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Madjer: o Rei das Areias

Texto por João Gonçalo Silva
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Melhor de sempre. Podemos perder muito tempo à procura de adjetivos para descrever Madjer, mas dificilmente encontraremos três palavras que resumam melhor a carreira daquele que foi, durante duas décadas, a cara do futebol de praia em todo o mundo. 

Como um verdadeiro impulsionador da modalidade, ficou ligado ao crescimento do desporto nas areias, catapultando Portugal para um patamar de excelência. Os prémios individuais e coletivos conquistados ao longo dos 20 anos de carreira são apenas uma representação do domínio do Rei das Areias. 

O acontecimento que mudou todos os planos

João Vítor Tavares Saraiva, ou Madjer, como é conhecido por todos, desenvolveu uma amizade com a bola desde muito cedo. Nascido em Angola, veio para Portugal aos seis meses e a família escolheu a capital para assentar. Entre Cascais e o Estoril, o jovem João Vítor esteve sempre em contacto com as areias da linha, mas ainda não fazia ideia do papel que um dia viriam a desempenhar na sua vida. 

©Arquivo pessoal Madjer

Mais interessado pelo futebol, como quase todos os jovens da sua idade, ingressou nas escolas do Estoril Praia aos sete anos, onde começou o seu percurso no desporto. Desde cedo se notava a qualidade e os amigos deram início a uma brincadeira. Numa altura em que Rabah Madjer fazia parte do plantel do FC Porto, os mais próximos começaram a fazer comparações entre os dois e nasceu a alcunha com a qual é conhecido. 

Só que um verdadeiro susto meteu em causa todo o seu futuro no desporto em geral. Aos 17 anos, um grave acidente de mota afastou-o dos relvados. Durante algum tempo, ainda temeu que as lesões o impedissem de praticar qualquer tipo de desporto, mas recuperou. Dois anos depois, voltou ao futebol, no entanto, sentia que tinha perdido o ritmo e já não era o mesmo. Acabou por deixar o futebol a nível competitivo e começou a trabalhar, mas o gosto continuava lá. De vez em quando, juntava-se com uns amigos para matar as saudades e foi graças a estas «peladinhas» que nasceu a ligação com o futebol de praia.

Os primeiros passos na areia

©FPF
Carlos Xavier, antigo jogador do Sporting e um dos grandes impulsionadores da modalidade em Portugal, costumava passar perto do sítio onde Madjer jogava futebol e começou a reconhecer a qualidade. Numa altura em que já estava ligado ao futebol de praia, convidou o jovem para experimentar uma versão da modalidade ainda pouco explorada. Reticente, acabou por aceitar o convite e participou num torneio amador, na praia de Carcavelos.

Com a classe que lhe é reconhecida, deu nas vistas e acabou por ser o melhor marcador desse torneio. Atento aos jogos estava o então selecionador de futebol de praia, João Barnabé, que, prontamente, convidou-o para o Campeonato do Mundo de 1998. As competições ainda não eram organizadas pelas entidades oficiais, mas começavam a chegar a uma maior audiência.

©beachsoccer.com /
Os traços sempre estiveram lá. A estatura física, o controlo de bola, as qualidades técnicas e o pontapé de bicicleta que tanto o caracteriza. Sem espanto, o gosto começou a crescer e a experiência nesse Mundial foi positiva, o que acabou por pesar na decisão de continuar a apostar no futebol de praia. Ao chegar a Portugal, surgiu a possibilidade de carregar, pela primeira vez, a camisola do Sporting, naquele que foi o início de uma duradoura história de sucesso. As competições esporádicas juntavam, para além dos leões, equipas como o Benfica, o Boavista ou o FC Porto, compostos, maioritariamente, por antigos jogadores de futebol e estreantes.

A sua qualidade na areia abriu os olhos aos clubes de futebol de 11, chegando mesmo a receber convites de equipas da Primeira Liga. Em 2003, foi testar os relvados ao serviço do Vitória SC e do Paços de Ferreira, mas percebeu que essa não era a sua «praia».

Começa-se a redigir a epopeia

Madjer era acima da média. E, por não ter grandes oportunidades em Portugal, teve de procurar alternativas em países onde a modalidade já era mais desenvolvida e mais recompensadora. No Cavalieri del Mar, encontrou a possibilidade de disputar um campeonato organizado e tornou-se o primeiro estrangeiro a jogar em Itália. 

