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José Manuel Soares: Pepe

Texto por João Pedro Silveira
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Sempre que o FC Porto visita o Belenenses os jogadores portistas transportam uma coroa de flores que vão depositar em frente de um baixo-relevo que se encontra em frente do estádio do Restelo. Esta tradição que se perde no tempo, honra a memória de José Manuel Soares, «Pepe», um herói belenense, uma das primeiras grandes estrelas do futebol português, um predestinado que representou Portugal nas Olimpíadas de Amesterdão em 1928 e que perdeu vida com apenas 23 anos...
 
Um país bem diferente

José Manuel Soares Louro, mais conhecido por «Pepe», nasceu no seio de uma família muito pobre, no n.º 17 da Rua do Embaixador, em Belém, na zona ocidental de Lisboa, no dia 30 de Janeiro de 1908 (1), dois dias antes do Regicídio que vitimou mortalmente o Rei D. Carlos e o Príncipe Herdeiro D. Luís Filipe de Bragança, no Terreiro do Paço - hoje Praça do Comércio - , quando a família real regressava de uns dias passados em Vila Viçosa.
 
©Domínio Público
Tão novo, Pepe nem sonhava com a importância do que acontecia tão perto da casa onde vivia. D. Manuel II, que nascera em Belém, no Palácio que hoje é a residência oficial do Presidente da República sucedia a D. Carlos no trono. Dois anos depois, estava D. Manuel II precisamente no Palácio de Belém, a receber a visita do Presidente da República Brasileira quando soube da revolução que culminaria com a implantação da República a 5 de outubro.
 
Para se ter uma ideia do Portugal do começo do século XX, quando Pepe nasceu o chefe de governo era o odiado João Franco a quem D. Carlos concedera poderes ditatoriais, mas durante os anos que se seguiram certamente que Pepe, como a esmagadora maioria dos portugueses perdeu conta aos chefes de governo e de estado. Até ao advento da República, Portugal ainda teria sete chefes de governo em dois anos.

Durante os dezasseis anos da Primeira República, Portugal teve 49 governos, ao que se seguiram mais seis governos nos primeiros cinco anos de Ditadura. Pepe faleceu a 24 de Outubro de 1931, meses depois Salazar tomava posse como chefe de governo. Ao longo da sua curta vida, Pepe ainda "conheceu" dois monarcas e doze presidentes da República. 
 
Uma infância difícil 
 
Muitas das dificuldades vividas por Pepe e pelos seus contemporâneos pode ser assacada à delicada situação política e económica que o país vivia nessa altura. Se o país era palco de revoltas, Lisboa, cabeça do país, era constantemente assolada por revoltas, greves, atentados. Crescer numa cidade assim era um desafio constante.
 
©Domínio Público
Filho de Maria José da Silva Soares e Julião Soares Gomes, casal que viera da Covilhã na Beira Baixa, desde cedo que ganhou a alcunha de «Pepe», diminutivo de José, por influência dos muitos galegos radicados na zona. 

Desde cedo que acompanhava o pai que com a sua carroça vendia hortaliça, batendo porta à porta, não só o bairro de Belém, mas também outras zonas mais "ricas" da cidade. A mãe tinha uma banca no Mercado de Belém, onde vendia fruta, e era com os poucos rendimentos que ambos conseguiam reunir que o casal alimentava Pepe e mais cinco irmãos.
 
Nessa mesma Rua do Embaixador vivia Artur José Pereira, a grande estrela do Sport Lisboa, o Cristiano Ronaldo do seu tempo, que mais tarde jogaria no Sporting e seria o fundador do Belenenses em 1919.
 
Desde cedo teve que trabalhar para ajudar os pais. Vivaço, lutador, desde tenra idade que se tornou num sobrevivente, contornando a fome e as doenças que grassavam pela capital. Desde miúdo que se apaixonou pela bola, normalmente de trapos, com que jogava com os amigos. Sobreviveu à escassez dos tempos da participação portuguesa na Primeira Guerra Mundial, escapou à gripe espanhola. 
 
Os primeiros passos
 
©Domínio Público
Natural de Belém, acompanhou o Belenenses desde a sua primeira hora, quando este nasceu em 1919. Com 15 anos foi inscrito pelos azuis no Campeonato de Lisboa, na época 1924/25, jogando pela primeira vez com a camisola da Cruz de Cristo na equipa das 4.ª categorias. Na época seguinte foi promovido diretamente à segunda equipa, antes de depois ascender à equipa principal do clube. 
 
