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      Entrevista em outubro de 2018

      Petit: «No Benfica, disse ao Argel: ‘Aleijo-me eu ou tu e alguém vai parar ao hospital’»

      2020/05/20 18:44
      Texto por Tribuna Expresso
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      Entrevista da autoria da jornalista Alexandra Simões de Abreu da Tribuna Expresso, originalmente publicada a 27 de outubro de 2018 e que pode ser vista na publicação original aqui e aqui.

      Diz que não trocava a infância no bairro social onde cresceu por nada deste mundo. Aos 13 anos, foi sozinho para o hospital para ser operado a uma perna, porque mancava. No 5.º ano foi expulso da escola e anos mais tarde fugiu com um amigo para o Algarve e não quis saber do futebol. Foi o casamento e o nascimento dos filhos que acalmam o espírito rebelde de Armando Teixeira, o ‘pitbull’ que ferve em pouca água, como o próprio reconhece. Esta é a primeira parte da vida do jogador, que não queria ser treinador.

      Nasceu em Estrasburgo. Pode caracterizar-nos a sua família?
      O meu pai é da Vila da Lixa e a minha mãe de Mondim de Bastos. Conheceram-se, tiveram o meu irmão mais velho aqui em Portugal, o Manuel, que tem mais oito anos do que eu. Depois, emigraram para França, para Estrasburgo, à procura da sorte. Foram trabalhar, o meu pai na área dos tectos falsos, pladurs. Estiveram lá cerca de 14 anos e tiveram mais quatro filhos, duas raparigas e dois rapazes. Eu fui o último.

      Tem alguma memória de França?
      Não, viemos para Portugal quando tinha dois anos, não me lembro de nada. Só de ouvir o nome Petit, que era assim que os meus pai me chamavam.

      Vieram viver para onde?
      Viemos para Arca d’Água, Bairro do Bom Pastor, onde ainda vivem os meus pais e onde eu também vivo, no primeiro apartamento que comprei, ao lado do deles. Tenho ali a minha família perto, os meus pais e a minha irmã. Os meus outros irmãos estão emigrados no Luxemburgo, a família da minha mulher e os meus amigos de infância.

      Por que razão os seus pais decidem regressar a Portugal?
      Não sei, nunca lhes perguntei. Quando voltaram, abriram um restaurante na Constituição e, a partir daí, tivemos três ou quatro restaurantes abertos, onde eu e os meus irmãos trabalhámos todos. A restauração era o nosso pão.

      Ainda existe algum desses restaurantes?
      Temos um que neste momento está alugado em frente à casa onde vivemos e crescemos.

      Quais são as suas memórias de infância mais fortes?
      O crescimento no bairro. Tínhamos um rinque para onde tentava fugir sempre, para ir jogar à bola. Tinha um amigo que também foi comigo para o Boavista, o Mário Silva, que também jogou no FCP e no Nantes. Crescemos juntos e aquelas memórias são indescritíveis: jogávamos tudo, ao berlinde, ao peão, à esfera. Éramos uns 18, 20 miúdos, de manhã à noite sempre a brincar.

      Em relação ao futebol, começa por se destacar primeiro na baliza não é?
      Sim, eu jogava lá no clube, no Bom Pastor, era guarda redes no futsal.

      Com que idade é que foi para lá jogar?
      Com seis, sete anos comecei a jogar os torneios dos bairros sociais. Depois havia as festas de Barca d’Água, onde a equipa vencedora ia receber o troféu. Nós tínhamos uma equipa que já jogava junta há algum tempo e eu comecei na baliza.

      Porque gostava ou era imposto?
      Gostava de ser guarda-redes.

      Tinha alguma referência?
      Não, não porque fui guarda redes só até aos nove anos, depois, quando começamos a jogar futebol de 11 já era defesa central. Jogámos contra o Boavista, ganhámos 2–1 ,e eles vêm buscar-nos, a mim e ao Mário Silva, ao Bom Pastor. Deram 15 pares de botas, 15 bolas para nos deixarem ir. Foi aí que troquei o Bom Pastor pelo Boavista.

      Mas chegou a ter uma outra oferta, que não quis.
      Não, isso foi uma altura em que fomos treinar ao FCP, eu e o Mário. Fomos ver se ficávamos, ainda jogávamos no Bom Pastor. Mas entretanto o FCP não nos dizia nada, nós não sabíamos se íamos ficar ou não e entretanto acontece esse jogo com o Boavista, e como o Boavista queria muito que nós fossemos para lá, falaram com os meus pais e os do Mário Silva. Acabámos por optar pelo Boavista.

      Quando começa a jogar no Boavista torcia por que clube?
      Eu acompanhava muito o Salgueiros. Nós somos ali de Paranhos e o meu pai meteu lá os filhos todos. Era salgueirista, assim como todos os meus tios. Acompanhávamos o Salgueiros para todo o lado nas camionetas. Tinha, e tenho um carinho especial pelo Salgueiros. Muitas vezes estava a treinar no Boavista, acabava o jogo e íamos ver o Salgueiros; íamos para Cantanhede, para Coimbra, para onde o Salgueiros fosse jogar. O meu pai levava-me sempre a ver o futebol.

      Mais nenhum dos seus irmãos se ligou ao futebol?
      O meu irmão mais velho ainda jogou no Salgueiros, até aos juniores, mas depois abandonou, não queria jogar à bola.

      E os estudos, como era na escola?
      A escola passou um bocadinho ao lado. Quando fui operado, tinha 12 anos, fiquei sete ou oito meses em casa e depois já foi difícil recomeçar.

      Que operação foi essa?
      Fui operado ao joelho porque tinha uma perna mais curta do que outra.

      Quem e quando é que descobrem isso?
      Quando jogava nos infantis notaram que mancava um pouco. Mas nunca me doía e também diziam que era normal, que podiam ser os ossos a crescer. Mas começaram a ver que mancava muito, fizeram-me uns exames no hospital de Santo António e viram que tinha um osso da perna direita que não estava a evoluir e que ia ficar com uma perna mais curta por causa disso. Então, optaram por operar-me. Só que as recuperações antigamente eram muito mais difíceis. Estive um ano e meio praticamente sem jogar à bola.

      Quando soube que tinha que ser operado, como reagiu?
      Isso até é engraçado. Tinha feito as consultas e tinham marcado a operação para dia 31 de dezembro. Disse aos meus amigos que ia ser operado mas à noite já estava lá para ir para a festa na coletividade do Bom Pastor, onde eram sempre as festas da passagem de ano e do Carnaval. Não imaginava que ia ficar uma semana no hospital. Então, nesse dia, saí de casa eram umas sete e tal da manhã, tomei o pequeno almoço no café do meu pai, apanhei o autocarro e fui para o hospital, sozinho.

      Sozinho?
      Já estava habituado a ir para a escola, a Gomes Teixeira, que era ali ao lado, e pensava que aquilo ia ser rápido. Havia uma pessoa que trabalhava no Boavista e no hospital, o senhor Silveira, que tratou de todo esse processo. Cheguei lá eram umas oito horas, chamaram por mim: Armando Gonçalves Teixeira. “Eu próprio”. “Você está em jejum?”. “Estou o quê?”. Não sabia o que era estar em jejum (risos). “Não sei o que é isso”. “Tomou o pequeno almoço?”. “Tomei. Foi meia de leite e um croissant”. Fiquei lá desde as oito até à uma da tarde, à porta, sem me chamarem, porque tinha tomado pequeno almoço e não podiam fazer-me nada. Às duas e tal chamaram-me para ir para dentro. Raparam-me a perna toda, fui operado e fiquei lá uma semana, claro, sem poder ir festejar a passagem de ano.

      Foi um choque?
      Foi, porque nunca imaginei que fosse tão doloroso e que ia demorar tanto tempo. Era um lanho enorme na perna, as dores eram muitas, e estar ali, um miúdo com 13 anos, sozinho, no hospital, foi difícil.

