betclicpt
      Entrevista à Tribuna Expresso

      (12maio2018)| Oceano: «O meu nome era para ser Oceano Atlântico, porque o meu padrinho chama-se Oceano Pacífico»

      2020/05/16 18:44
      Texto por Tribuna Expresso
      E0

      Entrevista da autoria da jornalista Alexandra Simões de Abreu da Tribuna Expresso, originalmente publicada a 12 de maio de 2018 e que pode ser vista na publicação original aqui e aqui.

      O nome não podia assentar-lhe melhor. Oceano da Cruz foi grande na generosidade com que se entregou a esta entrevista, que de tão extensa teve de ser partida em duas. Hoje ficamos a conhecer e a saber das suas raízes, a paixão pela mãe, recíproca, a tristeza de não ter convivido mais com o pai, o início da carreira de futebolista, o primeiro amor com uma mulher quase 20 anos mais velha, os filhos, da amizade com Jordão e do Porsche preto que foi levantar a Estugarda, onde estavam 7 graus negativos, vestido de calções e chinelos.

      Nasceu em Cabo Verde. Fale-me um pouco da sua família.
      Nasci em São Vicente, filho de pais cabo-verdianos, Álvaro da Cruz e e Maria de Fátima Andrade Cruz, ambos já falecidos. Quando a minha mãe estava grávida de mim, o meu pai emigrou pela primeira vez, foi trabalhar para a Alemanha.

      Foi fazer o quê?
      Ele trabalhava nos barcos de mercadorias. Começou como marinheiro, depois passou a contramestre e mais tarde já era oficial. Começou uma carreira de emigrante como quase todo o povo cabo-verdiano. A primeira vez que o meu pai voltou de férias, eu já tinha 3 anos, não sei quantos meses e quantos dias. Eu até brincava com o meu pai e dizia-lhe: “Tu não és o meu pai, o meu pai está na Alemanha” (risos). As mulheres cabo-verdianas sofreram muito na pele, ser mulher de emigrante não é fácil. E ainda por cima emigrante naqueles tempos, em que só vinha a casa de dois em dois ou de três em três anos. Estava um mês em casa e lá ia ele outra vez.

      A sua mãe era dona de casa?
      Era, tomava conta de 6 filhos. Durante muitos anos fui o irmão mais novo. Tenho um irmão mais velho, o Rafael, que vive na Alemanha e tem a nacionalidade alemã. A seguir vem a minha irmã, Filomena, que vive em Almada. Aliás, quase toda a minha família vive em Almada. Tive uma irmã e um irmão que faleceram. Podíamos ser 8.

      O que aconteceu?
      Foi dessas doenças tipo paludismo. Nasceram e morreram em Cabo Verde, os dois com a mesma doença. Um deles morreu no último dia do ano, 31 de dezembro, uma data que a minha mãe nunca esqueceu.

      Faleceram com que idade?
      Com um ano e pouco. Na altura, em África, não tínhamos acesso aos medicamentos, mesmo na Europa aquelas doenças eram complicadas na altura.

      Lembra-se deles?
      Não, porque eles eram mais velhos. Eu nasci depois.

      Tem uma grande diferença para os seus irmãos que estão vivos?
      Não. Curiosamente, o meu irmão mais velho tem 60 e poucos anos e tenho dois anos de diferença para a minha irmã. Entretanto, passados muitos anos nasceram as duas mais novas, aqui em Lisboa, já a minha mãe tinha mais de 40 anos. Foi um risco. Mas ainda há o Maia. Tenho 6 meses de diferença para o Maia porque não somos filhos da mesma mãe (risos). O meu pai quando chegava de férias era a... sério (risos). O Maia viveu connosco desde pequenino, já em Cabo Verde vivia connosco. A minha mãe naquela de “tenho de proteger mais o Maia porque não sou a mãe biológica” acabou por criar uma paixão, uma adoração por ele... E o Maia pela minha mãe. Crescemos juntos, confidenciávamos muito um com o outro. Somos os irmãos mais próximos. Depois nasceram as duas miúdas, a Mirandolinda (risos). Nome complicado, não é? Eu disse à minha mãe que ela não gostava da filha (risos). Mas é uma homenagem. Em África tem muito disso, em homenagem aos padrinhos ou às madrinhas. Havia Miranda, mas não ficava bem, ficou Mirandolinda. Nós, os mais velhos que já tínhamos algum voto na matéria ainda dissemos: “Mãe, isto não é nome para chamar”. Tanto que para nós ela é a Mira. Depois da Mira nasceu a Rosa Paula, que é a mais nova, tem 40 anos.

      Da parte do seu pai, só tem esse meio irmão, o Maia?
      Que eu saiba (risos). O meu irmão que vive na Alemanha e que conviveu com o meu pai durante alguns anos lá diz que, provavelmente, há mais uns irmãos por aí, mas não sabemos.

      Porque é que vieram para Portugal?
      A minha mãe a determinada altura achou que aquilo não era vida e fez uma pressão muito grande junto do meu pai para virmos para Portugal, tinha eu uns 4, 5 anos.

      Do que é que se lembra de Cabo Verde?
      Lembro-me de tudo, curiosamente, porque nunca perdi contacto com as raízes. Voltei sempre a Cabo Verde. Estou em Cabo Verde e sinto que é a minha casa. Para mim é muito difícil diferenciar Cabo Verde de Portugal, porque ambos são a mesma coisa. Ambos são a minha casa, o meu lar, os meus amigos. Mas tenho algumas lembranças de infância. Do cheiro da terra, das brincadeiras que se faziam na rua. Lembro-me da escola porque comecei muito cedo, nos Salesianos, uma escola de padres, onde tudo era muito restrito. Era obrigado a ir à missa e só podíamos jogar à bola a seguir. Tenho lembranças muito fortes. Tenho a lembrança do meu primeiro brinquedo, que a minha mãe me ofereceu.

      Que brinquedo era?
      Eram uns carros pequeninos, em miniatura, uns carros da tropa. Eu passava o tempo todo a brincar com aqueles carros. É o cheiro, a cor, as pessoas, o cabo-verdiano é um povo que pode ter os problemas todos do mundo, mas amanhã é outro dia. Hoje vamos viver a vida, amanhã é outro dia (risos).

      De onde vem o nome Oceano?
      (risos). É uma história curiosa também. O meu padrinho chama-se Oceano Pacífico Fortes. Por acaso já não o vejo há alguns anos e ele vive cá… Ele queria que eu fosse Oceano Atlântico da Cruz. Mas a minha mãe disse que não, apesar daquela tradição de ficarmos com os nomes dos padrinhos. Fiquei Oceano Andrade da Cruz, com os nomes da minha mãe e do meu pai. Mas poderia ter sido Oceano Atlântico (risos).

      Estava contar, viajou para cá com 5 anos...
      Sim. Como o barco em que o meu pai trabalhava fazia muito a carreira da Europa, da Alemanha, da França, de Portugal, a minha mãe conseguia estar muito mais em contacto com o meu pai, por isso ela quis vir.

      Tinham cá família?
      Não, essencialmente foi para estarmos juntos. A minha mãe disse que não ia viver a vida sozinha, com o marido a trabalhar na Alemanha que só vinha a casa a cada três anos para passar um mês. Não era vida para ninguém. Quando o barco dele ficava aqui em Lisboa, a minha mãe ia para o barco, fazia uma viagem e voltava com ele, estavam muito mais juntos.

      Por que foram para Almada?
      Penso que foi decisão da minha mãe. Havia uma comunidade de cabo-verdianos em Almada, ela já tinha pessoas conhecidas lá. E adorei Almada, consegui adaptar-me. Houve um ano em que fomos viver para o Barreiro, mas aí fizemos uma reunião de família, porque não dava para viver com aquelas fábricas, aquele fumo. “Mãe, não dá para viver aqui”. E voltamos outra vez a viver para Almada.

      ©Catarina Morais

      Quando vieram a sua mãe arranjou algum emprego?
      Não, a minha mãe continuou sempre a tomar conta de nós. O meu pai dava dinheiro. A minha mãe era uma contabilista extraordinária. Porque o meu pai... Os cabo-verdianos são muito assim, amam a sua família mas são muito aéreos. Quando já aqui estávamos o meu pai continuou a ser emigrante. Quando ia, mandava dinheiro nos dois, três, quatro primeiros meses e depois esquecia-se (risos). Mas a minha mãe era tão boa a gerir o dinheiro que conseguia que durasse o tempo todo e ainda pagava a viagem de volta do meu pai para a Alemanha (risos). Ela seria uma contabilista extraordinária para qualquer empresa. Nunca vivemos na abundância, mas nunca nos faltou nada. Comemos sempre bem, vestimos sempre bem. E tudo isso foi capacidade da minha mãe, uma mulher extraordinária, que foi mãe e pai ao longo da nossa vida.

      Lembra-se de sentir a falta do seu pai?
      Lembro-me de sentir falta do meu pai e de ficar revoltado em algumas circunstâncias, quando o meu pai vinha de férias. Porque, de repente, por exemplo, eu e o meu irmão Maia, já na adolescência, dizíamos: “Pai, vamos ao cinema”. Ele respondia: “Daqui de casa ninguém sai”. Eu achava que ele não tinha o direito, depois de estar dois anos fora de casa. Nós só respeitávamos o nosso pai por causa da educação que a nossa mãe nos dava. “O vosso pai é o vosso pai, vocês têm que respeitar sempre”. Mas nós não sentíamos essa obrigatoriedade, porque ele não estava presente. Quando chegava, tentava dar uma de pai, dar alguma disciplina. A minha mãe às vezes até tinha algumas chatices com ele, porque ela defendia-nos de morte. Nós achávamos que ela é que tinha legitimidade para fazer tudo, porque ela é que estava connosco todos os dias e tratava de tudo. O meu pai foi emigrante até aos meus últimos anos de carreira de jogador. A minha mãe viveu sozinha a vida inteira.

      Nunca conseguiu aproximar-se do seu pai?
      Ele reformou-se no meu último ano no Sporting, depois fui para o Toulouse. Nessa altura tentei conhecer o meu pai. Esteve comigo em Toulouse algum tempo. E realmente ele era um homem extraordinário e tive pena de não ter sido possível lidar com ele durante mais tempo da minha vida. A minha mãe lamentava-se imenso: “Já viste, a tua mãe a vida inteira sozinha”. Tenho umas histórias engraçadas, acho que posso contar uma, que ela já não está cá para se chatear comigo. Em termos de vida de marido e mulher, a minha mãe teve uma vida muito solitária, o marido nunca estava cá e faltava-lhe esse lado. Curiosamente, quando o meu pai se reformou e foi viver com ela, a coisa deixou de funcionar e ela comentou comigo: “Já viste filho, tantos anos sozinha, sem companhia e agora que o teu pai se reformou, deixou de funcionar. Tens que falar com ele, tens que o ajudar” (risos).

      Ajudou-o?
      Imagine agora eu ter que ir falar com o meu pai, nunca tinha tido nenhuma conversa nem para falar das minhas namoradas. Mas disse-lhe: “Pai tenho que te falar uma coisa. Sabe que até eu já houve altura em que tive uma certa dificuldade, mas hoje em dia, eu tenho dois ou três amigos que são médicos, se o pai quiser, eles ajudam a...” (risos)

      E ele?
      Ia-me batendo: “Tu achas que não sou capaz?”. Aquilo estava a mexer com a masculinidade dele. Nunca mais voltei a falar no assunto (risos).

      O Oceano tinha uma ligação muito forte com a sua mãe.
      Eu tinha uma paixão grande pela minha mãe e era recíproca. A minha mãe protegia-me muito, era uma pessoa de energias, acreditava nas energias e dizia para eu procurar estar com pessoas com energias positivas. Dizia-me: “Tu tens capacidade de captar as energias e se estiveres com pessoas negativas, isso vai-te sugar e vai-te por mal disposto. Tens que estar sempre rodeado de gente com energia positiva”. Devido à minha profissão, uma profissão mais mediática do que a dos meus irmãos, logicamente que a carga de inveja e de energia negativa em relação a mim era muito maior e a minha mãe sofria com isso. Por isso protegia-me tanto. Acho que isso a aproximou um bocadinho mais de mim e o meus irmãos tinham um bocadinho de ciúme daquela relação.

      A paixão pelo futebol começa na rua, certo?
      Como com todas as crianças africanas. Na rua, com as bolas de trapos. Tenho também essa imagem de Cabo Verde. A imagem de ir à missa, nos Salesianos, para poder ir jogar à bola a seguir. Ainda por cima nessa escola eles equipavam-nos com as camisolas do Benfica, do FCP, do Sporting e nós crianças adorávamos aquilo, era um sonho. Esperávamos pelo domingo para poder fazer aqueles jogos nos Salesianos.