©beachsoccer.com /
Este foi o começo de uma aventura no estrangeiro que o levou também a países como o Brasil, Turquia, Rússia, Polónia e Emirados Árabes Unidos. Escusado será dizer que, onde quer que passasse, deixava sempre a sua marca. As conquistas chegavam com naturalidade, fossem elas Ligas, Taças ou Supertaças.

No início da carreira, passou muito tempo em solo italiano, onde somou vários troféus, mas voltava sempre ao Sporting. O primeiro troféu com o leão ao peito aconteceu em 2010, com a conquista do campeonato nacional. Entretanto, tomou os Emirados Árabes Unidos de assalto e levantou nove títulos nas suas passagens pelo país asiático. 

©Arquivo pessoal Madjer

Com o passar dos anos, foi cimentando a sua posição como uma das principais figuras do futebol de praia mundial, só que foi na sua carreira de seleção que Madjer atingiu um nível que muitos se arriscam a sonhar, mas só os predestinados conseguem alcançar.

Heróis do mar, nobre povo

Quando representava a seleção das Quinas, enchia praias com adeptos para o ver. A classe arrastava-se pelos areais onde Portugal disputava os seus jogos. Três anos depois da estreia nas competições por seleções, em 2001, levantou o primeiro título de campeão do Mundo, colocando o pequeno país europeu no mapa. No fim da sua carreira, Portugal já era um gigante no futebol de praia e uma seleção temida por todos. Madjer era um dos principais responsáveis.

©beachsoccer.com / Manuel Queimadelos
O poderio do Brasil foi um dos fatores que impediu que o poderio português fosse ainda maior. Porém, o homem que marcou mais de mil golos com a camisola portuguesa, ainda conseguiu conquistar mais dois Campeonatos do Mundo, quatro Mundialitos de seleções, cinco Europeus, entre muitos outros títulos.

Um jogador que atravessou várias gerações e que era presença assídua nas televisões dos portugueses nas tardes de verão, nos famosos Mundialitos. O nome Madjer é inconfundível quando se fala em futebol de praia.

©Carlos Alberto Costa
Mas a idade não perdoa e o craque teve de tomar a decisão complicada de deixar os areais, embora não sem antes realizar um «tour de despedida» que foi uma representação do que foi a sua carreira.

Fechar com chave de ouro

O ano de 2019 foi histórico para Madjer e para a seleção portuguesa e, dificilmente, alguma vez será superado ou até mesmo igualado. 

Para abril, ficou marcada a primeira de cinco conquistas. Portugal venceu o Torneio Internacional da China, dando o mote para o resto do ano. Depois, seguiram-se os Jogos Europeus, em Minsk, onde conquistaram a medalha de ouro, com um golo do capitão na final. 

©FIFA
O verão começou com a vitória no Mundialito na Nazaré e culminou com o título de campeão europeu na Figueira da Foz. Mas o melhor ficou reservado para o fim: meses antes da última competição do ano, o camisola 7 foi escolhido como o melhor da história do futebol de praia pela France Football, um título merecido e digno de uma carreira que ainda tinha mais uma palavra a dar.

No Paraguai, a seleção das Quinas conquistou o Campeonato do Mundo, o terceiro da sua história, e Madjer tornou-se o único a ter estado em todos eles. Com a medalha de ouro ao peito e de lágrimas nos olhos, anunciou que ia retirar-se aos 42 anos. 

Foi o fim de uma era, de uma lenda e a representação final: o coroar do Rei das areias. 

©Madjer
Sempre muito ligado aos bastidores, enquanto ainda reinava nos relvados, foi sem surpresa que assumiu um cargo de destaque na Federação Portuguesa de Futebol, como coordenador da modalidade. Para além disso, passou a trabalhar no crescimento do futebol de praia, sendo um dos maiores embaixadores. A formação de jovens atletas não é esquecida. A Madjer Cup é um torneio destinado às camadas jovens, que foi pensado pelo próprio e com vista a melhorar as condições de formação do futebol de praia para os mais novos.

Depois do impacto dentro da modalidade, Madjer continuou a ser um grande pilar já fora das areias e a reforçar o estatuto de lenda para levar o desporto ainda mais longe.

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