      Do que é que se lembra dessa semana no hospital, o que é que fazia para se entreter?
      Via as novelas da SIC (risos). Havia uma televisão pequenina; de resto, não havia telemóveis, nem computador.. Era olhar para a janela, não havia mais nada. Convivia com as pessoas mais velhas, estava numa ala de idosos.

      Os seus amigos foram visitá-lo?
      Não, foi pouca gente, porque quase ninguém sabia, foi tudo muito rápido. As pessoas sabiam que ia ser operado, mas pensavam que era uma coisa mínima. Do meu bairro foi uma ou outra pessoa. Mas de resto, do futebol, ninguém sabia o que se estava a passar. Foi lá um ou outro diretor do Boavista.

      Quanto tempo ficou em casa depois a recuperar?
      Depois tive de ficar quatro meses sem sair da cama, com uma coisa que não era bem gesso, mas tinha que ficar quieto. E ainda tive de andar seis meses de muletas. Ao todo estive uns 16 meses sem jogar futebol.

      ©Getty / PEDRO FERRARI

      Foi difícil voltar ao futebol?
      Foi, foi complicado, mas recuperei e fui campeão do Boavista nas distritais da zona do norte. Havia dois escalões, os iniciados de 1.º ano e os de 2.º. Nos iniciados do 1.º escalão não joguei por causa da operação. Nessa altura abandonei a escola porque entrei a meio, estive muito tempo em casa depois de ser operado. Não tinha livros e acabei por ser expulso da escola no 5.º ano.

      É expulso da escola porquê?
      Empurrei a professora. Como quando regressei faltavam três meses para acabar a escola, não tinha livros, não sabia da matéria e não gostava de andar na escola… Era pessoal da pesada que andava naquela escola, pessoal rebelde e eu também era, e acabou por parar-me ali o ponteiro e acabei por empurrar a professora. Depois tiveram que chamar a minha mãe à escola, ao Conselho de Disciplina. Fui expulso, sai da escola a pensar que ia levar uma coça daquelas grandes do meu pai. Acabei por levar duas lamparinas e depois ele meteu-me a trabalhar, de castigo, no restaurante, a servir às mesas.

      Não deve ter gostado muito.
      Gostei. Todos os meus irmãos trabalharam lá e era uma paixão. Aquilo era nosso, era para nós e por isso o meu pai obrigava toda a gente a trabalhar, tínhamos de ajudar. Cada um tinha o que fazer, descascar batatas, estar na máquina, isto ou aquilo.

      O que é que preferia fazer?
      Servir à mesa, passava mais rápido o tempo. Estive lá até aos 18 anos. Jogava no Boavista e ainda trabalhava no café do meu pai. O treino era às três e meia. Nós saíamos dos restaurante às três menos um quarto - eu e o Mário Silva que ia lá ter - e íamos juntos para o treino. Mas já tinha ordenado, do Boavista e do meu pai (risos).

      Ter crescido num bairro social criou em si algum estigma ou acha que foi mais difícil crescer num bairro social?
      Não, antes pelo contrário. Acho que não trocava a minha infância por nada nesta vida. Conheço a minha esposa, a Carla, desde os seis anos. Ela era do nosso grupo lá do bairro, andava connosco para todo o lado, ela e mais umas amigas também lá do bairro. O bairro era sossegado, toda a gente deixava os carros abertos, toda a gente se conhecia.

      No Boavista foi por aí fora até que, com 18 anos vai para Esposende. Porquê?
      Fui campeão em todos os escalões do Boavista, só não fui dos juvenis, ficámos em 2.º lugar. Mas tínhamos uma grande equipa: eu, o Nuno Gomes, o Delfim, o Mário Silva, o Ricardo Silva, o Jorge Silva, o Rui Lima e o Moreira, e fomos campeões de juniores. Alguns ficaram no plantel sénior e outros foram emprestados. O Luís Campos, que agora está no Lille, naquela altura acompanhava muito a equipa de formação do Boavista e falou com o Pais do Amaral para alguns jogadores irem para o Esposende. Eu que já tinha contrato profissional com o Boavista, o falecido Carlos Lopes, que morreu na China, e o Ricardo Silva, fomos para Esposende.

      Não ficou chateado por ir para Esposende?
      Não, nem sabia onde era. Mas acabou por ser um dos anos mais bonitos que já tive porque quando lá chegámos os três, mais o Ádamo, que hoje é padrinho da minha filha, é meu compadre... criámos uma boa amizade. Éramos seis jogadores todos aqui do norte, do Porto.

      Ainda estava solteiro?
      Sim, tinha 18 anos ainda era só amigo da minha mulher. Nós, os jogadores do Porto, comprámos uma carrinha a meias, por 700 contos. Ficava mais barato do que ir em dois ou três carros. Naquela altura para sair do Porto e ir para Esposende só havia a estrada nacional, ainda não havia autoestrada e demorava-se duas horas e meia para chegar. Foi dos momentos mais bonitos que passei: todos os dias apanhávamos a carrinha e havia um grande convívio. Havia sempre palhaçadas, foi um ano espetacular. O grupo no Esposende também era porreiro, acabámos por ficar em 3º. lugar, na II divisão B, que era muito difícil. Tinha equipas e jogadores bons.

      Quando é que começa a ganhar dinheiro com o futebol?
      Nos juniores do Boavista, 80 contos, tinha 17, 18 anos. Mas já ganhava dinheiro e gorjetas do meu pai, lá no restaurante.

      Lembra-se se havia alguma coisa tenha ido logo comprar com esse primeiro ordenado do Boavista?
      Roupa. Fui ao centro comercial Dallas e comprei umas botas texanas de bico. Eu adorava aquilo, usavam-se na altura. Custavam 30 contos (150 euros) e fiquei sem dinheiro (risos). O meu pai não sabia que eu tinha recebido do clube (risos). Disse-lhe que tinha comprado com o dinheiro das gorjetas que ele me dava, que tinha juntado. Ele também não reparava muito na roupa que eu vestia porque estava quase 24 horas no restaurante, desde as 7 da manhã até à meia noite, uma da manhã. Para trabalhar eu usava uma roupa normal. E pronto, acabei por gastar o primeiro ordenado todo numa manhã (risos).

      Saiu do Esposende e assinou pelo Gondomar.
      Sim, ia ser outra vez emprestado pelo Boavista mas continuava com o contrato. Neste caso ia para para o Gondomar, mas o problema é que tinha que ir para a tropa. Então fui emprestado, assinei pelo Gondomar, recebi dinheiro de luvas - era assim que funcionava naquela altura - e eles acabaram por ficar chateados comigo porque pensavam que eu ia só fazer a recruta e acabei por ficar seis meses na tropa.

      Porquê?
      Fui para a Póvoa do Varzim, insultei o meu furriel e, para não ir preso, mandaram-me para Santa Margarida e acabei por ficar lá quatro meses.

      Insultou o furriel porquê?
      Porque estava sempre a pegar comigo na recruta. Tínhamos que fazer várias coisas, eu já tinha feito o meu trabalho e ele viu-me sentado e começou a mandar vir comigo. Queria que eu fosse lavar as casas de banho com uma escova de dentes e eu disse-lhe que não ia. Ele foi chamar o sargento e depois tive que ir aos comandantes. Era para ter feito só a recruta e sair, mas acabei por ir de castigo para Santa Margarida.

      Como é que foram esses quatro meses?
      Foi porreiro (risos). Se calhar os sacrifícios e as dificuldades que passei, fizeram-me pensar muito. Naquele momento quis abandonar o futebol. Tinha contrato com o Boavista, mas a tropa fez-me crescer.

      Como assim?
      Mentalidades diferentes, espírito de sacrifício. Passei muitas horas e muitas noites à porta de armas. Estar ali uma noite inteira, de 3 em 3 dias, era muito complicado. Também ia para a cozinha, mas quando não estava na cozinha era obrigado a fazer porta de armas. Estar duas horas de pé, à noite, sem ninguém passar, faz-nos refletir, faz-nos pensar. Gostei de estar na tropa. E quando fiz os dois meses que me faltavam, no Gondomar, não estava a ter prazer no futebol. Ia, mas portava-me mal, foram momentos difíceis.