      Torcia por qual dos clubes?
      Pergunta difícil.... Para ser correto vou ter que dizer que era pelo Sporting, mas é só para ser correto (risos). Porque na altura a equipa de Cabo Verde era o Mindelense, que era como se fosse o Benfica lá do sítio. Torcia pelo Mindelense, depois quando cheguei aqui a Portugal, tinha muitas discussões com o meu pai, porque ele antes de ser emigrante tinha sido jogador, em Cabo Verde, do FC Derby, que era uma filial do FCP. Portanto, dentro da família havia de tudo, mas eram mais Benfica e FCP, embora já houvesse algumas pessoas do Sporting. Na altura, em Cabo Verde, já havia o Sporting de São Vicente, mas o Mindelense é que era a equipa mais forte e normalmente as crianças vão atrás da equipa que ganha mais. Eu era do Mindelense. Já em Portugal comecei a ser mais pelo Sporting, até para ser do contra (risos). O meu pai era o único que era do FCP, todos os meus irmãos são do Benfica e eu fiquei do Sporting só para contrabalançar um bocadinho (risos). Tudo começou com uma brincadeira da minha irmã, a última que nasceu, a Rosa Paula, que de repente diz “eu sou do Paços de Ferreira”, no meio de uma discussão entre irmãos, há muitos anos.

      Do Paços de Ferreira?!
      Não lembra a ninguém, não é? Nada contra o Paços de Ferreira, atenção. Mas se fosse do Almada, do Beira Mar de Almada, equipas que estão ao pé de ti...

      Chegaram a perceber porquê o Paços de Ferreira?
      Para ser do contra. Mas ela era do contra com substrato, ou seja, ela foi pesquisar tudo o que havia sobre o Paços de Ferreira, sabia a história toda do clube, dos jogadores (risos). E de repente o que começou por ser uma teimosia, porque quando disse Paços de Ferreira podia ter dito Leixões, já que não conhecia nenhuma dessas equipas, transformou-se numa paixão, ela é mesmo do Paços.

      Estava a dizer que o futebol para si começou na rua, em Cabo Verde.
      Sim, na escola, mas depois começa de uma forma mais séria com os meus 13 anos quando fui para os iniciados do Almada.

      Como é que lá vai parar?
      Através dos colegas da escola, que já jogavam juntos lá e disseram-me para ir fazer os treinos de captação. Fui e fiquei nos iniciados.

      Quando era pequeno já dizia que queria ser jogador?
      Engenheiro, queria ser engenheiro.

      Engenheiro de quê?
      Não sabia o que era, mas dizia que queria ser engenheiro. A minha mãe dizia que eu muitas vezes, à noite, estava sentado na cama a fazer contas num quadro imaginário e que as contas batiam certo (risos). A minha mãe incentivava: “Nós precisamos de engenheiros e de médicos na família”. Mas no meu ano de propedêutico, que antecedia a universidade, quando aparece a oportunidade de ir jogar para a Madeira, aí foi uma guerra com os meus pais para os tentar convencer. Eles deixaram sempre que eu jogasse, mas enquanto a escola não fosse prejudicada.

      Era bom aluno?
      Era, não precisava de estudar muito, como prestava muita atenção nas aulas, depois o resto acabava por ser fácil. Era aluno de 17, 18 valores.

      Algum dos seus irmãos também jogava futebol?
      Todos os meus irmãos jogaram futebol. O meu irmão mais velho foi júnior no Benfica, antes de emigrar, com 17 anos. Naquela altura nos juniores ninguém ganhava dinheiro e o meu irmão via os filhos dos emigrantes que tinham a idade dele, todos a irem trabalhar para a Alemanha e para a Holanda, alguns para os EUA e vinham todos com melhores roupas, mais dinheiro e ele sentiu essa necessidade. O meu pai, que continuava na Alemanha e já era contramestre, conseguiu que o meu irmão fosse trabalhar para lá.

      Fica no Almada até quando?
      Até ao meu primeiro ano de sénior. Faço iniciado, juvenil, júnior e, no meu primeiro ano de sénior, o Almada apresenta-me uma proposta, ainda me lembro do valor: 17 contos e 500 por mês. Mas eu disse que não aceitava porque já havia jogadores no Almada a ganhar 25, 30 contos por mês. Disse-lhes que por 20 contos assinava. Como júnior já era titular da equipa, mas eles achavam que não me davam esse dinheiro. Entretanto apareceu uma proposta do Odivelas, que me oferecia 26 contos por mês e, no ato da assinatura, dava-me 50 contos. Ficava rico, multimilionário com aqueles 50 contos (risos).

      Aceitou?
      Avisei o Almada: “Têm dois dias, porque daqui a dois dias eu vou assinar por outro clube”. Passaram dois dias, o Almada não me disse nada, liguei para o Odivelas e disse que aceitava a proposta deles. Entretanto, depois, o Almada já me dava 35 contos por mês. Eu ainda não tinha assinado pelo Odivelas mas, lá está, por causa da educação que os meus pais me deram, disse: “Já dei a minha palavra ao Odivelas, por isso não há hipótese nenhuma”. E acabei por ir para o Odivelas. No Almada ficaram ofendidíssimos comigo.

      Então e o que fez aos 50 contos?
      Dei-os à minha mãe.

      E com o primeiro ordenado, havia alguma coisa que quisesse muito comprar?
      Havia. Um pacote de bolacha maria e um pacote de manteiga (risos). A sério. Eu adorava bolacha maria e manteiga e a minha mãe estava sempre a dizer-me que eu não podia comer tanta manteiga. Pensei: com o meu primeiro ordenado vou comprar um pacote de bolacha maria e um de manteiga e vou comê-los todo. E foi o que fiz (risos). Ao longo da minha vida fiz duas promessas. A primeira era ter um pacote de bolacha maria e manteiga. Depois, quando estava no futebol a sério, já no Sporting, o meu sonho era ter um Porsche, então prometi que no dia em que fosse buscar o Porsche, tinha que ir de calções e de chinelos.

      E foi?
      Fui e estavam sete graus negativos, porque foi quando estava no Toulouse (risos), isso é que é triste (risos).

      Conte lá essa história.
      Sempre tive o sonho de ter um Porsche, mas ao longo da minha vida fui tendo outras prioridades: uma pessoa casa-se, tem filhos, há a casa e coisas mais importantes do que ter um carro. Mas, depois, separei-me. E em Toulouse pensei: “Durante a vida inteira pensei na família e não pensei em mim, vou dar um brinquedo a mim mesmo”. Mas ao mesmo tempo lembrei-me: “Oceano não te esqueças da promessa que fizeste a ti mesmo”. Só que estava um frio desgraçado. Fui buscar o carro a Estugarda e estavam 6 ou 7 graus negativos.

      Os senhores do stand devem ter ficado boquiabertos a olhar para si.
      Ficou tudo a olhar para mim. Mas fui vestido como deve ser, só quando estou a chegar ao stand é que mudei de roupa. Calçãozinho e chinelos para ir buscar o carro (risos). Devem ter pensado: “Este gajo é maluco”.

      De que cor era o Porsche?
      Preto, os meus carros são todos pretos.

      ©Catarina Morais

      Voltando ao Odivelas. Acaba por não ir para a universidade, certo?
      No Odivelas que era um clube semi-profissional, os treinos eram à noite, portanto tinha que sair de Almada para ir para Odivelas. Ia de barco até ao Cais do Sodré, depois vinha a pé até ao Rossio, no Rossio apanhava o Metro até Entrecampos, em Entrecampos apanhava o autocarro para Odivelas. E quando comecei a levar o futebol mais a sério, mesmo que não houvesse treino no Odivelas, treinava sozinho, treinava diariamente.

      Ainda não tinha carro nessa altura?
      Nada. L123 (risos). Passe. Fazia barco, autocarro, metro, era um sacrifício grande, chegava a casa tarde, mas era com prazer.

      Como é que vai para o Nacional da Madeira?
      Faço um ano no Odivelas, na 2ª divisão, as coisas correram bem, e apareceu o convite do Nacional da Madeira que estava na 2ª divisão mas queria subir, com o treinador Pedro Gomes, antiga glória do Sporting. Ele convida-me e aí já vou ganhar 67 contos por mês. Quase tripliquei o ordenado (risos).

      Foi difícil sair debaixo das saias da mãe e ir viver sozinho?
      A minha mãe educou-nos bem e quem vive com 6 irmãos em casa, acaba por ter que se desenrascar. Por exemplo, eu e o Maia, quem se levantasse primeiro vestia a roupa que queria. “Amanhã vou vestir aquelas calças”, Enquanto acordava, se o Maia tinha acordado antes, já tinha as calças vestidas, ainda por cima nós tínhamos o mesmo corpo (risos). Portanto com os 6 irmãos e com os ensinamentos da minha mãe, todos nós sabemos cozinhar, todos sabemos passar a ferro, fazemos tudo. Ela ensinou os rapazes da mesma forma que as raparigas, nesse aspecto não havia distinção lá em casa. Por isso não custou.

      Estava com quantos anos?
      18 para 19 anos.

      Namoradas já havia?
      Não, nada. Eu era um sossegadinho. A minha primeira namorada foi na Madeira. Eu tinha 19 anos e ela tinha 37, a Elisa. Foi extraordinário a forma como a conheci.

      Como foi?
      Conhecemo-nos através de um jantar de amigos. Ela não achava graça nenhuma aos jogadores de futebol, aquelas coisas, não acha graça mas acha. Eu achei que ela era interessante. Tinha uma loja de antiguidades em Londres e vinha à Madeira passar férias. Estava há um mês de férias na Madeira e foi-se arrastando. Acabámos por nos conhecer bem e para mim aquilo era... Uma mulher mais madura... Eu tinha o vigor da juventude, mas ela tinha a universidade. Foi extraordinário (risos). Depois da Elisa conheci a mãe dos meus filhos, conheci-a também na Madeira.

      Como se chama a mãe dos seus filhos?
      Rosa. Fomos casados durante 11 anos. Mas estava a falar da Elisa, houve um dia em que fiquei muito triste comigo mesmo. Conhecia-a em 1983 e nunca mais vi, fomos perdendo o contato. Ao princípio, ela ainda mandava umas cassetes com música porque sabia que eu gostava, mas a partir do momento em que saiu da Madeira, perdemos esse contato. Já depois dos meus 40 anos, reencontrámo-nos e não a reconheci. Ela já estava com mais de 60 anos. Fiquei tão triste nesse dia porque ela chegou ao pé de mim e abraçou-me de uma forma, que eu pensei: “Este abraço é de alguém que me conhece muito bem”. Fiquei paralisado. E eu tenho uma coisa, não sei contar uma mentira. Não minto. Foi uma promessa que fiz à minha mãe há muitos anos, quando me divorciei. Quando a Elisa olha para mim: “Não me estás a conhecer?”. Fui honesto “Olha, eu senti neste abraço que te devia conhecer mas não estou a ver...”. É quando ela diz: “Sou a Elisa”, com as lágrimas nos olhos por eu não me ter lembrado dela… Fiquei tão triste e chateado comigo mesmo.

      Passaram muitos anos.
      O problema é que foram 20 anos sem ver essa pessoa. Até ela, se não me tivesse visto durante 20 anos, se calhar não me ia reconhecer também, mas tendo em conta que eu era uma figura pública, ela conseguiu ir acompanhando a minha evolução ou por causa da selecção ou do Sporting; agora, eu deixei completamente de a ver. Mas foi uma coisa triste.

      Mas conheceu a Rosa, a sua mulher. Ela fazia o quê?
      Era cabeleireira. Uns meses depois de a conhecer, começámos a viver juntos. A Rosa na altura já era mãe do Ricardo, o meu filho mais velho. Conheci o Ricardo com 7, 8 meses. E é uma paixão. O Ricardo é meu filho de coração, mas é como se fosse de sangue, é igual. O Ricardo é extraordinário. Conheci a Rosa e o Ricardo nessa altura. Entretanto, o Nacional, nesse ano, fica-me a dever os últimos 6 meses. Depois há aquela coisa de negociação. “Nós queremos renovar o contrato contigo”. “Se querem renovar, primeiro têm que pagar o que me devem”. A condição era: se eu renovasse, eles pagariam. Entretanto, o Pedro Gomes que tinha muitos contatos no Sporting, disse-me: “Atenção que vai haver eleições no Sporting e se o João Rocha ganhar, vai buscar o Toshack e, se assim for, eu vou para adjunto dele e gostava de te levar comigo”. Mas começam a chegar as férias, não tenho notícias nenhumas do Sporting e penso: “São 6 meses que o clube me está a dever, a 60 e tal contos/mês ainda são 400 e muitos contos. Se os receber de uma vez vou ter umas férias extraordinárias”. Falei com o Pedro Gomes: “Mister, vou ter que assinar com o Nacional”. Mas pus uma cláusula: se aparecesse um clube grande interessado em mim, o Nacional tinha que me deixar sair sem nenhuma contrapartida.

      Tinha empresário?
      Não, tratei de tudo sozinho. Nunca tive empresário. Assinei com o Nacional. Ninguém do Nacional acreditou que eu pudesse ir para um grande e aceitaram a cláusula. Entretanto começo a essa época no Nacional, que mudou de treinador porque o Pedro Gomes foi para o Sporting. E 15 dias depois de ter começado a época liga-me o Pedro Gomes. Já tinha falado com o Toshack e com a direção do Nacional - estavam de acordo. Mas disse-me que o Toshack gostava muito que fosse treinar no fim de semana ao Sporting. Eu disse: “Ó mister já não tenho idade para ir treinar à experiência, se o Sporting quiser que me venha contratar, agora ir treinar à experiência não vou”. Entretanto estivemos ali a argumentar... Porque eu tinha tido uma experiência, com 16 anos, no Sporting.

