, não está acabado.

      A resposta é simples.

      Foram dois meses, mais coisa menos coisa, sem aturar quezílias entre alguns clubes, sem aturar alguns presidentes e alguns directores de comunicação, sem ter todos os telejornais de todas as televisões infestados por notícias sem qualquer interesse sobre alguns clubes como se fosse impensável um telejornal sem estar pintado de vermelho, azul e verde; foi a santa paz de os programas dos cartilheiros terem sido suspensos e não termos de aturar essa mistificação ordinária de chamar programas sobre futebol a programas que são sobre três clubes.

      Foram meses dolorosos por tudo e também pela falta do futebol que interessa (o que se joga dentro dos relvados), mas foi, simultaneamente, um tempo de paz e de alguma desintoxicação daquilo que o futebol tem e que não devia ter.

      Mas tudo que é bom acaba.

      E o princípio do fim daquela reunião em S.Bento, a que uns foram e outros não, é que os que foram, ao invés de tratarem daquilo a que se tinham comprometido, foram mas é tratar da respectiva vidinha para grande indignação dos que não foram e se sentiram enganados.

      E recomeçaram as inevitáveis polémicas sem as quais o futebol português perderia uma das suas caracteristicas distintivas que, infelizmente, só o prejudica.

      A seguir vieram as polémicas dos estádios com um clube a querer decidir quem jogava, aonde e como se o futebol português fosse uma coutada da sua pertença (e em muitas coisas até é mas falta quem tenha a coragem de o denunciar e mais ainda de lhe fazer frente) e os restantes clubes uns vassalos de sua excelência.

      Naturalmente que a arbitrariedade com que a Liga (ou alguém por ela) decidiu acabar abruptamente com um dos seus campeonatos ao mesmo tempo que prossegue com o outro. Isso também gerou uma justa indignação (e consequente polémica) nos clubes da II liga, que não percebem a razão da discriminação nem porque razão são “filhos de um Deus menor” dentro de uma Liga que todos devia tratar por igual.

      Decidir de forma totalitária que sobem Nacional e Farense e descem Cova da Piedade e Casa Pia, quando dentro do terreno de jogo podia nem ser assim, ao mesmo tempo que na I Liga se permite discutir título, apuramentos europeus e manutenções no escalão, só acontece num futebol terceiro mundista e numa liga sem autoridade, sem rumo e que nem os interesses dos seus filiados defende convenientemente.

      Como se percebeu, aliás, na tal reunião de S.Bento em que o presidente da Liga só foi convidado à última hora e quase por caridade!

      E por isso não admira que a Liga esteja uma vez mais em convulsão, a dar voltas e reviravoltas que já lhe foram vistas no passado, com uma contestação em crescendo a Pedro Proença que poderá muito bem ser derrubado na Assembleia Geral de 9 de junho próximo.

      O pretexto - sim, não passa de um pretexto - terá sido uma carta enviada por Proença ao Presidente da República e ao Governo pedindo apoio para a possibilidade de as dez jornadas que faltam serem transmitidas em canal aberto por razões, absolutamente plausiveis e justificadas, de defesa de saúde pública, evitando, com isso, grandes concentrações de adeptos em cafés e restaurantes para verem os jogos em canais codificados.

      Caiu o 'carmo e a trindade' porque Proença não tinha perguntado aos clubes aquilo que achavam da proposta que em nada os afectava, diga-se de passagem, e ainda contribuia para defender a saúde dos seus adeptos, algo com que, pelos vistos, alguns clubes nada se importam imersos no poder ditatorial de quem os dirige.

      As questões de fundo são, como é fácil de perceber, bem outras.

      Uma tem a ver com o modelo de governação da Liga em que, definitivamente, os clubes tem de decidir se querem um presidente com poder, com autoridade, que os represente a todos por igual em matérias de fundamental interesse para o futebol como, por exemplo, a centralização da negociação dos direitos televisivos, ou se querem um “pau mandado” que seja um eterno joguete entre Benfica e Porto (o Sporting aqui parece-me contar quase nada...) procurando conciliar os interesses quase sempre antagónicos de ambos e fazendo dos outros meros comparsas de uma história para a qual pouco ou nada contam.