      Portava-se mal como?
      Ia sair, muitas vezes não ia treinar. Acabei por ir para o Algarve com um amigo. Quando a época acabou tínhamos que voltar ao Boavista para treinar, mas eu fui para o Algarve e disse que não queria jogar mais futebol. O Mário Reis, que era o treinador do Boavista e meu vizinho em Arca d’Água, foi ter com os meus pais, aliás, foi ao restaurante do meu pai para saber onde é que eu andava. Foi quando o meu pai disse que não sabia de mim, que andava no Algarve fugido, que não queria jogar mais à bola.

      O que aconteceu depois?
      Acabei por vir do Algarve, o Mário Reis “deu-me na cabeça” para ir treinar e emprestaram-me ao União de Lamas mais um ano. É então que começo a assentar. Tinha 19 anos, comecei a namorar com a minha esposa; passados dois ou três meses comecei a viver com ela na casa dos meus pais e passados uns tempos ela fica grávida. Começo outra vez a gostar de jogar futebol. No Lamas faço uma época que corre bem, sou outra vez emprestado ao Esposende. Estive quatro, cinco anos emprestado a vários clubes até chegar novamente ao Boavista.

      A sua mulher, a Carla, nessa altura fazia o quê?
      Trabalhava no Maiashopping, numa loja de crianças. Ia ter com ela, mas ela muitas vezes tinha que ficar até mais tarde para fazer a contagem das peças e para mim era difícil porque tinha jogo no dia seguinte. Então, optámos por ela deixar de trabalhar.

      Quando é que passam a viver só os dois?
      Foi nesse ano em que estou no Lamas. Alugámos um apartamento mais abaixo, mas perto de Arca d’Água, através do arrendamento jovem, o Estado comparticipava. Fomos para um T2 e entretanto nasce a minha filha Bárbara, em 1999, no ano que saio do Lamas e regresso ao Esposende.

      Assistiu ao parto?
      Da minha filha, não. Foi no hospital São João, ela nasceu às 9 da manhã, eu tinha pedido para me avisarem, mas os médicos tinham mudado de turno e eu tinha falado com os da noite anterior. Cheguei ao hospital por volta das 10 e tal da manhã, por isso foi quase na hora.

      Qual foi a sensação?
      Indescritível. Os melhores momentos da minha vida foram os dos nascimentos dos meus filhos. É o nosso sangue que está ali, é o nosso orgulho, é a nossa paixão.

      Depois do Esposende foi para I Liga, no Gil Vicente. Como?
      Por intermédio do Álvaro Magalhães e do professor José Gomes que estavam no Gil Vicente e acompanhavam muito o Esposende.

      Tinha empresário?
      Tinha, era o José Veiga. Ele veio através do falecido Mário Morais, que tinha sido treinador de futebol. O filho dele era da minha infância, andava sempre comigo, e começou a ver os jogos e os jogadores, falava com o Veiga e com o Alexandre Pinto da Costa. Foi nesse ano que fui para o Gil Vicente.

      Quando vai para o Gil Vicente ainda tinha contrato com o Boavista?
      Sim. Fui jogador do Boavista dos nove aos 25 anos. Depois do Gil Vicente é que vou para o Boavista, do Jaime Pacheco. E sou logo campeão.

      Com uma equipa de jogadores a quem chamavam de caceteiros.
      Isso não corresponde à verdade. Nós também fizemos uma boa Taça UEFA, fomos eliminados pelo Roma, que acaba por ser campeão em Itália, e no ano a seguir também estivemos na Liga dos Campeões.

      Mas eram duros a jogar.
      Éramos. O Pacheco tinha uma coisa boa, gostava de fazer pressão e intensidade no campo inteiro. Nós trabalhávamos muito a nível físico e o que via que podia tirar o melhor partido da equipa, tirava. Espremeu tudo e acabámos por fazer uma grande época porque nos primeiros 20 minutos massacrávamos as equipas, estávamos muito bem fisicamente, estávamos confiantes e também tínhamos muita qualidade no plantel, tínhamos bons jogadores.

      Fica duas épocas no Boavista com o Jaime Pacheco até ir para o Benfica.
      Sim, duas para três. Venho do Mundial, faço a pré-época com o Boavista e sou vendido ao Benfica.

      Quando é chamado pela primeira vez à seleção?
      Foi para ir à Madeira, se não estou em erro, por causa de uma lesão de um jogador. No Boavista tínhamos treino bidiário e um dia liga-me o Pais do Amaral, o chefe de departamento, a dizer que eu tinha que apanhar um avião para Lisboa, porque tinha sido convocado para a seleção. Eu mandei-o dar uma volta, não acreditava.

      Nunca tinha sido chamado antes?
      Tinha sido chamado e jogado na equipa B. Fiz dois jogos em Santarém.

      ©Getty / Laurence Griffiths

      Quando acreditou que estava mesmo a ser chamado à seleção?
      Como disse, ao princípio não acreditava e acabou por me ligar outra pessoa da Federação, o Godinho, diretor desportivo, que me diz que me diz que eu tinha sido convocado para a seleção e que tinha de apanhar o avião o mais rápido possível. Era hora do almoço. Fui para Lisboa e depois foi tudo rápido. Lembro-me que estava cheio de vergonha. Conhecia alguns de jogar contra eles, mas nunca imaginei estar ali perto deles.

      Como é que foi a receção?
      O normal, fui bem recebido. Não era fácil, só os via pela televisão e agora estava ali à beira de jogadores que eram grandes referências para mim.

      Como por exemplo?
      Rui Costa, Figo, Paulo Sousa, Baía, Fernando Couto, Jorge Costa, por ai em diante, era a geração de ouro que tínha visto ser campeã do Mundo em Riade. Para mim era um sonho, mas estava envergonhado, metido no meu cantinho.

      Então o rebelde Petit ficou a um canto?
      Ao início, quando não conheço as pessoas, sou muito tímido, fico no meu canto a analisar aquilo que posso e que não posso fazer ou dizer.

      Foi praxado?
      Não. Tinha só de esperar que me dissessem onde é que me podia sentar na mesa e na camioneta, tinha de esperar que se sentasse toda a gente.

      Quem era o líder?
      Acho que eram todos (risos). Pelo respeito e pela figura em si, o Jorge Costa. Mas tínhamos o Figo, o Rui, acho que quase todos eram capitães nas equipas onde jogavam.

      Mas não lhe fizeram nenhuma partida?
      Não porque não havia essa confiança. Quando se chegava ali cada um tinha o seu grupo.

      Nessa altura ainda se sentia muito a diferença norte/sul?
      Um pouco. Notava-se à mesa. Numa ponta estava o pessoal do norte, do Porto, e noutra o pessoal do sul. Foi passando de geração em geração, da mesma forma que eu quando me sentei pela primeira vez num lugar, depois sentei-me sempre nesse lugar.

      Sentou-se de que lado?
      Onde havia lugar, no lado dos mais novos, que eram eu, o Beto, o Ricardo, guarda-redes, o Frechaut, o Domingos que também lá ia de vez em quando. Só depois quando comecei a estar mais regularmente na seleção, é que fiquei com o mesmo lugar e estive desde 2001 até vir embora da seleção, em 2008, sempre no mesmo. Se não fosse convocado, podia-se lá sentar outro, mas sempre que eu era convocado aquele era o meu lugar. Era assim na mesa e no autocarro.

      Qual foi a sensação de vestir pela primeira vez a camisola da seleção A? Foi um momento especial?
      Acho que é o momento mais bonito da carreira de um jogador. Defender o nosso país, representá-lo, saber que está tudo a olhar para nós, é uma responsabilidade. Seja jogar para um apuramento, no Europeu ou no Mundial.

      O seu primeiro jogo na seleção foi contra quem?
      Fui convocado para aqueles dois jogos de apuramento para o Mundial da Coreia de 2002, primeiro na Madeira e depois no estádio das Antas, no Porto, com a Holanda. E o meu primeiro jogo a titular foi com a Irlanda do Norte, em Dublin. Foi o meu e de mais quatro jogadores do Boavista. Era um jogo importante porque era decisivo. Joguei eu, o Litos, o Frechaut e o Ricardo.