A 28 de Fevereiro de 1926, contava apenas 18 anos, estreou-se na equipa principal e logo num jogo contra o Benfica na Amoreira. O jogo era decisivo para os azuis, mas a vinte minutos do fim os encarnados venciam por 4x1. Apenas Augusto Silva e Pepe pareciam não ter baixado os braços. O Belém acredita e consegue empatar a quatro, conseguindo ainda uma grande penalidade a um minuto do fim. 
 
Augusto Silva aponta Pepe como o marcador do penálti, e com frieza, o «puto», faz o 4x5 que dá a vitória aos azuis, entrando diretamente para a lenda belenense no jogo de estreia.
 
A meteórica ascensão do Belenenses
 
Seguiram-se vitórias sobre o Império e o Sporting que garantiram ao Belenenses o primeiro título de Campeão de Lisboa do seu palmarés. No Campeonato de Portugal, o Belém chegou à final que seria perdida para o Marítimo numa final polémica no Campo do Ameal no Porto. 
 
©Domínio Público
Na época seguinte invertiam-se as coisas com o Belenenses a ficar em segundo lugar no Campeonato de Lisboa, atrás do Vitória de Setúbal, para depois vencer o Campeonato de Portugal, batendo o Setúbal por 3x0 na final do Lumiar, conquistando o troféu pela primeira vez na história. 
 
A campanha de Amesterdão
 
Em 1928 Pepe fez parte da primeira equipa portuguesa de futebol a participar numa grande competição internacional, os Jogos Olímpicos de Amesterdão. Juntamente com outros grande nomes do futebol lusitano da época como António Roquete, Jorge Vieira, Vítor Silva ou Augusto Silva.
 
Estreante neste tipo de andanças, a equipa das Quinas teve de disputar uma pré-eliminatória onde venceu o Chile por 4x2, onde Pepe brilhou e marcou dois golos. Seguiu-se uma vitória sobre a forte Jugoslávia (2x1), equipa que seria semifinalista na primeira edição do Mundial, dois anos depois no Uruguai.
 
©Domínio Público
Nos quartos-de-final, Portugal acabou por ser surpreendido pelo Egito, perdendo por 2x1 com os africanos, saindo da prova, quando muitos já sonhavam com uma medalha.
 
Uma carreira ímpar
 
Repentista, senhor de uma técnica aprimorada, Pepe era o ídolo da criançada que o tentava imitar um pouco por todos os descampados de Lisboa. Cara de miúdo, franzino, contornava os adversários com os seus magistrais dribles e uma velocidade vertiginosa. 
 
Mais impressionante era o seu remate furioso, que lhe permitiu apontar 24 golos em 36 jogos tanto no Campeonato de Portugal como no Campeonato de Lisboa, números impressionantes se pensarmos que a sua carreira terminou quando contava apenas 23 anos, ao que se somam os dois títulos de Campeão de Portugal e três títulos de Campeão de Lisboa. 
 
©Domínio Público
Só nos resta questionar quantos títulos haveria conquistado se a vida não lhe fosse ceifada tão prematuramente?
 
Trágico acidente
 
Com apenas 23 anos perdia a vida num acidente estúpido, vítima de envenenamento involuntário, provocado por sua mãe, que por engano colocou potassa na panela onde preparava um cozido, quando pensava estar a colocar bicarbonato de sódio para apressar a cozedura. 

Quando foi para o emprego, Pepe levou umas sandes com chouriço que sobrara da refeição para poder comer ao lanche. Partilhou um pouco do chouriço com um gato que por ali sempre andava, e este pouco depois entrou em convulsões, acabando por falecer.
 
©Domínio Público
Entretanto Pepe começara a sentir dores de barriga tão fortes que teve de ser levado ao hospital. Acabaria por falecer algumas horas depois, vitima de hemorragias. A irmã, o irmão e a mãe também seriam levados para o hospital, mas tinham comido consideravelmente menos que Pepe e acabaram por sobreviver. O Pai, que não comera nada da panela supostamente envenenada, não sofreu de nenhum sintoma.
 
Dias depois, 30 mil pessoas acompanharam o féretro, num dos mais marcantes funerais que a cidade de Lisboa e o país haviam presenciado. Em estado de choque, o «mundo da bola» e o povo lisboeta acorreu para acompanhar o jovem herói à sua última morada.
 
O Belenenses honraria a sua memória batizando o estádio das Salésias com o seu nome, onde se erigiu um baixo-relevo para homenageá-lo. Quando o Belenenses se mudou para o Restelo, o baixo-relevo foi transladado para a entrada do estádio, e é precisamente nesse local que a equipa do FC Porto deposita uma coroa de flores sempre que visita o Belenenses
 
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(1) Algumas fontes apontam o dia 29.

Fotografias(8)

Primeiro jogo de Pepe contra o Benfica
Pepe faz golo de cabeça
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Lotação500
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Inauguração1927