      Conte lá isso.
      Foi como jogador no Almada, quando o Sporting estava a fazer treinos de captação. Juntámo-nos 3 jogadores do Almada, sem o Almada saber, e fomos lá a treinos de experiência. Estavam para aí uns 1500 miúdos. Quando chegou a minha vez para jogar, tive para uns 10 segundos para jogar. Aquilo traumatizou-me de tal forma que, à experiência, nunca mais (risos). Acabei por dizer ao Pedro Gomes que não ia. Passou essa semana, o Toshack sempre a insistir para eu ir. Entretanto, tive uma conversa com a minha mãe: “Filho vai, não tens nada a perder. Tens contrato com o Nacional. Se ficares no Sporting, ótimo, se não ficares ao menos tentaste, agora o mal é ficares a vida inteira a pensares no que é que podia ter acontecido”.

      Costumava falar com a sua mãe também sobre a sua carreira?
      Tudo, até de namoradas falava com ela. Por isso a tal conversa sobre o meu pai, ela dizia que eu era o único filho com quem ela tinha à vontade para falar esse tipo de coisas, mais íntimas. E acabei por vir para o Sporting.

      A Rosa veio consigo?
      Não, fui sozinho e ainda o fim de semana não tinha acabado e já tinha assinado com o Sporting por 3 anos. Aí de 67 contos fiquei a ganhar 150 contos no primeiro ano, 200 no segundo e 250 no terceiro. Mais outra fortuna (risos). Mas eu ganhava 150 contos por mês e já havia gente no Sporting a ganhar 5.000 contos/mês. Ou seja, o que eles ganhavam por mês, eu ganhava em três anos. Mas tudo bem.

      A sua mulher e filhos vieram viver consigo para o continente depois?
      Assino, fico logo de estágio com o Sporting. Logicamente, não tenho tempo para nada. Quando acabámos o estágio, fui à Madeira buscar a Rosa. Ela não estava à espera. Viemos viver para Miraflores, num apartamento do Sporting. O meu vizinho era o Gabriel, jogador do Porto que veio para o Sporting. Como não tinha carro, nem carta, ia com o Gabriel todos os dias para o treino. Ele tinha um Citroën “dois cavalos”. Eu adorava esse carro.

      ©Carlos Alberto Costa

      Como é que foi o impacto no Sporting?
      Extraordinário, porque cheguei com o à vontade de quem tem um contrato e não está ali para lutar pela vida. Logicamente que é o Sporting, mas ninguém acreditava que eu ia ficar no Sporting. Na Madeira eu era motivo de gozo: “Ah, vai treinar ao Sporting, vai apanhar bolas no Sporting”. Eu tinha 19 anos e ninguém acreditava que eu ia da 2ª divisão para o Sporting. Mas, no fundo, sempre tive confiança em mim e achava que quando trabalhamos bem e acreditamos, é possível.

      Sente que é a prova disso?
      Sinto. Não tinha a capacidade técnica dos jogadores do Sporting quando lá cheguei, mas o que é certo é que, nesse ano dos, 59 jogos, joguei 58, sempre os 90 minutos. Só não joguei um por causa de um cartão amarelo. Cheguei e a primeira jogada que vou dividir num treino é com quem? Com o senhor Jordão. O Jordão, que fazia parte dos Patrícios, que no campeonato em França tinham sido eliminados nas meias-finais. Apanho uma tripla de avançados, Jordão, Manuel Fernandes e Oliveira. Jogadores que eu estava habituado a ver na televisão. E na baliza o senhor Vítor Damas. Nunca tive ídolos no futebol, mas havia pessoas que eu admirava: o Jordão era um deles, tal como o Damas, o Manuel Fernandes, o Oliveira. Primeiro lance do treino, bola dividida entre mim e o Jordão, e entrei à “2ª divisão” (risos). O Jordão levantou vôo e ficou a olhar para mim. “Ó miúdo!?”. E eu: “Desculpe senhor Jordão, desculpe, foi sem querer” (risos). Andei o treino todo a pedir-lhe desculpa e ele: “Deixa lá miúdo, já passou, mas não tornes a fazer isso”. O que é certo é que ele “apadrinhou-me” desde esse primeiro dia. Tanto que fomos cimentando uma amizade muito grande. Disse-lhe na altura: “Senhor Jordão, ainda não sou pai, mas quando for pai você vai ser o padrinho do meu filho ou da minha filha”. E é o padrinho da minha filha mais velha.

      Já jogava na posição de médio?
      Sim, desde o Nacional da Madeira. Embora, bom, eu joguei praticamente em todos os lados: no Almada jogava a extremo esquerdo, depois fui para meio campo, mas como tinha muita capacidade defensiva, os treinadores aproveitaram-me para a defesa. Defesa central, defesa direito ou defesa esquerdo, até na baliza joguei contra o FCP numa final nas Antas.

      É verdade, já lá vamos.
      Portanto, joguei em todo o lado, mas a posição de que gostei sempre foi médio centro.

      Entretanto, que treinadores vai encontrando no seu caminho pelo Sporting, antes de ir para a Real Sociedad?
      Ui, tantos. Depois do Toshack, foi o Manuel José, o Burkinshaw, o falecido António Morais, o Raul Águas, Marinho Peres. Foram sete épocas seguidas no Sporting e em 1991 fui para Espanha.

      Mas nessas sete épocas, quando se fala do Sporting, qual é a primeira coisa que lhe vem à memória?
      Instabilidade total, caos, caos. O melhor presidente que o Sporting teve foi o João Rocha e eu apanhei a saída do João Rocha. A partir daí o Sporting viveu num caos total e o foi “atropelado” pelo Benfica e pelo FCP em termos de poder no futebol português. Tínhamos equipas melhores do que as do Benfica e do FCP, mas não tínhamos hipóteses nenhumas.

      Porquê?
      Primeiro, porque internamente éramos completamente desorganizados, um caos total dentro do clube; e, segundo, porque exteriormente não tínhamos força nenhuma. Depois, muita mudança de treinadores, um treinador por dia, ao segundo jogo já estavam com a corda na garganta e portanto era muito complicado trabalhar assim.

      Houve algum treinador nesse período que o tenha marcado mais?
      Gostei muito do Toshack. Foi o treinador que mais me marcou ao longo da vida. Devido à forma como encarava o futebol e a confiança que depositava em mim. Foi o treinador que mais confiou em mim. Num jogo que fizemos com o Sevilha, em Espanha, ele falou para a equipa toda, mas falou só de 10 jogadores. No final, quando acabou a palestra: “Boa sorte, bom jogo, vamos ganhar”. Vira-se para mim: “Tu sabes o que tens que fazer” e entregou-me a camisola. Ganhamos 3-1, fiz dois golos nesse jogo e o Sevilha a jogar com o Maradona e o Simeone.

      O Oceano tinha uma veia goleadora, para quem jogava lá atrás.
      Sim, e isso tem tudo a ver com o Toshack. Começou com o meu primeiro jogo internacional, em que jogamos com o Auxerre para a Taça UEFA. Ganhámos aqui 2-0, eles lá estão a ganhar por 2-0 e vamos a prolongamento. Eu estava a jogar a defesa central e, no prolongamento, o Toshack vira-se para mim aos gritos no campo a dizer para eu subir. Quando chego à área já chego tarde, a bola vem para a entrada da área e faço o melhor golo da minha vida. O primeiro e o melhor golo. E esse golo foi o que eliminou o Auxerre. Depois, o Litos acabou por fazer o 2-2. Mas foi a confiança do Toshack. Eu tinha confiança em mim, mas acho que o Toshack tinha muito mais (risos).

      Durante esses 7 anos, no Sporting, nasce a sua filha.
      Nesses 7 anos caso-me, com 21 anos, e nasce a Carina, a mais velha.

      Assistiu ao parto?
      Assisti e filmei, mal disposto, mas filmei (risos). Ainda por cima o parto dela demorou muito tempo. Como na altura começava a falar-se muito na SIDA, a minha mulher tinha medo de levar algum tipo de transfusão e o médico, para não haver transfusões, ia cortando e ia laqueando, eram pinças para um lado, pinças para o outro, aquilo demorou... Foi cesariana e demorou duas horas e tal a abrir. E além de ser cesariana e ter demorado duas horas e tal para abrir, a miúda teve que ser tirada a ferros. Foi duríssimo. Foi numa clínica ao pé da maternidade Alfredo da Costa. Mas a Carina, quando nasceu, era o bebé mais lindo que eu já vi em toda a minha vida, era mesmo linda. Tenho lá essa imagem. Quando a agarram com o ferro e ela está a sair, é extraordinária a imagem dela. Ao contrário, a Fabiana já não era assim tão bonita (risos).

      Mas agora é estrela de televisão.
      Sim, a Fabiana foi melhorando muito ao longo do tempo, mas a Carina já nasceu uma miúda lindíssima.

      Então nasceu a Carina, já tinha o Ricardo...
      Sim, eles têm diferença de 6 anos entre cada um.

      Da primeira etapa no Sporting, quem são os maiores amigos?
      Jordão, sem dúvida a primeira grande amizade. Depois fiz uma amizade muito boa com o Gabriel, até porque íamos e vínhamos todos os dias juntos ao treino, com o Sousa e o Jaime Pacheco, que eram do FCP. O Sousa era engraçado: íamos de férias, não dizíamos nada um ao outro, depois um aparecia no hotel do outro. Ligávamos para as agências de viagens para descobrirmos onde é que o outro estava e aparecíamos. “Não me disseste nada, mas eu estou aqui para passar uns dias de férias” (risos). Fazíamos muito o sul de Espanha, as Canárias, Ibiza, Maiorca e por aí. Foi a mulher do Sousa, a Isaura, que me ensinou a fazer um cabrito à moda do Porto. Faço um cabrito extraordinário.

      Do que se recorda mais dessas sete épocas no Sporting? Estava a dizer que sai o João Rocha, entra o Jorge Gonçalves.
      Curiosamente gostei muito do Jorge Gonçalves como presidente, se bem que ele apanhou o tal caos do Sporting. Ele saiu do Sporting mais pobre do que entrou, isso tenho a certeza, porque quando ele entrou no Sporting, tinha uma vida muito boa. Tinha acabado de fazer o negócio do Rijkaard e ganhou muito dinheiro com esse negócio. Esse dinheiro foi todo metido no Sporting e, na altura em que ele vai tratar do empréstimo final para pagar os nossos salários, é quando a direção lhe dá a facada nas costas e corre com ele. Acho que ele teve todas as condições para ser um bom presidente, mas não teve uma direção à altura que o ajudasse. Acabou por se prejudicar, ficar com uma má imagem, porque a verdade é que estivemos 7 meses sem receber ordenado, foi muito complicado, mas sabíamos que estava a fazer tudo para resolver o problema. E sabíamos que desgraçou a vida dele por causa do Sporting e ninguém reconheceu isso.

      Viveu esses anos todos na casa de Miraflores?
      Não, depois de Miraflores fui para a Quinta do Lambert. Já estava ao pé do estádio. Depois, comecei a fazer contas. O Sporting pagava-me a renda, acho que era 50 ou 60 contos de renda e fui negociar: “Vocês dão-me esse dinheiro e eu compro uma casa”. Comprei casa em Caneças.

      Porquê em Caneças?
      Por causa do Rosário, o “baixinho”, que é hoje adjunto do Fernando Santos na seleção nacional. Tinha uma amizade muito grande com ele, porque jogámos juntos no Nacional da Madeira. Quando vim para aqui, o único sítio onde eu tinha referências era em Almada, mas comecei a pensar na ponte e não dava para ir e vir para Alvalade todos os dias. Ia desgraçar-me. Andei à procura de uma zona - se soubesse o que sei hoje tinha comprado em Lisboa (risos) - e decidi ir para junto do Rosário. Gostei, é um sítio muito tranquilo, está-se quase no centro da cidade.

      Depois do Jorge Gonçalves, veio o Sousa Cintra e vai para Espanha.
      Sim, o Sousa Cintra é que me vende à Real Sociedad.

      ©Getty / Michael Steele - EMPICS

      Parte II

      Quando é chamado a primeira vez à seleção?
      Um mês depois de ter chegado ao Sporting fui chamado à seleção A, para um jogo com a Roménia. Perdemos 3-2 em Alvalade e eu entrei nos últimos 25, 30 minutos. Foi a minha estreia na seleção. Acabou por ser uma coisa natural. O que eu não estava à espera era de afirmar-me tão rapidamente no Sporting. A partir do momento em que era titular, o resto acabou por ser natural. O que é certo é que venho da 2ª divisão e dois meses depois estou a estrear-me na seleção.

      Como era o ambiente da seleção?
      Completamente dividida. Nessa altura não era seleção nacional, era norte contra sul. Tenho histórias curiosas. Por exemplo desde chegar o homem do dinheiro na seleção para nos pagar as diárias e alguém do FCP, normalmente o Gomes, dizer: “O primeiro a receber sou eu”. O Jordão picava-se e dizia também: “O primeiro a receber sou eu”. Montava-se logo ali um clima de hostilidade (risos) e acabavam por receber os dois ao mesmo tempo. Mas aquilo notava-se até nas mesas. Os jogadores do FCP sentavam-se numa mesa, os do Sporting e do Benfica noutra. Este clima só foi diluindo com a emigração dos jogadores. Ao irem lá para fora perderam um pouco aquela raíz clubística, mas já foi na tal Geração de Ouro, com o Figo e essa malta toda. Eu conheço bem, porque na seleção fui sempre entre gerações, nunca fui de uma geração. Quando me estreei na seleção, a maior parte eram jogadores mais velhos, o Jordão, o Gomes, o Manuel Fernandes. E quando esta geração de ouro aparece, eu sou o mais velho. Fui sempre apanhado entre águas, nunca foi a minha geração na seleção nacional. Acho que talvez eu seja mesmo o único jogador que fez essa ligação entre a seleção do Gomes, do Jordão e do Manuel Fernandes e do Figo, João Pinto, etc.