      Faz muita diferença para um jogador ser titular ou entrar a meio de um jogo?
      A confiança é diferente. Quando se entra a meio de um jogo, primeiro que se ganhe o ritmo… E depois consoante está o resultado, se estamos a ganhar, se estamos a perder ou se estamos empatados, também é diferente aquilo que nos espera. Quando sabe que vai ser titular, o jogador está mais bem preparado, sabe aquilo que tem de fazer, estudou muito bem a equipa adversária. É diferente quando se joga a titular.

      Antes de ir para o Benfica ainda vai ao Mundial de 2002.
      Sim, vou ao Mundial, faço a pré-época no Boavista e sou vendido ao Benfica.

      O Mundial da Coreia foi de má memória. Passados 16 anos pode dizer-nos o que é que correu mal?
      Aquele jogo com os EUA, nós não conhecíamos a equipa.

      Entraram confiantes demais?
      Não era confiança... Na seleção dos EUA não havia um jogador a jogar na Europa, não conhecíamos ninguém. E quando demos por ela, já estava 3-0. Ainda fizemos o 3-1 e o 3-2 e podíamos ter virado aquilo porque depois conseguimos entrar no nosso ritmo.

      Não conseguir ganhar aos EUA, o primeiro jogo do nosso grupo, marcou muito o grupo?
      Marcou, não foi fácil. Mas reagimos e conseguimos ganhar 4-0 à Polónia, com três golos do Pauleta. Depois. o jogo com a Coreia que acaba por ir aos quartos de final, era a equipa da casa, o João Pinto foi expulso. Nós até entramos bem no jogo e bastava-nos um empate e ninguém tinha falado o que foi falado. Houve ali algumas coisas, mas não vou estar aqui... O que posso dizer é que nós dávamo-nos todos muito bem.

      O grupo defendeu de imediato o João Pinto.
      Estamos fora do nosso país, estamos longe e as pessoas às vezes não sabem aquilo que se está a passar. Nós passamos muitos dias juntos e também não é fácil estar sempre a olhar para as mesmas caras. Aquele jogo, com a expulsão do João, penso que “mata” um pouco…

      Mata as vossas expectativas?
      Sim, mas a Coreia também tinha uma grande intensidade de jogo, e acabou por ficar comprovado ao chegar aos quartos de final, eliminando a Itália e outras grandes seleções. Nós tínhamos uma grande seleção e as expectativas que criaram antes, por ser a geração de ouro… O povo português sonhou alto, que iríamos ser campeões do mundo. Tínhamos grandes jogadores, uma grande equipa mas depois lá não se comprovou. Acho que as pessoas ficaram mais tristes por acordarem às três da manhã para verem Portugal com os EUA e passados 20 minutos estamos a perder 3-0, para os portugueses isso foi um choque.

      Mas vieram a público várias situações, mesmo do próprio selecionador, relacionadas com superstições dele. Isso afetou o grupo?
      Sobre isso não vou falar mas repito que o grupo dos 23 jogadores que estavam lá era espetacular. Não vou estar aqui a falar sobre o que se passou, já veio muita coisa na comunicação social, acho que não vale a pena passados tantos anos.

      ©Getty / Paul Gilham

      Quando chega faz a pré época com o Boavista e vai para on Benfica, através do Veiga. Havia mais clubes interessados?
      Havia.

      Quais?
      De outros países. Falava-se do Bétis, do Marselha e outras equipas mais que andavam a analisar e a ver. E o Veiga nesse momento estava a trabalhar bem, era dos melhores empresários do mundo, tinha feito a transferência do Figo. Havia alguns clubes mas acabei por ir para o Benfica. O presidente era o Vilarinho e o Vieira era o diretor-desportivo.

      Mas vai para o Benfica porquê? Foi quem lhe ofereceu melhores condições, porque não queria sair de Portugal?
      Porque também tinha nascido o meu filho, o Gonçalo. Aliás, quatro dias depois dele nascer, vou a Lisboa, assino pelo Benfica e no dia seguinte vou para a Suíça. Fiquei sem ver o meu filho um mês.

      Custou-lhe muito?
      Custou. A minha filha tinha dois anos e meio para três e a minha esposa estava sozinha. Claro que tinha os avós e mais pessoas, mas não é a mesma coisa. E o crescimento em mês e meio é muito. Não é fácil.

      Como é que fazia para matar saudades?
      Na altura já tínhamos aqueles telemóveis que dava para fazer vídeo-chamadas ou via por computador, mas não é a mesma coisa do que poder sentir o nosso filho nos nossos braços, o cheirinho dele. Passado um mês voltei e comecei a ver casas. Acabei por ir para o Hotel Amazónia durante um mês e tal com a Carla e os meus filhos. Conhecia o Paulo, que era o dono, porque a seleção costumava lá ficar. Entretanto, alugámos uma casa, perto do Jardim Zoológico, onde ficámos um ano. Depois comprei a casa do Estoril, que ainda tenho.

      Como é que foi o impacto de chegar ao Benfica com tudo o que isso implicava?
      Nós tínhamos noção de que era um clube grande. Estava no Boavista, que durante uns três anos lutou com o Sporting pelo 2.º lugar, depois intrometeu-se o FCP e o Benfica não estava muito nas competições europeias, estava a passar uma fase diferente, com a entrada e saída de muitos jogadores e de treinadores. Nós vamos com aquela expectativa da grandeza do clube que corresponde à verdade, mas que não estava num momento que qualquer jogador gostaria de apanhar. Quando cheguei, saiu o Toni e fica o Jesualdo como treinador.

      Muito diferente o Jesualdo dos outros treinadores que tinha encontrado?
      Aprendi com cada um, penso que espremi o melhor de todos dentro das ideias que tirei.

      Mas o professor Jesualdo não cria aquela intimidade com os jogadores como por exemplo o Jaime Pacheco.
      Não, são completamente diferentes. Ele também estava a passar de adjunto do Toni para treinador principal, nunca é fácil. Não estávamos bem no campeonato: fomos eliminados muito cedo da Taça, houve o despedimento do Jesualdo, vem o Camacho e ganhámos a Taça de Portugal. Depois apanhámos um FCP muito forte com o Mourinho, que ganha a Taça UEFA, ganha o campeonato e perde a Taça de Portugal connosco. E no ano a seguir ganha a Liga dos Campeões. Na altura o FCP tinha uma geração muito forte, um treinador forte.

      Nessa altura teve pena de não estar no FCP?
      Não, porque estava no Benfica que é um clube com uma dimensão onde qualquer jogador adoraria jogar. Hoje vê-se a grandeza e a remodelação que foi feita. Eu estive ali quase sete anos e ia vendo aquilo a crescer, mas foram momentos difíceis. Quando lá cheguei não tínhamos balneários, tínhamos que nos equipar nas garagens porque iam começar a fazer o estádio novo. Não tínhamos campos para treinar, íamos treinar para o estádio Nacional, se não era no Nacional era no Universitário ou no Monte da Galega, até montarem um espaço onde pudessemos treinar, penso que em Massamá. Não era aquilo que os jogadores que chegam ao Benfica agora encontram, a grandeza, o centro de treinos, um estádio maravilhoso.

      Houve algum jogador com quem tivesse criado logo mais empatia?
      Eu já estava na seleção, já conhecia o Simão, o Nuno Gomes tinha sido meu colega no Boavista, e mais um ou outro. Mas não era um balneário fácil. Os resultados ditam muita coisa, não foi um ano muito fácil.

      É costume o jogadores pegarem-se a sério no balneário?
      Isso acontece muitas vezes, é normal. Somos pessoas diferentes, com personalidades diferentes, nacionalidades diferentes.

      Alguma vez se pegou com algum colega de equipa?
      Peguei-me logo no primeiro ano que cheguei ao Benfica, com o Argel. Já nos tínhamos pegado quando eu estava no Boavista e joguei contra ele, e ele no treino era forte, eu também era forte e um de nós ia aleijar-se e resolvi dizer-lhe “Ou vais-te aleijar tu ou vou-me aleijar eu. Vamos andar aqui toda a semana a chatear-nos e alguém vai para o hospital e vai-se lesionar”. Acabamos por nunca dividir uma bola no treino.

