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Maxi Pereira: a definição de raça

Texto por João Gonçalo Silva
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Um jogador sul-americano, daqueles que joga no limite, que não vira a cara à luta, cheio de raça e cheio de vontade de vencer. Maxi Pereira era muito isto. Durante vários anos, foi uma presença assídua nos relvados da Liga Portuguesa, mas sempre pouco consensual entre os adeptos. Uma espécie de jogador que se adora quando está na nossa equipa, mas que se odeia quando está no adversário.

Sem se evidenciar pela suas qualidades técnicas ou até pela velocidade, o uruguaio destacava-se por ser aguerrido e disputar todos lances com muita intensidade (por vezes até demasiada), acabando por se tornar uma peça importantes nas equipas por onde passou. Pode nunca ter sido de elite, mas tem um legado claro no futebol português.

Ultrapassar as adversidades

Victorio Maximiliano Pereira Páez nasceu em Montevideu, capital do Uruguai, no berço de uma família humilde. Com quatro irmãos e duas irmãs, foi o primeiro a mostrar aptidão para o futebol. O gosto começou nas ruas do bairro, mas, aos 12 anos, passou para as camadas jovens do Defensor. Foi nesta altura que o seu pai faleceu, só que a mãe, sempre confiante no seu potencial, deu-lhe força para continuar no futebol. 

De baixa estatura e com uma forma de correr peculiar, os amigos começaram a chamá-lo de Mono, «macaco» em português, e assim ficou. É habitual darem-se alcunhas aos jogadores na América Sul e essa acabou por acompanhá-lo, como confessou, até à seleção.

©Catarina Morais
Aos 17 anos, alcançou a primeira divisão do Uruguai, um dos seus primeiros sonhos. Numa família de adeptos do Peñarol, Maxi passou a defrontar as grandes equipas do país e fazia-o com muita qualidade, começando a chamar a atenção dos clubes europeus. Depois de ter começado a avançado nas camadas jovens, era a médio que dava nas vistas.

Mas não era só aos clubes que El Mono ia impressionando. Em 2006, Óscar Tabárez, selecionar uruguaio, chamou-o para um amigável frente à Venezuela, dando início a uma rica carreira internacional que viria a dar frutos no futuro. Já lá vamos.

Destino: Portugal

©Carlos Alberto Costa
Em terras lusas, o Benfica passava por uma fase de transição. José António Camacho ocupou o lugar deixado por Fernando Santos já com o campeonato a decorrer e, prontamente, apontou as várias lacunas do plantel. Uma semana depois, o clube da Luz anunciou que tinha chegado a acordo com o Defensor para a contratação de Maxi Pereira, por uma quantia a rondar os três milhões de euros, atendendo ao pedido do novo técnico. Com o rótulo de médio direito, e com 24 anos, o urugaio deu um passo na carreira que não sonhava ser possível quando era criança. 

Sem ser opção nas primeiras jornadas, o técnico espanhol começou a apostar no baixinho na sua posição original, médio direito. Com o decorrer da época e cada vez mais adaptado ao futebol português, foi ganhando minutos. Depois, devido à falta de qualidade na posição e beneficiando dos atributos que lhe eram conhecidos, começou a ser aposta no lado direito da defesa. 

Maxi foi aposta nas competições europeias na época de estreia e a sua verdadeira apresentação na Liga dos Campeões ficou marcada para o dia 28 de novembro de 2007 na receção ao AC Milan. Com um grande remate de fora da área, com o pé esquerdo, deixou Dida sem resposta e ajudou o Benfica a empatar com o então campeão europeu, aquela que era umas das grandes equipas dos rossoneri.

©Carlos Alberto Costa
Apresentado aos adeptos da Luz, El Mono tornou-se dono da posição de lateral direito. Na sua segunda época em Portugal (2008/09), já era indiscutível e falhou apenas duas jornadas em todo o campeonato. O primeiro título apareceu durante essa temporada, com a vitória sobre o Sporting (1-1, 2-3g.p.) na final da Taça da Liga. 

Talhado para os grandes palcos

Com a chegada de Jorge Jesus à Luz, o clube ganhou outra dimensão e voltou a celebrar o título de campeão nacional, cinco anos depois, impedindo o penta do grande rival. Com uma campanha quase irrepreensível, as águias ainda revalidaram o título da Taça da Liga.

O urugaio começou a mostrar uma aptidão especial para os jogos importantes e uma veia goleadora pouco comum nos grandes palcos. Nos oitavos-de-final da Liga Europa de 2009/10, o lateral marcou dois dos três golos ao Marseille (3-2), que ajudaram o Benfica a alcançar os «quartos», onde acabaram por cair ao pés do Liverpool. Na época seguinte, voltou a ser importante na eliminatória frente ao Paris SG, deixando o seu nome na lista dos marcadores na primeira-mão (2x1).

©Catarina Morais
De volta à Liga dos Campeões em 2011/12, foi decisivo novamente, desta vez frente ao Zenit, com dois golos, um na Rússia e um na Luz, eliminatória que possibilitou a chegada das águias aos quartos de final. Para além disso, foi sempre titular nas finais (internas e externas) em que o clube participou, com exceção da final perdida com o Chelsea (2x1), que falhou por acumulação de amarelos. Algumas com um desfecho mais feliz do que outras, a verdade é que Maxi tornou-se um jogador consagrado e com muitas medalhas, um feito que não se limitou apenas a nível de clubes.