      Muito diferentes essas seleções?
      Muito. Com a Geração de Ouro havia mais personalidade, um querer jogar mais à bola, já não sofríamos tanto. Antigamente íamos jogar à Suécia e à Noruega e eles eram altos e fortes e quando havia bola lá por cima, a gente sofria muito. Depois, chegou esta geração que durante a sua formação jogou muitas vezes contra Alemanhas, Itálias. Estavam habituados a ter a bola, foi essa a grande diferença. Portugal começou a ter bola, antes não tinha. Antes tínhamos o Futre que agarrava na bola e podíamos respirar um bocadinho (risos), porque ele era extraordinário. Mas depois começa a aparecer muita gente: o Figo, o João Pinto, a segurar a bola e a equipa já respirava muito melhor.

      Notou essa evolução só a nível de jogadores ou também a nível de comando técnico?
      Também notei em termos de comando técnico, se bem que eu gostei muito de ter trabalhado com o Artur Jorge na seleção. O Artur Jorge era um treinador extraordinário.

      Acha que foi mal compreendido em certas alturas?
      Sim, acho que ele teve uns problemas de saúde e depois, quando foi para o Benfica, as coisas já não lhe correram tão bem. Mas na seleção adorei. Para explicar o Artur Jorge conto um episódio. Temos um jogo com a Holanda, que tinha acabado de ser campeã da Europa, com o Gullit, o Van Basten, uma equipa extraordinária, no estádio das Antas. Chovia torrencialmente e antes do jogo, ele fez-nos o filme do que ia acontecer. É uma visão de treinador extraordinária: “Vamos sofrer que estes gajos são fortes, são os campeões da Europa e podem ser campeões do mundo porque esta equipa é a melhor do mundo”. E inventou. Eu joguei a central com o Veloso, dois pequeninos a marcar o Van Basten, que tinha mais uns 25 centímetros do que eu, e o Gullit, que era outra viga. O Artur Jorge disse: “Vamos sofrer, vamos ter uma ou duas oportunidades e as oportunidades vão ser criadas aqui por este lado, com o Rui Águas a aparecer e a cabecear. Se fizermos golos nessas oportunidades, ganhamos o jogo”. E ganhámos 1-0 com um golo em que o Cadete cruza e o Rui Águas marca de cabeça. Ele sabia. Sabia como tínhamos que sofrer e como é que podíamos ganhar.

      Mais algum selecionador que gostasse de salientar?
      O Carlos Queiroz em termos tácticos é dos treinadores mais fortes que conheci, senão o mais forte. Taticamente é muito forte a treinar as equipas. A Geração de Ouro sabia que se tivesse a bola, tinha mais possibilidade de ganhar o jogo. O Figo jogasse na direita, na esquerda ou no meio sabia o que tinha de fazer. Nós não tínhamos essa cultura tática de ir mudando de posição e saber como é que se encarava isso. Foi com o Queiroz.

      Como é que se dá a sua ida para a Real Sociedad?
      O Toshack é treinador da Real Sociedad e fala com o Sousa Cintra. É ele que faz o negócio. Sinceramente eu não queria ir.

      Porquê?
      Por duas razões. Primeiro porque, financeiramente, não compensava, na altura já estava com um bom contrato no Sporting, tinha 28 anos - e a Real Sociedad não era aquilo que eu queria. Já que vou para fora, pelo menos vou para um clube mais nomeado. Tive uma conversa com o Sousa Cintra e disse-lhe: “Eu não vou sair”. Eu tinha mais dois anos de contrato com o Sporting. Andámos ali um bocado, mas acabei por sair mais pelo dinheiro que o Sporting ganhou na minha venda, do que aquilo que eu fui ganhar.

      Foi sozinho?
      Fui com o Carlos Xavier. Costumo dizer que eu já vivi mais anos com o Carlos Xavier do que ele com a mulher, e eles estão juntos desde que o conheci (risos).

      A sua mulher e os seus filhos não foram consigo?
      Foram no primeiro ano, os meus filhos inscreveram-se lá no colégio, o meu filho já falava basco, que é muito difícil, mas no final desse primeiro ano já estava com muitas dúvidas do meu casamento, já não sabia aquilo que queria - e entretanto nasceu a Fabiana. A Rosa ficou cá e lá.

      Também assistiu ao parto?
      Sim e filmei. A Fábia, como a gente lhe chama, também foi cesariana, porque a minha mulher aproveitou e fez laqueação de trompas, mas nasceu em dois minutos.

      Quando ela nasce a sua mulher já não volta para Espanha?
      Volta. Até me chateei com ela porque a Fábia tinha 7 ou 8 dias quando ela voltou para Espanha e achei que era uma inconsciência fazer uma viagem de avião com um bebé tão pequeno. Mas ao mesmo tempo adorei porque passei mais tempo com a Fábia do que passei com os meus outros dois filhos. A Fábia, com um ano, ainda não sabia falar como deve ser e já sabia cantar. Aproveitava e divertia-me com ela, mas, na altura, o divórcio já se estava a formar na minha cabeça.

      Quando foi para Real Sociedad compra casa ou vai para uma casa do clube?
      Primeiro fiquei num hotel. Depois de conhecer San Sebastian, decidi viver numa casa, o meu contrato previa isso. Depois tinha pensado que se renovasse com o Real Sociedad compraria casa, mas depois tive uma chatice com o Toshack, no último ano de contrato. Assinei com o Barcelona e ele não me deixou ir.

      Como assim?
      Na altura o treinador do Barcelona era o Cruijff e eles falaram comigo no meu segundo ano de contrato. Eu falava muito com o Bakero, que era basco e um dos capitães do Barcelona, e ele dizia-me que o Cruijff estava muito interessado em mim. Quando acabou a época o Barcelona convidou-me para a festa de campeão. Fui ao hotel Maria Cristina, tinham reservado um quarto para mim lá em cima. Falei com eles e cheguei a acordo em dois minutos. Eu estava a pensar num número para pedir ao Barcelona, entretanto o presidente diz-me: “Isto é o que podemos dar-te”. Deram-me o dobro daquilo que eu tinha pensado (risos). Disse OK. Mas disse-lhes: “Vocês têm mais um problema, é que tenho mais um ano de contrato com a Real Sociedad”. Eles disseram para não me preocupar, que tinham lá muitos jogadores bascos que tinham vindo da Real Sociedad. Havia boas relações entre os dois clubes. Assinei o contrato, com a cláusula de confidencialidade, ou seja, não se podia falar enquanto não estivesse tudo resolvido com o clube. No outro dia, mandaram um emissário para a Real Sociedad e eles pediram um balúrdio por mim. Eu já com quase 31 anos.

      ©Carlos Alberto Costa

      O que aconteceu?
      Entretanto ligou-me o Cruijff. “Sabes o quanto gosto de ti e quanto te quero na minha equipa, mas o Barcelona não pode pagar este dinheiro por ti, um jogador com 31 anos. Assinas um contrato de quatro anos e não há hipótese, é o último contrato que vais assinar, em termos teóricos. Portanto ou os gajos da Real Sociedad baixam o valor ou..."

      Tem ideia de quanto pediram por si?
      Já me esqueci, mas foi uma barbaridade. Entretanto, eu que já estava de férias, fui para a Real Sociedad ter uma reunião com o Toshack. Quem decidia era o Toshack, isto é que é duro, quem decidia era ele não era a direção do clube. Perguntei-lhe porque me estava a cortar as pernas. “Desculpa lá, mas tu não vais sair. Estamos a pedir este dinheiro porque sabemos que eles não vão pagar". Nesse ano, a Real Sociedad transformava-se em S.A. e eu era o melhor jogador do clube. Ele dizia: “Para te vendermos tem de ser por um valor que nenhum sócio possa questionar. Porque se vendermos por um valor pelo qual já vendemos outros jogadores para o Barcelona, os gajos vão dizer que temos de ir buscar um melhor e ninguém faz este trabalho”. Eu ainda lhe disse que aquela era a última oportunidade que tinha de jogar num grande como o Barcelona. Mas ele não quis saber. Foi de tal maneira que andamos agarrados na camisa um do outro, e o Toshack era grande, tinha 1,90m (risos). Chamei-lhe tudo, disse-lhe tudo, mas nada. Até lhe disse: “Para o ano tu não tens jogador, eu vou ter uma lesão no início da época e não jogo a época inteira”. Ele sabia que isso nunca me ia acontecer (risos). Às tantas disse-lhe: “Mas há uma coisa que te vou prometer, não fico na Real Sociedad depois de acabar o meu contrato. Podem oferecer-me todo o dinheiro do mundo que não fico”. E não fiquei. Mas fiquei aquele ano.

      Custou-lhe muito ficar mais esse ano?
      Foi o meu ano mais difícil. Custou-me a motivação para começar a época e em termos de rendimento foi o meu pior ano na Real Sociedad. Estava de rastos em termos psicológicos. Só pensava que nunca mais ia ter oportunidade de jogar numa grande equipa como o Barcelona. E o mais difícil estava feito que era o treinador querer-me, o presidente querer-me e eu chegar a acordo com eles. Pensei eu que o mais difícil era isso.

      Ainda por cima estava com problemas no casamento...
      Foi tudo complicado.

      Foi nesse ano que se separou?
      Não, separei-me quando voltei para o Sporting. Mas o último ano passei quase todo o tempo sozinho em Espanha. E só não me separei nessa altura porque estava em Espanha, se já estivesse em Lisboa tinha-me separado logo.

      Como é que se dá o regresso ao Sporting?
      Infelizmente dá-se por causa de uma tragédia, o acidente do Cherbakov. Apesar de… O Bobby Robson já tinha ido a Espanha falar comigo. Pouca gente sabia disso. Ele falava comigo com um entusiasmo extraordinário. Ele dizia: “Imagine this kids (que eram os Figos e aquela malta toda) with your experience, we gonna have a great team” (risos). E o entusiasmo dele fez-me querer voltar. Entretanto acontece aquilo, o Robson é despedido a meio da época, dá-se o acidente do Cherbakov, mas já tinha mais ou menos as coisas encaminhadas. Depois, vim jogar aqui o jogo de homenagem que fizemos e acertei tudo com o Sporting. O Carlos Queiroz diz que fica muito feliz com o meu regresso, que o podia ajudar. Foi bom porque senti aceitação.

      É aí que nasce uma maior amizade com Queiroz?
      Já o conhecia antes, mas logicamente que a trabalhar juntos no clube, ficou mais fácil. Eu sei que muitos sócios gostavam de mim, mas, quando volto, volto por uma porta diferente, por uma porta maior. E o respeito que tiveram por mim nessa altura foi diferente. Os melhores anos da minha carreira são esses anos no Sporting, tirando os meus primeiros dois anos na Real Sociedad, que foram extraordinários.

      ©Carlos Alberto Costa

      No Sporting apanhou aquela geração de Figo...
      ...Capucho, Balakov, Nelson, Marinho, Marco Aurélio, Valckx, Juskowiak - tínhamos uma equipa extraordinária, a melhor equipa de sempre que o Sporting teve e curiosamente só ganhámos uma Taça de Portugal. Aí é que o sistema funciona. Há coisas que marcam. Uma das coisas que me marcaram foram as afirmações do árbitro Jorge Coroado. Eu nem gosto de falar de árbitros, acho que todos erram, embora às vezes errem mais para um lado do que deviam (risos). Mas um árbitro ter o desplante de ir para a televisão ver o jogo que nós fizemos em Chaves, que empatámos 2-2, em que há três penáltis escandalosos, e ele ter o desplante de ir à televisão, olhar para os lances e dizer: “Realmente, depois de olhar para isto fico com uma certa azia”. É o gozo. É das coisas que, não valia a pena. Ok, enganaste-te, já nos prejudicaste, ainda por cima não foi uma nem duas, mas três, para não falar de outros lances que aconteceram durante o jogo, Mas o penálti é o lance mais claro do futebol e houve três. Em 100 pessoas, se perguntassem, os 100 diziam que era penálti, até as próprias pessoas do Chaves. E ele teve aquele desplante. Para mim foi das coisas que mais me doeram na carreira. Se calhar não tem maldade nenhuma, mas vir dizer aquilo com aquele ar meio de gozo... Marcou-me.

      Que outras memórias tem dessas últimas épocas no Sporting?
      Nunca me senti tão bem. Ainda por cima estava a sair daquela fase do divórcio (risos). No ano em que se consuma o divórcio, foi o ano em que já estava o belga Waseige e o Otávio Machado.