      Houve alguém com quem tivesse criado uma amizade mais sólida?
      Tínhamos um grupo muito bom. Gostei muito do Miguel, o Nuno Gomes já era meu parceiro do Boavista. Mas em Lisboa é diferente do Norte, no norte convivíamos mais, mesmo com as famílias, em Lisboa cada um fazia o seu trabalho e ia para casa, não convivia. No Boavista todos os dias estávamos juntos, quatro, cinco ou seis casais. Acabávamos os jogos e íamos todos, com as respetivas famílias, fechava-mos um restaurante para estarmos a conviver. Quando chego ao Benfica é muito diferente, são as revistas a querer saber o que é que cada um faz, é um mundo diferente mas tive que me adaptar.

      Alguma vez foi apanhado na noite?
      Fui, como muitos outros. Mas são momentos. Nós também somos jovens, queremos curtir. Apesar de sermos figuras e termos que dar o exemplo aos mais novos, há momentos e também faz parte do nosso crescimento. Um miúdo com 24, 25, 26 anos fazer só vida de casa para o treino e de treino para casa, durante toda a semana e ter jogos, é natural que com a pressão, queira ir sair, queira ir beber um copo.

      Quando saía em Lisboa, costumava ir a onde?
      Normalmente ia ao Dublin, ao lado do Alcântara, a seguir aos jogos.

      A sua mulher também ia?
      Não, ela estava com os miúdos em casa. Ia com os outros jogadores, depois de jantar. Mas era de vez em quando, de tempos a tempos.

      Alguma vez foi castigado por algum clube por saídas à noite?
      Uma ou outra vez podemos ser castigados.

      Que tipo de castigos?
      Financeiros ou ficar sem jogar. Mas isso nunca me aconteceu. Porque apesar de irmos uma vez ou outra, era sempre quando no dia a seguir tínhamos folga. Só que não gostavam que saíssemos por sermos jogadores, isso é normal.

      ©Rogério Ferreira

      Ter sido campeão no Benfica foi muito diferente de ter sido campeão no Boavista?
      Foi porque no Boavista ninguém estava à espera. Quando passamos para primeiro sabíamos que a qualquer momento podíamos perder essa liderança, porque tínhamos o FCP atrás, por isso mentalizámo-nos que éramos muito fortes. E éramos. As equipas muitas vezes fazem-se através do grupo. Mesmo os que não jogavam estavam sempre alegres, contentes e sempre prontos e preparados se fossem chamados. O Pacheco, mesmo que eu estivesse a jogar bem, jogava cinco ou seis jogos e mandava-me para o banco para entrar outro e sentir que também era útil à equipa e tinha de treinar nos limites. Geria isso muito bem. Muita gente não acreditava que o Boavista ia ser campeão, mas nós acreditamos. Isso foi marcante. A nível de massa associativa, claro que é uma realidade diferente da do Benfica. Fui campeão pelo Boavista no Bessa e campeão pelo Benfica também no Bessa. O Benfica não era campeão há 14 anos, a vinda do hotel em Santo Tirso até ao Porto... parecia que estávamos no Europeu, as ruas todas fechadas, os adeptos todos na rua na chegada ao Bessa. Foi festa no norte e festa em Lisboa.

      Tornou-se benfiquista?
      Tem que se aprender a gostar da grandeza daquilo, aprende-se a gostar do Benfica. Sente-se o clube, sente-se o carinho que eles te dão, as pessoas que trabalham lá acabam por ter uma costela das grandes do Benfica, isso é normal.

      Alguma vez foi “pressionado” por algum adepto?
      Tive uma situação com adeptos do Sporting, quando o Sporting foi jogar ao Estoril. Eu estava a ir de Lisboa para casa, parei na bomba de gasolina na A5, na zona de Oeiras. Fui meter gasolina, estava na fila para pagar e quando vou para sair chegaram adeptos do Sporting em carros e carrinhas que também param na bomba. Fui apertado e fiquei com medo, teve que vir a polícia para me ajudar.

      Queriam agredi-lo?
      Não sei se queriam bater, mas começaram às bocas, a apertar e a cantar porque eu era do rival. Tive de ficar lá dentro do balcão até vir a polícia.

      Consegui manter-se calmo, não respondeu?
      Consegui, mas é natural que com eles com a boca quase encostada à nossa cara...Sabia que se lhes respondesse ainda era pior. Quando entrei no carro as minhas pernas ainda tremiam.

      No Benfica foi treinado pelo atual selecionador nacional, Fernando Santos. Que tal?
      Gostei muito, é uma pessoa que gostava de falar, gostava de conversar, gosta de chamar o jogador ao gabinete dele e de ficar ali a conversar, gosta de saber de tudo um pouco.

      Alguma vez o chamou?
      Chamou várias vezes, gostava de falar com os capitães. De manhã tinha o feitio dele, parecia que estava mal disposto, era o normal dele, mas depois era uma pessoa fantástica em termos de relação com o jogador. E trabalha muito bem.

      Volta a apanhar o Camacho, ainda teve o Rui Águas, Shéu, Chalana como treinadores. Chegou uma altura em que começou a acusar algum cansaço do Benfica?
      Sim, queria experimentar outro campeonato. Sentia-me um pouco desgastado. Todos os anos acontecia qualquer coisa. Queria outro objetivo e fui falar com o presidente, que já era o Luís Filipe Vieira. Disse-lhe que queria experimentar outro campeonato, queria algo diferente para a minha vida, para continuar a sorrir e a ser alegre no futebol. Ele deixou-me ir para o Colónia.

      Já lá vamos à Alemanha. Foram muitos anos de Benfica. Assistiu a muita entrada e saída de jogador, treinadores. Fazendo um balanço, diga-me o melhor e o pior do Benfica nesses sete anos?
      Tirando os títulos, foi ver o crescimento do clube. O Benfica agora está muito forte mas quando lá cheguei não era bem assim. Quando vim da Alemanha fui assistir a um jogo ao Estádio da Luz e analisar por fora, ver como aquilo cresceu num espaço de 15 anos… Penso que é mérito do Vieira. Mas os melhores momentos... o relacionamento com várias pessoas, de várias nacionalidades, jogadores, e saber que posso ir aos países desses jogadores que tenho sempre lá um amigo, uma pessoa a quem posso ligar para irmos jantar e recordar os tempos que passámos no Benfica.

      Enquanto esteve no Benfica foi aliciado por outros clubes?
      Era capaz mas nunca chegou nada em concreto. Fiquei sem empresário, o Veiga vai para diretor geral do Benfica, e eu fico sem empresário e não chega nada. Se chegou deve ter sido ao Benfica, mas nunca soube de nada. Mas como eu também fazia parte da seleção, se calhar também não havia interesse do clube em vender-me.

      A família adaptou-se bem a Lisboa e ao Estoril?
      Adaptou. A minha filha saiu de lá com seis anos, tinha entrado para a 1.ª classe e o meu filho andava na pré-primária. Quando fomos para Lisboa conhecemos uns casais fora do futebol, que moravam à nossa beira no Estoril. Hoje sou padrinho de uma miúda de um desses casais. Sempre que vamos a Lisboa estamos com essas pessoas.

      Voltemos à seleção. Em 2004 temos o Euro em Portugal. Foi especial?
      Acho que só faltou ser campeão para meter a cereja no topo do bolo. De resto foi tudo fantástico, tudo, tudo.

      Gostou do Scolari?
      Não há palavras.

      O que é que gostou mais nele?
      A sinceridade, a maneira como se relacionava, se tinha que dar uma “dura”, dava; se tinha que dar liberdade, dava. Ele tanto era o sargentão como era de brincar e das piadas. Era um ser humano que se envolvia muito com os jogadores. Antes de irmos para o Mundial, chamava-nos à federação para saber o que é que se estava a passar, dizia o que queria para a seleção. O relacionamento com os jogadores era muito bom, era forte. Depois, o todo em si, desde os jogadores, aos enfermeiros, roupeiros, tudo, faltou só a cereja no topo do bolo para ser perfeito, porque a nível de público, de estádios, de envolvência, da comunicação, de tudo o que se passou para dentro e para fora, de toda aquela energia foi fantástico. Faltou só ganharmos à Grécia para sermos campeões.