      Outra tem a ver com o próprio dirigismo nos clubes, com o perfil de quem a eles preside, com o entendimento que tem do que deve ser o futuro do futebol e com o papel que acham que a Liga nele deve ter .

      Tenho um “velho“ amigo, profundo conhecedor da realidade do futebol português, que me diz, com muita piada, que no tempo da ditadura os clubes eram geridos em democracia e agora em tempo de democracia os clubes são geridos em ditadura.

      Não serão todos, é evidente, mas serão uma grande parte.

      E nessa parte se incluem os que de facto mandam no futebol português.

      É, se calhar, uma bela explicação para tudo a que temos vindo a assistir e vamos continuar a assistir sabe-se lá até quando.

      Uma das vantagens de viver a vida com alegria e optimismo, quanto baste como é obvio, é o ela dar-nos a possibilidade de em quase tudo podermos ver um lado positivo e agradável ainda que num computo geral muito negativo.
      Pese embora a crescente leviandade com que muitos portugueses vão saindo do desconfinamento provocado pela pandemia, estimulados é certo por discursos errados de quem devia ter a preocupação suprema de só fazer discursos certos, a verdade é que o país atravessou momentos muito difíceis e que condicionaram a vida das pessoas a muitos níveis.
      Um deles foi o futebol.
      Campeonatos parados, clubes em grandes dificuldades para cumprirem compromissos, receitas televisivas em “quarentena”, uma enorme indecisão sobre o que fazer quanto às provas interrompidas, decisões a variarem de país para país , sombras negras a adensarem-se sobre o futuro do futebol face  ao não se saber se e quando poderá voltar à sua normalidade.
      Num cenário tão feio será caso para o leitor se interogar sobre o que poderá ter existido de positivo, no que ao futebol concerne, num período tão complexo e que ainda por cima não está acabado.
      A resposta é simples.
      Foram dois meses, mais coisa menos coisa, sem aturar quezílias entre alguns clubes, sem aturar alguns presidentes e alguns directores de comunicação, sem ter todos os telejornais de todas as televisões infestados por notícias sem qualquer interesse sobre alguns clubes como se fosse impensável um telejornal sem estar pintado de vermeljho, azul e verde, foi a santa paz de os programas dos cartilheiros terem sido suspensos e não termos de aturar essa mistificação ordinária de chamar programas sobre futebol a programas que são sobre três clubes.
      Foram meses dolorosos por tudo e também pela falta do futebol que interessa (o que se joga dentro dos relvados) mas foi simultaneamente um tempo de paz e de alguma desintoxicação daquilo que o futebol tem e que não devia ter.
      Mas tudo que é bom acaba.
      E o principio do fim do aquela reunião em S.Bento a que uns foram e outros não, e os que foram ao invés de tratarem daquilo a que se tinham comprometido foram mas é tratar da respectiva vidinha para grande indignação dos que não foram e se sentiram enganados.
      E recomeçaram as inevitáveis polémicas sem as quais o futebol português perderia uma das suas caracteristicas distintivas que, infelizmente, só o prejudica.
      A seguir vieram as polémicas dos estádios com um clube a querer decidir quem jogava aonde como se o futebol português fosse uma coutada da sua pertença ( e em muitas coisas até é mas falta quem tenha a coragem de o denunciar e mais ainda de lhe fazer frente) e os restantes clubes uns vassalos de sua excelência.
      Naturalmente que a arbitrariedade com que a Liga (ou alguém por ela) decidiu acabar abruptamente com um dos seus campeonatos ao mesmo tempo que prossegue com o outro também gerou uma justa indignação (e consequente polémica) nos clubes da II liga que não percebem a razão da discriminação nem porque razão são “filhos de um deus menor” dentro de uma Liga quea todos devia tratar por igual.