      Apanha também o caso do very-light.
      Eu estava lá. Estava com jogadores do Benfica que também não iam jogar, atrás da baliza. Esse foi o único jogo que não joguei na época por estar lesionado. Tenho essa imagem perfeitamente guardada na cabeça. Estava atrás da baliza e lembro-me do very-light ter saído da outra bancada do fundo, lembro-me do barulho, um foguete autêntico, e nós todos quando viramos a cabeça para trás, abriu-se uma clareira na bancada e só estava a vítima no meio, ainda com o fumo a sair do peito. É uma imagem duríssima.

      E relações menos boas no futebol?
      No Sporting tive uma relação muito conturbada com o Carlos Manuel. Eu dou-me bem com toda a gente, há uma pessoa com quem me dou menos bem chamada Carlos Manuel (risos).

      Porque é que as coisas não correram bem entre vocês?
      Porque, como é que eu hei-de pôr isto...Na altura, eu era capitão de equipa, e senti que quando o Carlos Manuel chegou, a equipa toda estava com ele, porque ele estava a fazer um trabalho extraordinário no Salgueiros. O primeiro erro que ele cometeu: chegou e contratou mais sete ou nove jogadores. O Sporting que já tinha um plantel vastíssimo. Ou seja, fazíamos treino com 30 e muitos jogadores, o que nenhum treinador do mundo consegue fazer. Começaram-se a criar muitos conflitos na equipa. E o Carlos Manuel começou a desligar-se desses conflitos e achei que não devia ter feito aquilo, tanto que acabo por ter uma discussão com ele, dentro do balneário, perante toda a gente.

      Quando?
      Empatámos um jogo em casa, ele diz que não tínhamos jogado nada, que foi uma vergonha. Pedi para falar e disse que ele não tinha legitimidade em dizer aquilo. Tinha acontecido uma coisa ao longo da semana entre mim e ele. Havia um jogador francês, o Didier Lang, e 90% dos golos eram feitos com o Didier porque nós combinávamos muito bem. Houve uma altura em que o Didier se pôs de cócoras num treino e diz: “Moi j'arrête, pour moi c'est fini”. Não treino mais, acabou. Eu disse, Didier não podes fazer isso, estamos no meio do treino. Ele sentou-se no meio do relvado. Acho que o Sporting devia-lhe umas “luvas”, não lhe tinha pago ainda, e ele diz: “Estes gajos não me pagam e eu já não faço mais nada”. Tentei convencê-lo e não consegui. Fui ter com o Carlos Manuel, que era o treinador, disse-lhe que tinha tentado demover o Didier mas não tinha conseguido. E ele responde: “Estou-me a cagar”. E deixou que a situação acontecesse. Aquela situação despoletou outras situações dentro do treino. Um chateou-se com o outro, o outro com o outro. O treino começou a ficar muito agressivo e aquilo correu mal até ao fim de semana. No final, ainda fui bater à porta do balneário dele e disse-lhe que o que o que tinha feito acabou com o treino, porque os jogadores sentiram que podiam fazer o que que queriam, não viram a autoridade como treinador. Ele diz que não quer saber, que estava a fazer o relatório para mandar para o presidente e ele que resolvesse. Ora, quando o jogo corre mal, e só podia correr mal, e ele trata-nos daquela maneira, disse-lhe que não tinha legitimidade nenhuma porque quando não queres saber das coisas que se passam nos treinos também não vais ter legitimidade nenhuma no jogo para dizer que eu joguei bem ou joguei mal. O caldo ficou entornado. Foi o primeiro treinador a pôr-me no banco. Mas depois, quando as coisas estavam mal, eu entrava e resovia. Em Braga entrei, fiz golos, e houve outros jogos em que entrei e fiz golos. Mas pronto, foram dos momentos menos bons. Ainda por cima, segundo alguns jornalistas - atenção que não sei até que ponto é que isto é verdade - o Carlos dizia nos almoços com os jornalistas amigos dele que havia dois jogadores que ele ia lixar no Sporting: um era o Oceano o outro era o Pedro Barbosa. Só que ele esquecia-se que os jornalistas também nos conheciam e alguns deles eram nossos amigos e vinham contar. Não sei até que ponto é verdade ou não, mas a verdade é que eu e o Pedro Barbosa íamos para o banco (risos). Não há coincidências.

      E na seleção fez o europeu de Inglaterra, em 1996, com António Oliveira selecionador. Deve ter muitas histórias que não pode contar.
      O “Caso Paula”, por exemplo (risos).

      Exatamente.
      Nessa altura era eu o capitão da seleção.

      Foi complicado?
      Foi complicado mas o mais grave é que eu já sabia que aquilo ia acontecer.

      Como assim?
      Porque pressentia. Eu via as movimentações que estavam a acontecer. Não vale a pena estar a dizer nomes. Entretanto houve 5, 6 ou 7 meninos a quem eu disse: “Eu vou jantar em casa, mas vocês vão sair à minha frente”. E saíram todos à minha frente. Aqueles que eu achava que deviam sair. Ainda hoje dão-me beijinhos e dizem: “Ainda bem que nos tiraste de lá, porque mesmo que não fizéssemos nada, estávamos lá” (risos). Eu avisei-os, disse-lhes: “Esta noite vai haver merda”. E todos aqueles que eu podia “controlar”, porque havia jogadores que por muita amizade que tivesse eu não podia controlar, mandei-os sair à minha frente.

      Sobretudo jogadores do Sporting, cálculo.
      E alguns do Benfica também, não foi só com os do Sporting. Mas foi complicado. Ainda me lembro, uns meses depois estava em casa e aparece na televisão, na SIC: “Sexo, drogas e álcool na seleção nacional”. Jesus! Mas drogas, não houve nada. Sexo não sei se houve (risos), um bocadinho de álcool, talvez (risos). Houve muitas inverdades que se disseram no meio disso tudo. Havia até umas histórias que eu tinha ido não sei aonde pagar às raparigas (risos). Eu nem sei quem eram, inventaram tantas histórias, mas enfim.

      ©Catarina Morais

      Porque é que vai para Toulouse?
      Vou para Toulouse e talvez tenha sido um erro.

      Porquê?
      Os meus últimos contratos no Sporting, assinei-os todos ano a ano. Falava com o presidente e dizia-lhe: “No final da época tenho de fazer um balanço e há uma coisa em que tenho de ser verdadeiro: este é o clube do meu coração, é o clube que eu amo e se sempre fui verdadeiro com todos os clubes com este aqui mais se justifica. Se sentir que tenho capacidade para jogar mais um ano e se vocês estiverem interessados, chegamos a acordo”. Nesse ano, declarações de todos os dirigentes do Sporting: “Este ano, o Oceano vai fazer aquilo que fez estes anos, chega aqui e em dois minutos renovamos o contrato”. Entretanto há aquela confusão de que falei entre mim e o Carlos Manuel, o Carlos depois é despedido e o Sporting fica com um plantel de quase 40 jogadores e realmente tem de reduzir, tem de dispensar jogadores. Mas eles precisavam de um treinador para essa lista de dispensas. É quando o Sporting me faz aquela proposta que foi a melhor proposta da minha vida, mas que nunca poderia aceitar.

      Explique melhor.
      A direção do Sporting reuniu-se comigo e disse-me: “Tu vais ser o treinador do Sporting, mas ficas como adjunto do próximo treinador que vier, um treinador estrangeiro”. Isto porque eu não tinha formação nem curso nenhum de treinador. “Vamos pagar-te toda a especialização, todos os cursos que tenhas de fazer”. Em termos salariais eu ia ganhar mais do que ganhava como jogador e era um contrato para cinco anos. Primeiro, não aceitei, porque só pensava: “Quero é jogar, quero é jogar”. Mas depois comecei a pensar, jogo mais um ano e acaba a minha carreira, se calhar a melhor altura é agora. Entretanto liguei para alguns jornalistas meus amigos e eles foram alertando: “Atenção que há uma lista de dispensas para assinar e, provavelmente, como vais ser o único treinador que o Sporting vai ter até irem de férias, vais ter de assinar essa lista”. Perguntei à direção do Sporting, e era assim mesmo. Disse que não aceitava porque havia nomes naquela lista de jogadores que tinham sido meus colegas ao longo dos últimos 3,4 anos e a minha primeira ação como treinador seria dispensá-los. Achei que não devia fazer isso. Mas foi um erro da minha parte.

      Porquê?
      Primeiro, porque esses jogadores, muitos deles nem souberam e os que souberam nem sequer me disseram nada. Ao menos podiam ter dito: “Obrigado pela solidariedade”. Segundo, porque de uma forma inteligente podia ter mudado essa decisão. Assinaria contrato com o Sporting e depois dizia que precisava de olhar para esta lista e era eu quem fazia a avaliação da lista. Mas aquela coisa “Vocês querem que eu fique no Sporting só para assinar esta lista de dispensa”, a minha tendência foi logo dizer que não. Devia ter pensado um bocadinho mais e provavelmente teria dado a volta a essa decisão e teria ficado no Sporting.

      Como surge a oferta do Toulouse?
      Aí há um empresário que entra no meio e que me diz que tem uma oferta do Toulouse.

      Quem foi?
      O Jorge Manuel Mendes e o Luís Vicente. Entretanto, fui de férias e, depois de tantas coisas que saíram no jornal sobre a minha saída do Sporting, tive de dar uma entrevista a explicar que simplesmente acabava contrato e que o Sporting não estava interessado na minha continuidade enquanto jogador. E fui para França jogar mais um ano.

      Foi sozinho?
      Sim, sozinho. Já estava separado há mais de um ano. Fui sozinho, a Marina Mota começou a ir lá passar uns fins de semana.

      Como conhece a Marina Mota e como surge o vosso relacionamento?
      A Marina conheço desde sempre. Conheci-a e ao Carlos Cunha, na altura ainda eles eram casados. Eu ia muito ao teatro, sempre gostei muito de teatro. Chego a ir de fim de semana a Londres só para ver peças de teatro. Adoro. Gosto de tudo. Gosto de ver bons espetáculos, bons atores. Prefiro um bom teatro ou um bom espetáculo musical a cinema

      Então começa a frequentar o Parque Mayer, é isso?
      Todos os jogadores do Sporting frequentavam o Parque Mayer há muitos anos e, sempre que estreava uma revista, nós íamos. O Carlos Cunha e a Marina são do Sporting, o Fernando Mendes também. E aquilo era engraçado, nós queríamos era estar com eles. Já na altura havia uma amizade muito grande. Depois cada um foi à sua vida. Entretanto a Mariana separou-se do Carlos, esteve uns anos separada dele, passados uns anos separei-me eu. Íamo-nos encontrando de vez em quando, por coincidência, acabámos por ir jantar algumas vezes e fomo-nos aproximando. Quando demos por ela, o cupido já estava em ação (risos).

      Foi para Toulouse.
      Estou lá um ano, não acabei essa época. A um mês e meio do fim do contrato decidi rescindir.

      Porquê?
      Já me estava a custar ir treinar. Outra das promessas que eu tinha feito era a de que quando não tivesse motivação para ir treinar era altura de acabar a carreira.

      Estava a custar-lhe ir treinar porquê?
      Primeiro, pelo frio. Estamos a falar de 13, 14º negativos. No sul de França aquilo quando toca a frio é frio a sério. Depois, com o primeiro treinador, o Lacombe, era uma relação muito profissional, mas com o segundo treinador, o Giresse, já não era só uma relação profissional, era também de amizade. Ele dizia-me: “Tu és o meu melhor jogador e eu não preciso que venhas cá treinar, não te apetece treinar, liga para mim, não tenhas problema, eu quero é que estejas bom para jogar”. Abusei dessa regalia, durante 1, 2 semanas e depois não estava a sentir-me bem. Sempre gostei de treinar, ainda hoje adoro treinar. Como estava a abusar daquela regalia, percebi: “Isto não és tu Oceano”. Falei com o Giresse, disse-lhe que já estava a custar-me levantar para ir treinar, não estava a ser honesto essencialmente comigo próprio, nem com o clube, por isso era melhor ficarmos por ali. Lá forcei um bocadinho mais a barra e pronto.

      Custou-lhe arrumar as botas?
      Não. Custou-me sair do Sporting. A partir do momento em que saí do Sporting, acho que na minha cabeça já estava... Só aguentei mais tempo em Toulouse para demonstrar às pessoas que ainda tinha capacidade. Mesmo vindo embora mais cedo, fui o jogador que fez mais minutos e fui o melhor marcador do Toulouse (risos).

      Qual foi o momento da sua carreira mais importante para si?
      Espanha. No final do meu primeiro ano lá, quando recebo o prémio do Don Balón, como um dos melhores jogadores do ano. Essa votação era feita pelos treinadores. Era uma votação muito importante. Depois, havia um jogo que fazíamos que era os melhores jogadores do campeonato espanhol contra o Real Madrid ou Barcelona. Se fosse em Madrid, era com o Real e os jogadores do Barcelona entravam na equipa dos melhores jogadores de Espanha; se fosse em Barcelona, jogávamos contra o Barcelona e os do Real entrava na nossa seleção. Era uma festa no final da época em que a receita revertia para a luta contra a droga. Ia o Rei de Espanha, atores e atrizes espanholas, era o dia inteiro com jogos e acabava com o jogo das estrelas. Aí senti: agora sim, estou no auge.

      ©Carlos Alberto Costa

      Em relação à seleção nacional, tem alguma frustração?
      A minha primeira frustração começa logo em 1986, no Mundial do México e a partir daí fiquei vacinado em termos de seleção.