      Isso não aconteceu porquê, faltou sorte?
      Não sei. Às vezes alguns de nós que estiveram presentes estamos juntos e não conseguimos ainda hoje arranjar uma explicação. Entrámos a perder com a Grécia e saímos a perder com a Grécia.

      Quando lhe aparece a proposta da Alemanha, vem por onde, de que canais?
      Estava no Europeu do Suíça-Áustria e já dizia que queria ir embora.

      Esse Europeu foi em 2008. Pelo meio ainda há o de 2006.
      Sim o da Alemanha, ficamos em 4.º lugar. Tínhamos um grupo fantástico. Apanhei sempre bons grupos na seleção mas esse de 2006 tivemos um pouco de azar na meia-final contra a França em que perdemos 1-0 de penálti. Acredito que se tivéssemos passado essa meia-final, tínhamos sido campeões do mundo. Tínhamos uma energia muito forte e estávamos muito confiantes. Houve uma envolvência muito boa, não só dos jogadores, mas das famílias também. O Scolari tinha essa coisa boa, organizava jantares e as famílias podiam ir visitar os jogadores, e esse envolvência, esse convívio e o facto de muitos de nós já jogarem juntos a alguns anos, tornou tudo mais fácil. Não estávamos mesmo a contar perder com a França.

      Por que optou ir para a Alemanha? Não tinha propostas de outros clubes?
      Falava-se de outros clubes, de Itália, de França, mas optei por ir para a Alemanha porque era diferente. Nem toda a gente queria ir para a Alemanha, dizia-se que era um campeonato muito de musculado, de muito físico. Depois havia a questão da língua. Escolhi o Colónia porque estava perto do Luxemburgo, onde tinha os meus irmãos, e era muito mais fácil para mim a adaptação. Também lá tinha o meu compadre e mais gente conhecida, por isso a adaptação podia ser melhor.

      Quando optou por ir já tinham decidido se ia a família toda?
      Os meus filhos e a minha mulher sempre me acompanharam. Quando cheguei, fiquei a viver num hotel. Uma semana depois, a Carla foi lá passar um fim de semana, foi ver uma casa comigo e passada uma semana já lá estava a viver com os miúdos, o Gonçalo com três anos e a Bárbara com seis.

      Como é que foi com a língua: aprendeu alemão?
      Tinha um tradutor e como lá ele podia andar em todo o lado, podia entrar nos balneários, podia ir para o banco, podia traduzir as instruções quando o treinador principal se levantava para dar instruções, e como andava sempre com ele, não aprendi. A primeira vez que o clube meteu o professor ele não falava nem inglês, nem português, falava em alemão e eu queria perguntar-lhe alguma coisa e não conseguia. Então optei por ficar sempre o Ricardo, o tradutor. Acabei por começar a falar inglês no balneário porque fui capitão e a maioria dos jogadores não era alemã, mas de vários países..

      Como foi a adaptação a um futebol mais físico?
      Mais físico e mais individual, de homem para homem, em que cada um tem que se responsabilizar porque o sistema tático é de 4x4x2 e as equipas encaixam uma na outra. É o lateral contra o extremo, o médio contra médio, é mais físico.

      O primeiro impacto com os árbitros não correu muito bem, pois não? Foi expulso logo nos primeiros jogos.
      Fui expulso num jogo para a Taça em que levei duplo amarelo. Insultei o árbitro em português, eles foram ver no Google translator e levei seis ou sete jogos de suspensão, e 12 ou 13 mil euros de multa. Quando vim embora ainda não tinha cumprido os jogos todos, porque se se é expulso na Taça, só se cumpre os jogos na Taça. Nunca mais joguei na Taça (risos), até regressar, porque éramos sempre afastados na 1.ª ou 2.ª eliminatória.

      Como é que foi a adaptação às pessoas, o que é que achou dos alemães?
      No início não é fácil, os alemães são desconfiados mas depois de conhecer, de conviver, e estou a falar dos vizinhos, vai-se ganhando a confiança, entra-se no grupo e até deixam as portas abertas, podemos entrar na casa dos vizinhos e eles na nossa à vontade. Só temos é que tirar os sapatos.

      Quais as melhores recordações que tem da Alemanha?
      Passear com a família. Estamos a quatro horas de Paris, a 10 de Amesterdão. Sempre que havia folgas de dois dias, aproveitávamos, apanhávamos o TGV e íamos passear para a Eurodisney e para muitos lados.

      E da comida, gostava ou faziam a vossa comida?
      O meu irmão trabalha no Luxemburgo, numa grande cadeia de supermercados e íamos lá buscar ou então pedia a um amigo meu que é de Alvarenga, de Arouca, para me comprar uma vaca. Partia-a aos bocadinhos, comprava vinho e outras coisas, e vinha tudo numa carrinha de Portugal para lá. Comprei um congelador maior e tinha sempre comida portuguesa. Não gostava da comida deles. E eles só fazem uma refeição grande por dia. Ao meio dia têm aquelas sandes com queijo e tomates e depois à noite iam aos restaurantes. Uma coisa estranha que reparei é que eles à noite não levam os filhos para os restaurantes. Eu levava os meus e ficava tudo a olhar para nós.

      Parte II

      Na última época como jogador, na Alemanha, tem uma lesão grave.
      Sim. Eles queriam que eu ficasse mais uma época, mas tinha uma proposta para ir para o Qatar. No último jogo, como já estávamos safos da descida, eu ia sair aos 80 minutos, para me despedir dos adeptos, para a ovação. Só que, sozinho, rebentei o joelho que já tinha sido operado duas vezes. Saio logo do jogo, vou para uma clínica fazer exames e o doutor disse-me que tinha de ficar parado seis a oito meses. Apesar de ter acabado o contrato, como no Colónia gostavam muito de mim, prolongaram durante mais um ano, mas não fiz nenhum jogo e no último jogo da época, quando descemos com o Bayern de Munique, chamaram os meus filhos, a minha mulher, deram-me um quadro, flores e os adeptos bateram palmas de pé. Isto antes do jogo, passado uma hora e meia invadiram o campo para bater nos jogadores por terem descido de divisão (risos).

      Nessa altura pensou que o futebol tinha acabado, certo?
      Sim. Tinha 36 anos, tinha tido uma lesão muito grave, já tinha sido operado quando era miúdo na fase de crescimento, tinha sido operado quando ainda estava no Benfica e depois ali. Quando recuperava estava sempre a fazer roturas. Então, decidi terminar e vir embora para Portugal.

      Custou quando percebeu que tinha mesmo de pendurar as chuteiras?
      Não, porque pensei que ia voltar para Portugal, para a beira da minha família e não me chateava mais. Vim para Portugal, tinha cá o restaurante e fiquei ali. Nos primeiros tempos só ficava no restaurante, vinham os meus amigos e ficávamos a comer e a beber. Passado uns tempos já tinha 10 quilos a mais. Depois, aos poucos, começa aquele bichinho... Começo a sentir a falta do cheirinho da relva e entretanto o Rui Borges, o Rui Couto e o Amândio pedem-me para ir ajudar o Boavista que estava numa fase muito má. Estava na II divisão, não tinha equipa de futebol e o presidente tinha sido eleito há pouco tempo. Começo então a ir para o Boavista para os ajudar, mas depois aquele bichinho levou-me a jogar. Só joguei dois ou três jogos na II B, não dava mais. Depois passei a treinador-jogador.

      ©Rogério Ferreira

      Já tinha algum nível do curso de treinadores?
      Tinha só o nível um pelas internacionalizações. Mas eu não queria ser treinador. Queria trabalhar na formação, queria ficar no Boavista como chefe de futebol juvenil. Nunca pensei em ser treinador, só que eles pediram-me porque não tinham mais ninguém, torno-me treinador-jogador e começo a gostar, começo a aprender algumas coisas.