      Decidir de forma totalitária que sobem Nacional e Farense e descem Cova da Piedade e Casa Pia, quando dentro do terreno de jogo podia nem ser assim, ao mesmoo tempo que na primeira liga se permite discutir título, apuramentos europeus e manutenções no escalão só acontece num futebol terceiro mundista e numa liga sem autoridade, sem rumo e que nem os interesses dos seus filiados defende convenientemente.
      Como se percebeu, aliás, na tal reunião de S.Bento em que o presidente da Liga só foi convidado à ultima hora e quase por caridade!
      E por isso não admira que a Liga esteja uma vez mais em convulsão, a dar voltas e reviravoltas que já lhe foram vistas no passado, com uma contestação em crescendo a Pedro Proença que poderá muito bem ser derrubado na Assembleia Geral de 9 de Junho próximo.
      O pretexto, sim não passa de um pretexto, terá sido uma carta enviada por Proença ao Presidente da República e ao Governo pedindo apoio para a possibilidade de as dez jornadas que faltam serem transmitidas em canal aberto por razões, absolutamente plausiveis e justificadas, de defesa de saúde pública evitando com isso grandes concentrações de adeptos em cafés e restaurantes para verem os jogos em canais codificados.
      Caiu o “Carmo e a Trindade” porque Proença não tinha perguntado aos clubes aquilo que achavam da proposta.
      Que em nada os afectava, diga-se de passagem, e ainda contribuia para defender a saúde dos seus adeptos algo com que , pelos vistos, alguns clubes nada se importam imersos no poder ditatorial de quem os dirige.
      As questões de fundo são, como é fácil de perceber, bem outras.
      Uma tem a ver com o modelo de governação da Liga em que definitivamente os clubes tem de decidir se querem um presidente com poder, com autoridade, que os represente a todos por igual em matérias de fundamental interesse para o futebol como, por exemplo, a centralização da negociação dos direitos televisivos ou se querem um “pau mandado” que seja um eterno joguete entre Benfica e Porto (o Sporting aqui parece-me contar quase nada...) procurando conciliar os interesses quase sempre antagónicos de ambos e fazendo dos outros meros comparsas de uma história para a qual pouco ou nada contam.
      Outra tem a ver com o próprio dirigismo nos clubes, com o perfil de quem a eles preside, com o entendimento que tem do que deve ser o futuro do futebol e com o papel que acham que a Liga nele deve ter .
      Tenho um “ velho “ amigo, profundo conhecedor da realidade do futebol português, que me diz com muita piada que no tempo da ditadura os clubes eram geridos em democracia e agora em tempo de democracia os clubes são geridos em ditadura.
      Não serão todos, é evidente, mas serão uma grande parte.
      E nessa parte se incluem os que de facto mandam no futebol português.
      É, se calhar, uma bela explicação para tudo a que vimos assistindo e vamos continuar a assistir sabe-se lá até quando.


      Comentários (0)
      Gostaria de comentar? Basta registar-se!
      motivo:
      EAinda não foram registados comentários...
      OPINIÕES DO MESMO AUTOR
      Já por diversas vezes tive oportunidade de, neste espaço, manifestar as maiores dúvidas e reservas sobre o recomeço do campeonato nestas condições ...
      02-06-2020 00:30
      Em 1997, se não me falha a memória, os associados do Vitória Sport Clube, no âmbito dos festejos dos 75 anos do clube, deliberaram em Assembleia Geral atribuir ao ...
      13-05-2020 18:47E1
      Pode parecer que falar dos Reis Magos logo a seguir à Páscoa é estranho, mas os insondáveis caminhos do futebol português levam a que aquilo que noutro contexto ...
      05-05-2020 10:34E2
      Opinião
      A preto e branco
      Luís Cirilo Carvalho
      Pelas minhas gavetas do futebol
      Tiago S. Nogueira
      O sítio dos Gverreiros
      António Costa
      Pontapés na atmosfera
      Pedro Fragoso
      O sítio dos Gverreiros
      António Costa