      Não foi.
      Pois não. Já me tinha estreado na seleção. Faço a minha estreia pela seleção em 1984, entretanto há o golo do Carlos Manuel em Estugarda que nos dá o apuramento. Nessa semana tenho um convite do selecionador José Torres para irmos almoçar. Em que me disse que tinha sido cometida comigo uma grande injustiça. No fundo, era um pedido de desculpas do selecionador. Ele dizia que eu era jogador que merecia ter estado mais vezes na seleção, até porque era titularíssimo no Sporting e estive poucas vezes. O meu suplente do Sporting é que ia à seleção nacional. Não fazia sentido. Eu disse-lhe que não compreendia as opções dele. Sempre respeitei as opções dos treinadores, apesar de nesta situação não o compreender. Como é que eu é que jogo e o outro é que vai à seleção? E ele fez-me uma promessa, nos meus olhos: “Há uma coisa que eu te prometo, se tu continuares a ser titular do Sporting, daqui até ao final da época (ainda faltavam uns meses para acabar a época, até ao Mundial de 1986), não és tu e mais 22, és tu e mais 10, no México”. Ok. Não só continuei a titular do Sporting, como joguei os 90 minutos de todos os jogos, desde esse dia em que falou comigo. Fomos à Luz ganhar 2-0, demos o título de campeão ao FCP nesse ano, e quando chegou a convocatória final ele não me levou. Essa foi a minha grande desilusão.

      Nunca soube porquê?
      Nunca. E aconteceu outra coisa mais grave. O Venâncio teve que ser operado ao joelho e diz-me: "Há males que vêm por bem. O gajo cometeu uma injustiça ao não te chamar, mas agora como não posso ir, só te pode chamar a ti". A verdade é que ele chamou um jogador do Belenenses, que não interessa o nome, só para não me chamar. Nunca percebi porquê.

      Nunca houve nada, uma discussão?
      Nada. Ele quando foi selecionador, nunca me chamou, portanto nunca houve nada com ele. E isso ficou-me atravessado, porque era mais do que merecida a minha convocatória.

      Nem ouviu nada?
      Uma vez, depois de Saltillo, apanhei-o no Estrela da Amadora, acho eu, num jogo que fomos lá ganhar, e fui eu que fiz o golo. Fui à conferência de imprensa, porque fui considerado o melhor jogador em campo, e mal entrei, ele disse: “Este jogador é um craque do caraças”. Explodi, mas em privado, só com ele. Disse-lhe o que tinha a dizer. Ficou a olhar para mim e terminei “Agradeço que nunca mais me dirija a palavra e nem olhe mais para mim”.

      Quando veio de Toulouse, já sabia o que ia fazer da sua vida?
      Sabia que queria viajar. Foi outra promessa. É só promessas, pensava que eram só duas, mas afinal foram uma data delas (risos). Ao longo da minha carreira viajei para todo o mundo, mas só conhecia aeroportos, hotéis e estádios. E prometi a mim mesmo que ia viajar a sério no mundo. Quando vim de Toulouse, estive três anos a viajar. Ainda por cima, na altura, juntou-se a fome com a vontade de comer, porque a Marina adora viajar. Portanto estivemos três anos a viajar.

      Andaram por onde?
      Ui, tantos sítios. Vou dar um exemplo. Fomos para o Brasil, com a passagem só de ida. Chegamos ao Rio, fomos 4 dias para Angra, voltámos ao Rio, ficámos mais uns dias, fomos mais 4 dias para Búzios. Depois íamos para a Foz de Iguaçu, para as Cataratas, mais 4, 5 dias. Depois Manaus - estivemos na Amazônia também no único hotel 5 estrelas construído em cima de árvores, o Ariaú. O chefe da tribo da Amazónia engraçou com a Marina. Tínhamos direito a um jantar lá com o chefe da tribo e fomos a seis ou sete jantares (risos). Há uma história engraçada.

      Conte.
      Fomos jantar com o chefe da tribo, num sítio que parecia um anfiteatro, mas tudo em terra, tipo um ringue de futebol de salão em terra. Era os chefes de um lado e os convidados do hotel do outro e no meio tinha um crocodilo, que estava todo cozido por dentro. Logicamente já tínhamos jantado no hotel. Chegamos lá, fingimos que comíamos qualquer coisa. Entretanto, a meio do jantar, o chefe da tribo levanta-se, começa aos gritos, agarra na Marina, aperta-lhe o braço e começa andar na diagonal pelo anfiteatro com ela pelo braço. Chegava a uma ponta gritava, voltava a correr para o outro lado, depois para o outro (risos), nunca mais acabava aquilo. As mulheres da tribo, depois, vieram buscar-me e aos outros convidados e estávamos ali a correr, já suávamos em bica (risos). Eu ainda estava em forma, agora a Marina, que ainda por cima fumava, só dizia: “Eu vou morrer!” (risos). Não sei quanto tempo estivemos a correr de um lado para o outro. Depois sentámo-nos e o chefe veio com um charuto muito grande, feito com as folhas de lá. De repente, ele dá uma passa e passava-me o charuto. Eu dizia: “Eu não fumo”. E eles "Tem que fumar" (risos). Lá fingi que fumava, queimei a minha mão e tudo só para não tocar no charuto; tirei um bafo, fiquei tonto até dizer chega. Enquanto estivemos no hotel o chefe convidava-nos para ir lá jantar todos os dias (risos).

      A Marina sobreviveu às corridas?
      Ela chegou junto dele e mostrou-lhe uma cicatriz que tem no joelho e disse-lhe: “Está a ver, eu não posso correr” (risos), para evitar aquela correria todos os dias. Uma viagem que era para ser de 10 dias, ficou em 48. As nossas viagens eram assim.

      Mas foi só no Brasil?
      Não, também fomos para a Malásia. Conhecemos praticamente todas as ilhas da Malásia. Ficávamos 3,4 dias numa ilha, voltávamos para Kuala Lumpur, depois íamos para outra ilha.

      Qual foi o sítio que mais lhe encheu as medidas?
      Eu adoro o Brasil, mas um destino turístico de eleição é a Tailândia. Conheço tudo da Tailândia. Já fui para o Brasil umas 100 vezes e não conheço nem metade. Mas na Tailândia conheci as ilhas todas. Também tenho lá histórias divertidas com a Marina. Uma vez entrámos numa loja, estava a dar música e começámos os dois a dançar. Os turistas começaram a aplaudir e os tipos da loja já queriam contratar-nos para lá irmos dançar todos os dias (risos).

      Quando começa a pensar mais a sério sobre a vida em termos profissionais?
      Quando acabei esse período, depois comecei a trabalhar com uma empresa inglesa que representava muitos jogadores e onde era consultor executivo, ou seja dava opinião sobre os jogadores. Era bem pago.

      Como arranjou esse emprego?
      Através do Luis Vicente e do Amadeu Paixão. Depois tornei-me amigo do presidente da empresa, Jerome Anderson. Ele dizia-me: “É obrigatório estares em Londres no fim de semana. Tens hotel, está tudo pago, podes estar a semana toda em Londres. No fim de semana tens de reunir comigo”. Eu ia ao fim de semana para Londres, tinha uma reunião de uma hora com ele e depois, como eu que gosto pouco de ir ver espetáculos em Londres (risos), comecei a dizer que queria bilhetes para os espetáculos. Era uma maravilha. Foi o melhor emprego que tive (risos). Depois acabei por decidir que queria ser treinador.

      O que o levou a tomar essa decisão?
      Já tinha isso na cabeça. Sabia que não servia para ser agente desportivo, tinha o bicho do futebol, achava que percebia um pouco de futebol e resolvi tirar os cursos. Mas também meti na cabeça que só ia começar a treinar quando tivesse feito todos os cursos para ser treinador. Normalmente, em Portugal, os treinadores começam sem curso e depois vão tirando os cursos. Eu quis fazer ao contrário. Quando acabei o 4º nível foi quando o Queiroz convidou-me para ser selecionador dos sub-21, em 2010.

      Enquanto está a tirar os cursos continua a viver com a Marina Mota?
      Sim, durante esse período vivi com a Marina Mota na casa dela. Estivemos juntos 11 anos. Curiosamente, comecei a viver com a Marina e tive uma experiência muito engraçada com a minha filha Carina, que na altura tinha 12 anos. Virou-se para mim e disse: “Pai já resolvi tudo, a partir de agora vou viver contigo”. E eu: “Já resolveste tudo?”. “Sim, já falei com o advogado, já falei com a minha mãe, está tudo tratado”. Ela perguntou ao advogado o que acontecia se não quisesse voltar para a Madeira depois de férias e ele explicou-lhe que a mãe, se quisesse que ela voltasse, tinha que meter um processo em tribunal e nesse processo ela ia ser ouvida, a opinião dela não era decisiva para o juiz, mas contava. Ela ouviu o advogado e foi ter uma conversa com a mãe (risos), disse-lhe aquilo tudo e concluiu: “Se quiseres ir por aí…” (risos). Depois aproveitei, pedi a mudança do poder paternal e consegui. Entretanto, antes disso tive uma conversa com a Marina porque logicamente era mais uma pessoa lá em casa. Ela adorava a Carina, que desde pequena era muito amiga da Erica, a filha da Marina. Disse logo que sim. Ela começou a viver connosco desde essa idade. A Fábia ficou na Madeira. Isso marcou um bocadinho, porque a Fabiana ficou alguns anos sem a irmã e não foi fácil. A Carina,mais tarde, quando me disse que queria ir para Direito, comecei a rir-me, depois daquilo eu já sabia.

      ©Catarina Morais

      Onde investiu o seu dinheiro?
      Mais em imobiliário do que noutra coisa. Meti-me em alguns negócios mas nunca ganhei dinheiro (risos). Com a minha primeira mulher meti-me em lojas de roupa. Depois, também era para ter um cabeleireiro porque ela era cabeleireira, mas foi sempre a perder dinheiro. Com a Marina. houve uma altura em que num centro comercial em Cascais, um grupo de artistas, o João Baião, a Marina e outros, ficaram entusiasmados e compraram umas lojas. A Marina tinha uma loja de antiguidades, foi a Hong Kong buscar peças com 200 anos, pôs na loja, tinha um restaurante com o Carlos Cunha chamado “Tás aqui tás a comer”. Eu tinha uma loja que era o "Quarto Oceano" que vendia roupa, o João Baião também tinha duas lojas. Depois montámos o bar, que também foi para perder dinheiro, mas foi uma experiência gira (risos). Depois percebi que não tinha jeito nenhum para lojas, restaurantes, bares e decidi apostar onde devia apostar: na formação dos meus filhos. Hoje em dia, se eu desaparecer sei que os meus filhos estão bem. Portanto, agora tenho imobiliário e sei que se parar de trabalhar consigo comer bem até morrer.

      Onde é que ganhou mais dinheiro?
      Logicamente foi no Sporting, porque foram mais anos. Mas por época foi na Real Sociedad. Toulouse no último ano também não foi mau.

      Entretanto começa a treinar a seleção de sub-21. Sentia-se preparado?
      Sim, mais que preparado, já tinha acabado todos os níveis.

      Gostou da experiência de treinar a seleção?
      Como primeira experiência de treinador para mim foi ótimo. Trabalhei com jogadores que ainda tinham em mim a imagem de jogador, ou seja, havia o respeito do meu passado como futebolista. As coisas são mais fáceis para um treinador quando entra num balneário e já há um respeito adquirido. Facilita o trabalho. E apanhei um conjunto de excelentes jogadores. Além disso, não estava só nos sub-21, também estava na equipa nacional com o Carlos Queiroz, apesar de não ser o adjunto principal dele, em muitas decisões estava lá.

      Depois vai para adjunto do José Couceiro no Sporting. Porquê?
      Saio dos sub-21 essencialmente porque o Queiroz sai da equipa principal depois do Mundial da África do Sul. Ainda por cima saiu com os problemas que saiu, com tentativa de rescisão de justa causa por parte da FPF; senti que aquilo que estavam a fazer com o Carlos não era o mais correto. O Couceiro aparece pela amizade que já tínhamos antes. Ele liga-me, eu estava sem fazer nada: "Preciso que me venhas ajudar aqui no Sporting". Essa foi a razão. Fui sem hesitar.

      Mas não fica muito tempo porque saí para a União de Leiria como adjunto do Dominguez.
      Não foi bem adjunto. Fizemos uma joint-venture. Foi a primeira vez que estiveram dois treinadores em igualdade de circunstâncias. E é engraçado porque eu estava no Brasil de férias. Estava lá com o Romário e adiei a minha viagem 10 vezes.

      Então?
      Porque o Romário estava sempre a dizer: “Portuga fica aqui mais uns dias” (risos). E eu lá ia ficando. Entretanto, aparece a hipótese da U. Leiria. O Domínguez fala comigo, para assumirmos os dois, até porque era a primeira experiência para ambos como treinador principal. Falei com o Bartomeu, presidente da U. Leiria, porque eu já sabia que os jogadores tinham um problema de ordenados em atraso. Disse-lhe que só ia para Leiria com a condição de, antes de pisar o campo para o primeiro treino, os jogadores terem os ordenados em dia. Ele prometeu-me que sim. Voltei do Brasil diretamente para Leiria.