      Nessa altura como é que fazia para gerir o plantel?
      Usava a minha experiência como jogador.

      Depois foi tirar o 2.º e o 3.º níveis do curso?
      Tive que me inscrever, porque passado um ano vamos para a I Liga, o Boavista ganha a causa em tribunal e sobe. Fico como treinador e como só tinha o nível 1, inscrevo-me para o 2.º e 3.º níveis, em Fátima. Agora estou a fazer o 4.º nível.

      Esteve dois anos na II divisão e um ano na I e depois vai embora do Boavista. Porquê?
      Acho que lidava mal com os ciclos negativos. Pensava que era sempre eu o culpado, que a mensagem não estava a passar e que era mais fácil eu sair do que os jogadores. E também havia um desgaste enorme: meter o clube na I Liga deu muito trabalho, só quem andou lá é que sabe. Quando não estou bem num lugar, sou o primeiro a chegar à beira seja de quem for para agradecer e sair. E foi o que aconteceu: saí do Boavista com 10 pontos em nove jogos.

      Antes de avançar mais sobre a sua carreira de treinador, diga-nos o que foi mais difícil enquanto jogador-treinador. Administrar o treino propriamente ou garantir que o respeitavam como treinador?
      O mais difícil foi a teoria da comunicação. Uma coisa é eu estar no balneário com 23 jogadores ao lado a olhar para o treinador. Outra coisa é eu estar a olhar para 24 e eles estarem a olhar para mim, para ver o que é que eu vou dizer. Porque o jogador é inteligente, apanha tudo. E o discurso às vezes não é o melhor, mas vamos evoluindo nisso, ainda hoje não sou um expert no discurso, mas conta muito. O treino em si também não é fácil. Não é chegar ali, fazer uns bonecos e vai fazer isto. Tem que haver uma preparação, saber como é que vamos trabalhar no treino para a nossa ideia de jogo.

      Mas o mais difícil são as palestras?
      Sim, o discurso. Mas aprendi. Tínhamos lá (no Boavista) um psicólogo que gravava as conversas, filmava para que eu ver o que tinha dito e a minha postura, para poder melhorar.

      A seguir vai para o Tondela. E em Braga é expulso por ter falado com o 4.º árbitro. O que aconteceu?
      Estamos num bom momento e o árbitro expulsa-me por ter perguntado qual era o critério, quando estava um jogador no chão. Estou de mãos nos bolsos, até estão as câmaras de televisão a gravar, ele chama o 4.º árbitro e manda-me expulsar. Quando recebemos o relatório, estava escrito o que eu disse e que estava a gesticular com os braços. Mas estive sempre com as mãos nos bolsos. Levei quatro ou cinco jogos de castigo e não sei quanto de multa. Quando estava a sair, disse-lhe: “Estás contente? Amanhã já podes ir para a beira dos teus amigos para o café, dizer que expulsaste o Petit” (risos). E eles meteram isso no relatório também.

      ©Catarina Morais

      Foi expulso como jogador e como treinador. O que é que custa mais?
      Como treinador, porque acho que os jogadores gostam de ter a sua referência, o seu líder no banco. Gostam de sentir que está ali alguém. Não é tirar o mérito ou a qualidade aos nossos adjuntos, mas acho que os jogadores sentem mais. Como jogador, temos um plantel e qualquer jogador te pode substituir.

      É esse lado que tem de melhorar, conseguir manter a cabeça mais fria?
      Já melhorei. Este ano fui repreendido, mas não fui expulso.

      O que é que o tira do sério?
      Tenho o sangue quente e estou a viver o jogo como se estivesse lá dentro, sou mais um jogador. Isso também se vai moldando com a experiência que vamos acumulando como treinador. Mas a envolvência do jogo, o ritmo, a competitividade, o resultado, a necessidade de querer ganhar aquele jogo, porque precisas, porque os objetivos passam por ali, levam-nos, às vezes, a não refletir. Com a experiência já consigo parar 10 segundos, respirar, ir para o banco sem dizer nada. Estou a aprender.

      Enquanto jogador tinha a imagem de ser um jogador muito duro. A alcunha “Pitbull”, que é tido como um cão agressivo, chateava-o?
      Não, nós temos que saber lidar com a crítica e com o aplauso. Com o aplauso é mais difícil.

      Com o aplauso é mais difícil?
      É porque quando acabamos o futebol, passamos a estranhos. Podemos ter sido grandes jogadores mas passado meia dúzia de anos já não temos o aplauso, o pedido de autógrafo, a fotografia, já passamos um pouco despercebidos, a nossa fase acabou. Agora a crítica a mim obrigava-me a pensar e a dizer: “Vou mostrar-lhes”. E mostrei, consegui sempre ter a carreira que desejei.

      Reconhece que às vezes era duro demais ou não?
      Nunca lesionei ninguém. Fazia parte da minha posição de jogo.

      Nunca foi “mauzinho”?
      Não, nunca fui com a intenção de magoar e nunca magoei ninguém. Pelo contrário, eu é que tive várias lesões porque me magoaram. Como sabiam que eu era agressivo com a bola, os jogadores já vinham com outra atitude dividir a bola comigo.

      Pode contar como ganhou a alcunha de “Pitbull”?
      Foi o António Oliveira, na seleção. Quando fui chamado a primeira vez, estavam alguns jogadores a falar com ele: “Ó mister, como é que ele é a jogar?”. “Deixa-o começar a correr que quando ele começar a correr parece um pitbull” (risos). E Ficou.

      Quando conseguiu alcançar a permanência do Tondela foi a Fátima a pé.
      Nós entrámos a meio da época, quando já só faltavam nove, dez jogos para acabar. Vivíamos em Tondela, a equipa técnica toda, éramos uns seis, sete e tínhamos dito que se conseguíssemos o objetivo, íamos todos a Fátima.

      Mas não correu bem, não foi?
      Depois do último jogo, metemos pés ao caminho mas andamos perdidos em Santa Comba Dão numa noite, sem luzes, sem nada. Estivemos 12 horas para andar seis quilómetros. Muitas bolhas e cansaço do jogo, que tinha sido na véspera. Acabámos por fazer por etapas, eu vim embora porque estava cheio de dores nos músculos, cheio de bolhas, tive que vir descansar.

      Acabaram ou não por ir a pé de de Tondela a Fátima?
      Fomos mas por etapas. No sítio onde ficámos, iam buscar-nos e levavam-nos para casa, porque tínhamos que treinar. Isto já foi no início da época seguinte, porque entretanto fomos de férias. Depois voltávamos ao sítio onde tínhamos ficado e voltávamos a andar a pé uns 20 quilómetros, depois iam-nos buscar e vínhamos outra vez para treinar. Passadas duas semanas íamos outra vez. E foi assim (risos). É que nós não sabíamos que para organizar uma caminhada até Fátima, temos que ter um carro de apoio, temos que saber o caminho.

      Tem superstições?
      Não.

      Nem tinha nenhum ritual antes de entrar em campo?
      Nada, nada. Nem hoje tenho, só tenho o cigarro. Mas de resto não tenho nada disso.

      Já são vários os clubes aflitos que salva da descida. O que é mais difícil nesse trabalho? É o lado psicológico dos jogadores?
      É tudo. Para começar temos que identificar o plantel, a equipa, os jogadores, conhecê-los, perceber se estão num bom momento ou não, tanto do ponto de vista psicológico como na parte anímica. Também depende do que se quer para a equipa, posso ter uma ideia de jogo para a equipa mas não ter jogadores para isso.

      Qual é a sua ideia de jogo? Identifica-se com algum treinador, tem alguma referência?
      Gosto de uma equipa com intensidade, com bola mas com intensidade de jogo e rápida a chegar à baliza. Um dos treinadores de que gosto muito, mas não me identifico, é o treinador do Liverpool, o Klopp. O futebol é feito de golos, de espetáculo. Mas temos de saber se temos jogadores para isso, qual é o contexto em que estamos inseridos, se entramos a meio, no princípio ou a cinco jogos do fim. Quando vou para salvar, estou em último lugar, só tenho de olhar para cima, tenho que ir à procura de resultados e tu para teres resultados tens que jogar sempre para ganhar, mas sabendo quem é o adversário.