Vestiu a camisola da seleção uruguaia por 125 vezes, representando a Celeste por três vezes no campeonato do Mundo e quatro na Copa América, com o auge da sua carreira internacional a culminar na conquista desta competição, em 2011. 

A lua de mel e o divórcio

Foi, precisamente, após essa final, que El Mono viveu um dos melhores momentos ao serviço do Benfica. Depois de levantar o troféu da Copa America, fez questão de voar para Lisboa e chegar a tempo da primeira mão da 3ª pré-eliminatória da Liga dos Campeões, apenas dois dias depois. Conseguiu ajudar a equipa a vencer a partida e foi homenageado pelo clube pela conquista da sua seleção. Luís Filipe Vieira referiu-se a ele como «uma das referências e uma das jóias da coroa do Benfica».

©Carlos Alberto Costa
Nada fazia prever o rumo que a sua carreira na Luz ia tomar. No fim da época da época de 2014/15, depois da conquista do bicampeonato, o uruguaio continuava sem novo contrato com o Benfica e os rumores começaram a surgir. Depois de uma saída precoce da Copa America, o próprio admitiu que era «difícil» voltar ao clube na temporada seguinte e, para surpresa de todos, admitiu que tinha recebido uma proposta do maior rival... o FC Porto. Sem revelar grandes avanços, admitiu que tinha de escolher «o melhor para a família».

Eis que, no dia 15 de julho, explodiu a bomba. Maxi Pereira, o até então vice-capitão do Benfica, ia vestir de azul e branco. Uma decisão que caiu muito mal entre os adeptos dos encarnados e, até nos primeiros tempos, pouco consensual no reino do Dragão. Para além do mais, ia usar o eterno número 2, que pertenceu a João Pinto.

Novas cores, a mesma entrega

Maxi demorou pouco tempo até convencer os portistas mais céticos. Com a mesma vontade de sempre, agarrou o lugar deixado por Danilo, vendido ao Real Madrid, e tornou-se indiscutível. Na apresentação, deixou o mote: «O objetivo é ser campeão pelo FC Porto».

Nos dois primeiros anos andou perto, mas teve de ver o antigo clube ganhar o campeonato por duas vezes. Ainda assim, as exibições eram convincentes e ninguém parecia fazer concorrência para o lugar. Habituado a assumir o protagonismo nos grandes jogos, como já se sabe, conquistou ainda mais os adeptos do FC Porto quando fez o golo do empate na Luz (1x1) e celebrou com os colegas de equipa. Não gostaram os adeptos encarnados, como seria de esperar.

Ganhou dois títulos no FC Porto ©Catarina Morais / Kapta +
Sérgio Conceição chegou e Ricardo Pereira roubou o protagonismo. Já sem as mesmas capacidades físicas de outros tempos, aceitou um papel de menor destaque, mas manteve-se sempre preparado para quando era chamado. A prova foi o golo marcado frente ao Leipzig, na vitória épica (3x1) no Dragão. No fim da época, cumpriu a promessa. Os azuis e brancos celebraram o título e El Mono não se poupou nas celebrações, o seu quarto troféu da Liga Portuguesa.

O último ano de contrato começou de forma positiva, com uma grande exibição na Supertaça premiada com um dos golos, mas acabou por perder protagonismo. A época dos dragões também acabou de forma menos positiva e, à semelhança do que aconteceu com o Benfica, Maxi terminou sem renovar. Na pré-época seguinte, já sem clube, surgiram rumores de um contrato com o Boavista ou o Rio Ave, o que acabou por não acontecer.

Importante até ao fim ©Catarina Morais / Kapta +
Mesmo sem ser o mais evoluído tecnicamente ou até o mais completo, a verdade é que conquistou sempre os treinadores que tiveram a oportunidade de o treinar. Maxi Pereira mostrou ser um dos jogadores mais importantes enquanto esteve ao serviço tanto do Benfica como do FC Porto, acabando por ser, discutivelmente, o lateral direito mais regular do início do século em Portugal.

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Comentários (3)
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motivo:
Maxi
2020-03-26 01h16m por 19Rick_and_Morty04
Foi um bom jogador, se tivesse tido respeito pelo Benfica teria saído pela porta grande e uma lenda do clube. Assim saiu pela porta pequeno no FCP e é para sempre lembrado como um traidor sem respeito pelos benfiquistas.
JO
Maxi
2020-03-25 20h43m por josebrito123
Dos piores jogadores que vi atuar em portugal nos ultimos largos anos. . .
Ele é um caso gritante de que mais vale cair em graça do que ser engraçado! Este gajo era horrivel, lento, burro, não defendia bem, não atacava bem, dava pau que se fartava mas lá está tinha raça e isso serviu para cair em graça junto dos adeptos. . . tenho um tio que também tem raça, dá pau e ainda tem um taco de baseball para despachar mais uns. . . serve para ir a jogo?
E depois teve a sorte de m...ler comentário completo »
JO
Maxi
2020-03-25 19h03m por joaots
Muita entrega mas a maneira como no divorcio com o Benfica este muito mal (assim como o Benfica).
Recordar a raça, os lançamentos longo, o espaço livre nas suas costas, a amizade incrível com o Gaitan e o amor que tinha por Portugal
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