      Porque é que estava no Brasil com o Romário?
      Fui lá para ser padrinho da equipa de futvolei. Entretanto, acabou o torneio, a Marina Mota estava lá, na rede Globo - foi um ano em que ela esteve a fazer uma novela. Vivia na Barra da Tijuca, numa casa extraordinária, e disse-me para ficar uns dias com ela. Já estávamos separados na altura, mas sempre tivemos uma amizade muito grande, ainda hoje fazemos férias juntos se for preciso. Temos mesmo uma amizade muito grande. Fiquei lá com ela. Entretanto, passava o dia na praia com o Romário a jogar futevolei. Depois ele dizia: “Vai uma rodinha de samba?”. Ligava para a Rocinha e com dois telefonemas vinham algumas pessoas da escola de samba da Rocinha para a praia ao final do dia para fazer uma roda de samba. Claro que eu dizia, vou ficar aqui mais uns diazinhos (risos). E fui adiando.

      E chega a Leiria.
      O presidente mostra-me os cheques em como já tinha pago aos jogadores, mas no dia seguinte os cheques bateram na trave, só que eu já tinha assinado o contrato. Começamos logo mal. Depois, ele foi assistir ao primeiro treino, e cá de fora começou a fazer sinal, a chamar-me mas eu fingi que não o vi. Depois do treino, veio ter comigo. “Não viu que eu o estava a chamar?”. “Não viu que eu estava dar treino?” E ainda acrescentei: “Da próxima vez que vier aqui convém trazer dinheiro que os jogadores não aguentam mais”. Depois foi aquela coisa traumática de acabarmos a época com uma equipa de 7, 8 jogadores. Começámos um jogo com 8 jogadores. É histórico. Não havia mais ninguém. Jogámos contra o Benfica a três jornadas do fim com 6 ou 7 juniores. O pessoal foi-se todo embora. Eu paguei para treinar a U. Leiria. Havia jogadores que não tinham dinheiro nem para pôr gasolina no carro e logicamente a nossa tendência é ajudar.

      O Oceano chegou a receber?
      Não me lembro, acho que não. Mas aquilo que ia receber na U. Leiria também era irrisório (risos). Fiquei com pena dos jogadores. Entretanto, entrou o Sindicato, o [Joaquim] Evangelista [presidente do Sindicato] resolveu alguns problemas, mas o problema maior é que o clube acabou e os jogadores não podiam ir pedir o dinheiro a lado nenhum. O Sindicato tem um fundo, mas esse fundo deveria ser reforçado porque ainda há muitos problemas destes por aí.

      ©Catarina Morais

      Volta ao Sporting.
      Sim, para fazer a equipa B do Sporting. Esse foi o melhor projeto que fiz até agora, o mais aliciante, porque foi para começar uma coisa do zero. Logicamente, tinha uma base boa que eram os juniores do ano anterior. Depois acabei por não conseguir finalizar a época para ter de assumir a equipa principal do Sporting. Mas não devia ter aceite. Foi um erro grande em termos de carreira.

      Porquê?
      Porque eu não acreditava naquela equipa. A pior coisa para um treinador é trabalhar com jogadores nos quais não acredita. Como aliás deve ser mau também para os jogadores. Também fiquei com a sensação de que os jogadores da B sentiram que eu os abandonei. Nunca devia ter aceite ser interino. Aliás, a minha conversa para os jornalistas sempre foi: "Não há treinadores interinos. Ou sou treinador ou não sou treinador". Nunca devia ter aceite terem colocado o rótulo de interino.

      Estreou-se nas Antas.
      Sim, com o FCP. Depois, fiz um jogo com o Moreirense. E por saberem que era só por dois jogos não fiz aquilo que deveria ter feito que era agarrar em 7 jogadores da equipa B e pô-los na primeira equipa logo na primeira semana. Agarro a equipa numa quinta-feira à noite e sábado ou domingo jogamos contra o FCP, portanto, também não dá para fazer nada. Mas o pior foi ficar com a sensação de que os jogadores da B pensaram que eu os abandonei. Entretanto, chegou o Vercauteren.

      Porque é que aceitou então?
      Essencialmente, porque o presidente encostou-me à parede. Disse-me: “Neste momento não temos treinador na equipa A, o Sá Pinto foi despedido, e temos um treinador na equipa B que está a fazer um trabalho extraordinário. Estamos a pedir encarecidamente a esse treinador da B que nos ajude nesta fase de transição aqui no Sporting. E não compreendemos porque é que esse treinador pode pensar em dizer que não” (risos). Foi bem feito.

      Depois veio o Jesualdo.
      Sim, com quem já tinha uma amizade muito grande. Aí fiquei mesmo por achar que tinha muito a aprender com ele.

      Essa amizade surge como?
      Do futebol apesar dele nunca ter sido meu treinador, mas já nos conhecíamos, e havia aquela química que às vezes não conseguimos explicar. E senti que tinha tudo a aprender com ele, porque é um mestre e gosta de ensinar. O Jesualdo é mesmo professor. E aquilo que o Jesualdo queria fazer no Sporting era o que eu queria. Ele subia na estrutura e eu ficava no campo com liberdade para tomar as minha opções enquanto treinador. Ele quando organizou o departamento de futebol do Sporting foi com essa ideia, mas depois foi atropelado.

      Porque entretanto surge o Bruno de Carvalho.
      Exato. E o Jesualdo entra em choque com o Bruno de Carvalho e acaba por ir embora ainda antes do fim da época. Quem leva a equipa para o Brasil para a inauguração do estádio do cruzeiro sou eu, porque o Jesualdo foi embora nessa semana.

      O Oceano não fica porquê?
      Não fico porque em primeiro lugar no Sporting ninguém falou comigo. E o mais engraçado é que eu devia ter sido a primeira pessoa com quem deviam ter falado porque tinha mais um ano e meio de contrato com o Sporting. Comecei a achar muito estranho aquilo e depois comecei a ver muitas manobras de bastidores, nomeadamente a quererem rescindir com o Manuel Fernandes por extinção do posto de trabalho. De repente o Sporting já tinha contratado o Leonardo Jardim e o Inácio estava como diretor desportivo. Vou ter uma reunião com o Inácio e ele diz me: “Nós estávamos convencidos de que ias para Braga com o professor Jesualdo Ferreira”. “Acho muito estranho que possam dizer isso quando eu tenho mais um ano e tal de contrato com o Sporting. Teria sido uma burrice da minha parte se assinasse com o SC Braga sem dar cavaco ao clube”. Ele contou-me duas ou três mentiras seguidas, eu percebi tudo e disse agora vão ter de resolver as coisas com o meu advogado. A partir daí, desliguei-me. E o meu advogado resolveu, rescindi depois.

      Foi logo convidado pelo Queiroz para ir para o Irão?
      Não. Ainda fiquei algum tempo sem fazer nada. Porque no Irão na altura estava o senhor António Simões com o Carlos Queiroz. Quando o Irão se apura para o Campeonato do mundo do Brasil em 2014 e o Simões rescinde, o Carlos liga-me.

      Que tal está a ser a experiência no Irão?
      Um país complicado. Mas mais complicado para as mulheres do que para os homens. É um país que tem as suas limitações e temos de saber viver com essas limitações.

      O que é que lhe fez mais confusão?
      Faz-me confusão algumas normas que para mim não fazem sentido nenhum. Num país onde há uma seleção de sub-19, sub-20 e seleção A feminina~s, as mulheres não podem ir ao futebol. Faz-me uma confusão tremenda. Quer dizer: as mulheres podem estar no relvado mas não podem estar na bancada? E depois aquela coisa de estarem sempre muito tapadas e de ser um país onde tudo é proibido mas onde se faz tudo. É um país de extremos.

      Mas não vive lá em permanência.
      É a vantagem de estar na seleção. Vivo num hotel, porque é mais cómodo para mim, uma vez que estou sozinho.

      Agora vive onde?
      Em Lisboa. Aluguei. Tinha pensado em comprar mas já desisti dessa ideia. Estou à espera que saia o Euromilhões para poder comprar em Lisboa. Já decidi comprar casa do outro lado. Volto às minhas raízes, só que agora ao pé da praia. São João, Santo António, por aí.

      Ainda tem as filhas em casa consigo?
      Tenho a Fabiana. Essa não sai de casa tão cedo (risos). Ela tirou jornalismo, começou a estagiar na Rádio Cidade, depois do estágio assinou contrato, mas entretanto foi para a Bola Tv e agora apareceu um convite da SIC. Já tem algum percurso. A Carina casou, é inspetora da PJ, não tem filhos ainda.

      Em termos pessoais, depois da Marina, teve outros namoros públicos, nomeadamente com uma jornalista da TVI...
      ...Mas já acabou. Estou solteiro. A Conceição é uma pessoa extraordinária, mas foi numa altura complicada da minha vida, uma altura em que se instala o bem estar de querer viver sozinho e isso é um vírus terrível. E depois não nos conseguimos adaptar a dividir a nossa vida com alguém.

      Já estava sozinho há muito tempo?
      Há uns 11 anos.

      Qual é a sua maior ambição agora?
      Continuar a minha carreira de treinador. Tenho que voltar a ser treinador principal. Todos os anos recebo convites, só que acho que este projeto do Irão vale a pena levá-lo até ao fim. Porque levar uma seleção como esta a dois mundiais consecutivos é muito bom.

      ©Carlos Alberto Costa

      Calhou ao Irão um pote muito forte, onde está Portugal e Espanha.
      Por isso fazer com que o Irão passe à 2ª fase é um grande e aliciante desafio. Num mundial tudo é possível. Logicamente olhando para todos os grupos, em todos há uma equipa favorita e neste há duas. Os outros dois estão à espreita.

      Acha que é possível o Irão chegar aos oitavos de final?
      Sim. Conheço todas as seleções do grupo. Conheço bem a Espanha, logicamente Portugal, e também Marrocos porque dediquei-me nos últimos tempos só a Marrocos. A nossa grande final é com Marrocos, porque uma vitória abre-nos portas para sonhar com mais coisas.

      E Portugal vai chegar longe?
      Nas fases finais dos Campeonatos do Mundo passa tudo por passar à fase seguinte, passo o pleonasmo. A seleção nacional se passar à fase seguinte pode querer tudo.

      É possível sermos campeões do Mundo?
      Então não é? Perfeitamente possível.

      De todas as seleções que já tivemos esta é a que pode chegar lá?
      Não, curiosamente acho que já tivemos seleções mais fortes, mas considero que nesta estão criadas as condições para que chegue lá. Em termos individuais já tivemos seleções muito mais fortes, mas em termos de grupo este pode ser muito forte e o Fernando Santos aqui fez um belíssimo trabalho. Tem um grupo de jogadores que sonham em chegar lá e que trabalham para isso.

      Quando diz que já tivemos uma seleção mais forte, está a referir-se a qual?
      À seleção do Euro 2004. Era uma seleção fortíssima, essa para mim talvez tenha sido a melhor seleção de sempre. Éramos fortíssimos em todos os setores e neste momento, há zonas que precisam de ser reforçadas, vamos ver como é que o Fernando vai trabalhar isso.

      Tem uma página oficial do Facebook. É o Oceano que trata dessa página?
      Não, eu sou muito mau com essas coisas. É a minha filha Fabiana. Até do meu Instagram é ela que trata. E há dias cometi um erro: respondi a um iraniano e depois fui ofendido por tudo e mais alguma coisa.

      Levou nas orelhas das suas filhas?
      Sim, por ter respondido. Por isso é que neste momento são elas que estão a gerir. “Pai, não mexe mais nisto” (risos).

      Para terminar conte mais uma história do futebol.
      Tenho uma gira que posso contar. Houve um jogador brasileiro que veio à experiência ao Sporting e sentimos que esse jogador estava dopado. Pela forma como ele respirava, com a boca cheia de sede logo no princípio do treino da manhã. Nós, os jogadores mais velhos, combinámos só passar a bola a esse gajo. E passamos meia hora só a meter-lhe a bola. Ele não parou de correr. Às tantas, ia morrendo (risos). Mas tivemos sorte que não aconteceu nada, mas ele caiu para o lado mesmo (risos). Tenho outra, no Almada, de um jogador que não tomava banho. Acabava o treino e ia embora sem tomar banho. Durante uma semana, agarrávamos nele e metíamos o gajo debaixo do chuveiro, mas ele era o mais forte de todos, dava-nos tanto trabalho (risos).

      Noitadas enquanto jogador, fez muitas?
      Muito poucas.

      Sabia fazê-las?
      Não, fazia na véspera da minha folga. Normalmente era assim, saía uma vez por semana na véspera da folga.

      Mas apanhou um grupinho que ganhou a fama de fazer muitas noitadas, Sá Pinto, Dominguez, Porfírio, Dani...
      O problema do Dani, às vezes, não eram as noitadas dele. Ele era influenciado pelos amigos. Havia muitos amigos que gostavam de levá-lo para ficar nas sobras do Dani, é mais isso. Porque o Dani era um gajo que se portava bem e nem era de beber muito, nem nada. Foi pena porque ele passou ao lado de uma grande carreira. Mas eu juntei gerações e apanhei esta malta nova. Logicamente, quando aparecem esses jogadores, o Sá Pinto, o Dominguez, o Dani... eu já sou um trintão portanto já não me posso misturar com esses “miúdos”, não vou estar a sair com miúdos de 19 anos. Se tivéssemos a mesma idade era diferente.