      ©Global Imagens / Fábio Poço

      Inicia a época seguinte no Tondela, mas depois sai a meio. Porquê?
      Tanto no Boavista como no Tondela, saem muitos jogadores e temos que reformular o plantel todo outra vez. E ia ser difícil. Nós salvamos o Tondela e eu fico sem jogadores, só tinha dois jogadores que eram dois miúdos com contrato, de resto todos os jogadores acabavam o contrato, o Tondela tinha vindo da II para a I Liga e fizeram só contratos de um ano. Nós conseguimos esse feito de garantir a permanência, só que só ficaram quatro ou cinco jogadores, a maior parte foi para outros clubes ganhar mais dinheiro, outros para o estrangeiro. Estar outra vez a passar por esse processo, a reformular, ter que escolher jogadores...Nunca é fácil os jogadores quererem ir para a zona interior do país, porque é um meio diferente.

      Estava longe da família nessa altura?
      Estava.

      Vivia num hotel?
      Não, vivia numa casa com a equipa técnica. Só que vinha muito a casa porque o meu filho tinha saído do Boavista, estava no Rio Ave e a escola não estava boa, por isso tive de vir muitas vezes ao Porto para estar com ele. Então nem estava focado no Tondela, nem no meu trabalho e optei por sair.

      E vai para o Moreirense. Como é que surge?
      É o presidente que me liga. Gostava da minha postura, da minha maneira de ser, dizia que eu era a pessoa indicada para salvar o clube. E foi o que aconteceu. Foi tudo rápido também. Passado uns tempos, tinha salvo o Moreirense e estive ali dois anos seguidos.

      Seguidos? Não tem o Paços de Ferreira pelo meio?
      Tenho, sim. No Moreirense acabo e saio, o presidente já tinha falado com o Manuel Machado e eu também não estava interessado.

      Magoou-o?
      Não, porque o Moreirense também estava numa fase em que foi tudo embora. Neste contexto alguns clubes fazem contrato só de um ano e depois a base dos jogadores tem que ser feita outra vez e eu andava à procura de um projeto diferente, que me desse outras garantias pelo trabalho que tinha feito no Tondela, no Boavista e no Moreirense e é quando vou parar ao Paços de Ferreira.

      E aí, como é que correu?
      No Paços as coisas não estavam mal, nem estavam bem. Eles tinham tido dois treinadores que eram da casa, que viviam lá. As pessoas de lá gostavam de mim, falo e dou-me bem com a direção, o diretor é meu amigo há muitos anos e os resultados, uns apareceram, ganhamos logo o primeiro jogo, estávamos acima da linha de água, mas não estavam a ser aquilo que ele esperava. Quando analisei a equipa, depois de estar lá dentro a trabalhar, achei que havia ali coisas que se podiam explorar no mercado de janeiro. Tinha falado com a direção, queria três, quatro jogadores porque havia um défice nas alas e nos médios... e não veio nenhum. Já havia alguma contestação dos adeptos e depois perdemos um jogo em Vila do Conde com o Rio Ave e quando chegamos a Paços de Ferreira, os adeptos estavam dentro dos balneários, vieram para cima de mim, puxaram-me e tive ali alguns problemas. A seguir, num jogo com o Portimonense, eles estavam atrás do banco… Senti que já não havia aquele espírito e fui falar com o presidente, disse que era melhor ir embora e fui. Nunca fui despedido de lado nenhum, eu é que tomava a iniciativa, porque sabia que era a melhor solução.

      Mas chegou a vias de facto com algum adepto?
      Não. Depois porque a minha equipa técnica segurou-me, mas tivemos ali alguns problemas. Depois de sair, também houve problemas com o diretor-desportivo: empurraram-o e ele veio embora.

      ©Global Imagens / Miguel Pereira

      E volta para o Moreirense.
      Pedem-me outra vez para ir para o Moreirense para ajudar a salvar e foi o que aconteceu.

      Não fica porquê?
      Por razões que não quero estar aqui a falar.

      Esta pausa em que está agora é opção sua?
      Apareceram alguns projetos, mas nada do que quero agora.

      O que ambiciona?
      Tenho cento e tal jogos na I Liga, quatro projetos em que consegui salvar as equipas. Quando assim é, é sinal que foi preciso jogar para ganhar, que há trabalho feito de qualidade, de campo e de balneário, de liderança. Por isso estou à espera de um projeto em que lute por outros objetivos, que lute pela Liga Europa.

      Não quer ficar conhecido como o treinador das subidas?
      Não, porque tenho a minha ideia, estou a aperfeiçoá-la e este tempo também dá para analisar tudo aquilo que fiz nos últimos quatro anos. Estou a acabar o curso de treinador que me permite estar mais à vontade, porque nem sequer podia opinar ou ir a uma flash interview e isso não é bom para o treinador.

      Os seus filhos estão com que idade agora?
      Ela tem 19 e ele 16.

      O que é que fazem?
      Ela está a estudar turismo na faculdade, fala cinco línguas e o meu filho joga no Boavista e está na escola.

      Ele começou a jogar quando?
      Na Alemanha, com cinco anos.

      Foi muito difícil para eles vir embora da Alemanha?
      Foi, choraram, já tinham o grupo deles, mais a Bárbara que já tinha 12 anos. Ainda agora ela vai à Alemanha, a Colónia, ter com as amigas. E se agora tiverem de ir embora daqui também vai ser difícil porque já têm o grupo de amigos, mas eles sabem qual é a profissão do pai.

      Se agora for para fora eles vão consigo?
      Eles vão sempre, embora ela já esteja na faculdade, já tem os seus amigos, é mais complicado.

      Já podia ter ido treinar para fora?
      Sim, tive alguns convites de outros países, mas não era aquilo que queria e também opto por não ir por causa do miúdo que tem 16 anos e está numa fase...

      É rebelde como foi o pai?
      É. Mas é mais de ficar em casa a jogar Playstation online com os amigos. Não é um miúdo de ir jogar futebol para a rua.

      Ao longo dos anos, onde é que ganhou mais dinheiro?
      Na Alemanha.

      Foi investindo onde, no imobiliário, meteu-se em algum negócio?
      Em imobiliário, nos restaurantes do meu pai, para a família e os meus irmãos. Não comprei, fiz obras e remodelei. E tenho o meu dinheiro aqui e na Alemanha.

      Os carros são uma paixão?
      Já tenho o carro dos meus sonhos, o Aston Martin. Já não troco, Vim da Alemanha com um jipe que troquei por uma carrinha para a mulher andar e para a filha, mas o meu já não troco.

      Qual a maior amizade que fez no futebol?
      Fiz muitas.... posso estar um ano ou meio ano sem falar, mas quando estou junto com eles, parece que foi ontem.

      Hoje ainda pratica desporto?
      Só Padbal, com pessoal aqui do norte, ex-jogadores, no verão no parque da cidade e no inverno no campo do Leça.

      Portugal
      Petit
      NomeArmando Gonçalves Teixeira
      Nascimento1976-09-25(43 anos)
      Nacionalidade
      Portugal
      Portugal
      Dupla Nacionalidade
      França
      França
      PosiçãoMédio (Médio Defensivo) / Médio (Médio Centro)

      Fotografias(6)

      Comentários (2)
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      petit
      2020-05-20 23h07m por Conceicao_S
      Que asco, tanto spam nesta notícia. Ainda bem que existe CTRL+F e pude ler a única parte que me interessava. E para quê? Clickbait asqueroso. Notícia típica para alimentar gordas rabudas de Calendário.
      petit
      2020-05-20 20h34m por j-f-uite
      > pois a uns tempos atras o salgueiros tinha muitos adeptos . . . entretanto aguns foram vira casacas como aconteceu com o boavista quando desceu de divisao e nem é preciso dizer para que clube apoiam agora ! ADEPTOS de titulos nao sao bem vindos ao futebol !
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