      Dava-lhes na cabeça?
      Sim, muitas vezes. Há um, não vou dizer o nome, mas ele sabe quem é que... Na altura eu vivia em Caneças e nesse fim de semana tinha apanhado o 4º amarelo e não jogava. Havia um barzinho giro ali em Caneças e fui até lá uma vez que não jogava. Vou até lá, eram duas da manhã, e quando chego, está lá esse jogador. E ele “Capitas!” (risos).

      Capitas?!
      Os jogadores chamam-me todos esse nome, “Capitas” ou “Velhote”. O Vidigal, o Figo, o Rui Costa. Uns chamam-me “Capitão” ou “Velhote”, são as duas alcunhas que tenho. Cheguei ao bar e: “Capitas, quero fazer um brinde contigo”. “Brinde comigo? Mas tu achas que eu vou beber com maus profissionais? Vou dizer-te uma coisa, amanhã quando eu chegar a Alvalade a primeira coisa que vou fazer é ter uma reunião com o treinador e vou dizer-lhe onde é que tu estava hoje à noite”. “Não faças isso, não faças isso”. Entretanto estive a noite toda a pensar naquilo. Ele estava a começar a carreira no Sporting, já era titular, e resolvi não lhe estragar a vida. Mas disse-lhe: “Vamos fazer uma coisa, isto fica em suspenso até ao jogo de domingo”. Jogávamos em casa com o Salgueiros. “Se a coisa corre bem, isto fica em suspenso, mas não fica esquecido, se a coisa correr mal eu vou falar com o treinador, juro-te pela saúde dos meus filhos. E entretanto nos próximos três meses, és o meu ‘escravo’. Vais-me buscar o cesto, quando eu tirar a roupa e atirar para o chão vais agarrar e por no cestinho e vais entregar” (risos). Nesse fim de semana ganhámos por 4 e esse jogador fez golo e tudo, foi o melhor jogador em campo (risos). Mas durante aqueles meses, eu chegava a Alvalade e já tinha a roupa toda preparada e quando vinha do treino fazia de propósito, tirava a camisola para um lado, os calções para o outro e lá ia ele buscar. Ainda hoje ele fala disso.

      Já me estava a esquecer do jogo com o FCP em que foi para a baliza. Como acontece?
      Foi num jogo da Supertaça. Empatámos em Alvalade, 1-1 e depois fomos jogar às Antas. Na altura não havia os golos fora, estávamos empatados 2-2 nas Antas, e a 20 minutos do fim, o guarda-redes é expulso, acho que era o Costinha, e já não havia mais substituições. Quem podia ir para a baliza ou era eu ou o Xavier.

      ©Carlos Alberto Costa

      Porquê?
      Dentro de uma equipa de futebol há sempre aqueles que têm mais jeito para ir para a baliza. O Carlos Xavier tem jeito para tudo, para jogar basquetebol, andebol, nunca vi ninguém assim, ele nasceu para ser desportista, faz tudo bem, até na baliza. Mas senti que, para aquele jogo, naquela altura, era eu que tinha que assumir a baliza como capitão da equipa. Começaram todos a discutir “eu vou”, “eu vou”, e eu disse: “Acabou, não há mais discussão, vou eu”. Na altura, o FCP tinha Jardel e companhia. Mas aquilo foi fácil, era só ir direito aos avançados, dar um grito e cair que os árbitros protegem sempre os guarda redes (risos). Depois os jogadores do FCP também achavam que podiam rematar do meio campo que podiam fazer golo, o que facilita o trabalho. Ficou 2-2, fizemos o terceiro jogo em Paris e ganhamos 3-1.

      Pinto da Costa, que opinião tem?
      É engraçado, eu tenho uma relação muito boa com o Pinto da Costa, e ele também gosta muito da Marina. Ele e o Reinaldo Teles, quando vinham a Lisboa, queriam sempre que eu levasse a Marina para jantar com eles. O Pinto da Costa, a brincar, diz que eu sou o único guarda-redes que nunca sofreu um golo nas Antas (risos). Digam o que disserem, eu gosto muito do Pinto da Costa, acho que foi e é um presidente extraordinário para o FCP. E há outra coisa que a maior parte das pessoas não sabe, é que em termos de seleção, os jogos que eram com aquelas equipas teoricamente mais fáceis, como Luxemburgo, nunca ia ninguém dos outros clubes, mas ele ia sempre. Eu aproveitava sempre depois do jantar para me sentar um bocadinho com ele a conversar. Gosto muito de falar com ele, é uma pessoa extremamente inteligente, sabe falar de tudo. Depois, quando chegávamos àquela fase de apuramento ou quase apuramento em que já iam os presidentes todos, ele ria-se comigo e dizia: “Agora para a fotografia vêm todos”.

      Tem algum hóbi, coleciona alguma coisa?
      Não. Sou o mais anti objetos que há na vida. As minhas filhas chateiam-se tanto comigo porque eu não guardo nada da minha profissão. Tenho uma história gira para contar.

      Força.
      Jogo Real Sociedad vs Sevilha. O jogo em que o Toshack entrega-me a camisola e diz “Toma lá e vai para dentro que sabes o que tens de fazer”. Tínhamos ido jogar na seleção na semana antes, à Suécia, ganhamos 1-0 com golo do Gomes, acho eu, o Futre faz um jogo extraordinário. No final desse jogo, comi a correr e fui logo dormir. Ainda me desafiaram. “Vamos só até aqui ao barzinho do hotel”. “Não posso tenho que ir descansar porque este fim de semana temos um jogo”. A Real Sociedad naquela altura tinha 5 jogos, 1 ponto, zero golos marcados e era o último classificado e eu pensava “Não vim para Espanha para isto”. Às tantas no jogo com o Sevilha, dou por mim a marcar o Maradona. As coisas estavam-me a sair tão bem que o treinador do Sevilha pôs o Simeone a marcar-me. Durante o jogo quando estava a marcar o Maradona, eu picava-o, dizia-lhe: “Porra, estás velho!” (risos). O jogo acabou, ganhamos 3-1, faço dois golos, faço uma exibição extraordinária e, no final do jogo, já tinha combinado com o Simeone trocar de camisola. Mas quando acaba o jogo o Maradona veio direito a mim, saca da camisola, entrega-me a camisola. “Tenho de trocar de camisola contigo” disse. E eu tirei a minha. Quando estou a tirar a minha camisola está o Simeone a olhar para mim (risos). E eu “Diego, és Maradona!” (risos). Cheguei ao balneário e pedi outra camisola para ir trocar com o Simeone e, quando entro no balneário, está lá o filho do presidente que tinha uma paixão pelo Maradona. Olhou para mim: “Eh, que linda”. Eu agarrei na camisola e entreguei-lhe. Para verem como sou. Era uma camisola gira para guardar porque tinha uma história. Nada, eu não guardo nada, não guardo nada. Tenho algumas camisolas que troquei porque a minha mãe uma vez chegou a minha casa, meteu tudo numa mala e levou para a casa dela “Vou levar isto porque senão tu vais desaparecer com isto tudo” (risos).

      Ficou com uma relação de amizade muito forte com a Marina Mota e o próprio Carlos Cunha.
      A Mariana é a mulher da minha vida. Sem dúvida. Não vamos ter nenhum relacionamento os dois, não vamos viver juntos outra vez, não há hipótese de isso voltar a acontecer, mas uma coisa é verdade, vamos estar sempre juntos, nem é preciso algum sentir que o outro precisa, vamos estar sempre juntos, de uma forma ou de outra. Isso vai acontecer sempre, não só com a Marina, com a Erica a filha da Marina, com a Alexi, com o Gabriel, eu sou o avô bombom.

      Avô bombom?
      Sim. A Marina chama-me bombom e, desde que os netos nasceram, ouviram a Marina a chamar-me bombom, como o Cunha é o avô, eu sou o avô bombom (risos).

      Não tem netos das suas filhas e do Ricardo?
      Não. Estou à espera.

      Disse que nunca perdeu a ligação a Cabo Verde. Costuma lá ir? Tem lá família ainda?
      Costumo lá ir. Ainda este verão fui de férias com a Marina, fomos para o Sal. Mas o pessoal de São Vicente quando sabe que vou para o Sal e não vou para São Vicente, ui. As minhas filhas adoram São Vicente. Depois do Mundial da Rússia vou a Cabo Verde de certeza. Ainda tenho lá primos.

      A sua mãe ficou sempre a viver cá?
      Sim, sempre viveu em Almada. Entretanto o meu pai continuou a vida de emigrante até ao fim e depois quando se reformou logicamente foi para Almada.

      Quando é que o seu pai faleceu?
      O meu pai faleceu poucos anos depois de se ter reformado. Apareceu-lhe um tumor no cérebro, entretanto foi operado e correu tudo bem. Mas passado dois ou três meses sentiu-se mal, foi para o hospital e quando foram ver, aquele tumor que tinha no cérebro já eram metástases de um que tinha no estômago, aquilo já estava... E o médico disse: “De zero a cinco, zero é o menos grave, cinco é o mais grave, o seu pai tinha um seis”. Portanto está tudo dito. Tinha 60 e tal anos.

      A sua mãe foi há menos tempo?
      Há dois anos. Fez os 70 anos e faleceu a seguir. Mas a minha mãe nunca teve uma doença, nunca foi para o hospital. Às vezes dizia que estava aborrecida de estar aqui e ia para a Holanda, ter com o irmão. Era muito despachada, sempre a viajar, adorava. Foi um choque grande porque não estávamos à espera, foi de repente. Teve um AVC. Foi morte imediata e estava em casa.

      O Oceano estava em Portugal?
      Não e isso é a parte triste. Ligou-me para o Irão: “Filho, amanhã vou encomendar o cabrito, e este ano vais ser tu a fazer. Já são muitos anos sem fazer o cabrito. Este ano no natal és tu a fazer”. “O.K mãe, eu faço o cabrito”. Passadas umas horas, ligou-me a minha irmã a dizer que ela tinha falecido. E eu fiz o cabrito. Nem imagina, era só chorar. Mas fiz questão de fazer o cabrito. Sou uma pessoa que levo o lado sentimental para a brincadeira, quanto mais emoção eu tenho, mais eu brinco. Sou a pior pessoa para alguém levar para um velório. Tenho até uma história com o Carlos Cunha.

      Conte.
      O pai do Cunha faleceu e eu estava no velório. Toda a gente triste e eu começo para o Cunha: “Tu és uma figura pública estou a negociar com as televisões o funeral ao vivo do teu pai” (risos). Ele já não sabia se me batia ou se chorava. “Mas tu és parvo ou quê?”. E eu: “Olha que algumas estações estão a oferecer dinheiro. Tenho uma que está a oferecer um balurdio pelo funeral do teu pai. É aquele canal, o 18. Eles só têm uma condição, o teu pai tem que ser enterrado todo nu” (risos). Ele já não sabia se me batia ou se ria. Eu levo sempre para a brincadeira e há quem compreenda e há outras pessoas que não compreendem. Realmente, sentido de humor em horas de tristeza nem toda a gente tem e eu compreendo. Por isso agora quando alguém me diz “vamos ao velório”, digo logo “não, eu não posso ir”. Dá confusão. E se ainda por cima for alguém que eu gosto, dá uma grande confusão mesmo (risos).

      Portugal
      Oceano
      NomeOceano Andrade da Cruz
      Nascimento1962-07-29(57 anos)
      Nacionalidade
      Portugal
      Portugal
      Dupla Nacionalidade
      Cabo Verde
      Cabo Verde
      PosiçãoMédio (Médio Defensivo)

      Fotografias(1)

      Comentários (0)
      Gostaria de comentar? Basta registar-se!
      motivo:
      EAinda não foram registados comentários...
      Tópicos Relacionados
      Jogador
      Treinador
      SIMULADOR ZEROZERO
      CASHBACK
      Se falhar a sua aposta múltipla entre sexta e domingo o Casino Portugal devolve-lhe até 100€ para voltar a apostar.
      CONSULTE AQUI AS CONDIÇÕES
      OUTRAS NOTÍCIAS
      O Red Bull de Salzburgo, atual campeão austríaco, conquistou esta sexta-feira a Taça da Áustria, ao vencer na final o Lustenau (5x0), do segundo escalão. Com ...
      ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
      FIFAforever_returns2 30-05-2020, 03:21
      TO
      tonefcp 30-05-2020, 00:49
      JU
      justo2 30-05-2020, 00:39
      DS
      DSaraiva90 29-05-2020, 23:54
      CreedEinsteinBratton 29-05-2020, 23:52
      newone21 29-05-2020, 23:29
      MisticaEncarnada 29-05-2020, 23:17
      HE
      helder2002 29-05-2020, 23:05
      HGuima 29-05-2020, 22:54
      SCP_SUPPORTER 29-05-2020, 22:42
      footballmanagerftwgo 29-05-2020, 22:42
      MisticaEncarnada 29-05-2020, 22:40
      Andrei_Arshavin 29-05-2020, 22:34
      SCP_SUPPORTER 29-05-2020, 22:26
      -5CP- 29-05-2020, 22:25
      Andrei_Arshavin 29-05-2020, 22:23