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      Hugo Viana: O Purista

      Texto por Hugo Filipe Martins
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      Se acompanhou o início da carreira de Hugo Viana certamente esperaria que a biografia deste médio esquerdino fosse ligeiramente diferente. A história deste jogador nascido em Arcozelo, Barcelos, está longe de ser negativa, mas os primeiros tempos apontavam voos mais altos do que aqueles atingidos por Hugo Viana. É verdade que, por momentos, tocou o céu, mas sempre ao de leve.

      Do estrelato atingido bem cedo, às dificuldades de adaptação quando saiu de Portugal, Hugo Viana deu nas vistas em tenra idade em Alvalade, passou pelos desejados relvados da Premier League e da Liga espanhola, esteve presente em três fases finais de grandes competições ao serviço da seleção portuguesa… mas faltou sempre qualquer coisa.

      Hugo Viana era um purista. O pé esquerdo era o típico daqueles jogadores talentosos, com a bola fazia o que queria e com espaço para pensar e executar foi um dos melhores da sua geração em Portugal. A pressão inicial, natural pelo aparecimento no Sporting, dificultou a sua afirmação, mas a verdade é que Hugo Viana talvez tenha aparecido uma geração mais tarde do que o ideal para as suas características. As dificuldades para um estilo de jogo mais físico e intenso, como o inglês, foram claras e também por isso foi mais difícil crescer ao ponto que todos esperariam. Enquanto jogou, Hugo Viana espalhou classe, um perfume típico dos mais talentosos jogadores de futebol, marcou alguns golos que ficam para sempre na memória, mas a melhor forma de resumir a carreira está nas suas próprias palavras: «Estive em grandes equipas, fiz jogos bons, fiz jogos péssimos, estagnei, voltei em grande nível...». O potencial estava lá, mas por uma razão ou por outra Hugo Viana foi o craque que nunca deu o salto.

      Coragem para assumir o talento

      Já aqui dissemos que Hugo Viana nasceu na zona de Barcelos e é precisamente por lá que começa toda esta história. Ainda uma criança, Hugo Viana, Miguel, para a família, já sentia que o futebol iria fazer parte da sua vida. Em casa tinha por hábito enrolar meias para as usar como bola e treinar algumas fintas. Pois bem, foi precisamente por treinar fintas que, com uma bola a sério e apenas cinco anos, partiu o braço.

      Sempre próximo da família, Hugo Viana era o menino dos olhos de Filomena Silva, que desde cedo acompanhou o filho naquilo que viria a ser a sua carreira. O trajeto foi o habitual para um miúdo que gosta de jogar futebol. Aos 13 anos, foi descoberto pelo Gil Vicente, mas não ficaria em Barcelos muito mais tempo. Ainda no escalão de iniciados, participou num torneio de futsal. Qual a melhor forma de dar nas vistas? Fazer golos. Dito e feito: Hugo Viana fez 88 (!). Com o Benfica como clube do coração, talvez o próximo passo não estivesse propriamente nos planos, mas assim foi. Com 14 anos, enfrentou o medo de deixar a família – foi difícil para ele e para a mãe, que passou a ver o filho de duas em duas semanas – e rumou à capital para equipar de verde e branco. Aquele torneio de futsal chamou a atenção do Sporting e Hugo Viana não se importou de seguir a sua vida naquele que, até então, era o seu rival.

      O período inicial foi complicado. As saudades de casa e da família dificultaram a adaptação a uma exigência bem diferente, mas o tempo viria a provar que Hugo Viana tinha tomado a decisão mais acertada: «Fazer tudo sozinho desde os 14 anos e estar longe da minha família deu-me alguma maturidade», admitiu poucos anos mais tarde. Já com o leão ao peito, viria a representar as seleções mais jovens e foi assim que, em 2000, venceu o Europeu sub-16 com Portugal. Adivinhavam-se tempos de glória para o minhoto, que começou a surgir cada vez mais nos radares dos sportinguistas mais atentos à sua formação, numa altura em que o clube de Alvalade vinha recuperando algum fulgor no futebol português.

      Pelas mãos de Boloni, eis «o melhor jovem da Europa»

      Tinha apenas 18 anos quando fez o primeiro jogo pelo Sporting. Ainda não era oficial, mas depois do encontro com o Celta de Vigo não foi preciso esperar muito mais pela estreia tão aguardada. Foi em Alvalade, perante 16 mil espetadores, num jogo da Taça UEFA, que Laszlo Boloni chamou o jovem médio para o lugar de Pedro Barbosa. Estava dado o primeiro passo para uma época memorável, talvez a melhor da carreira.

      Ainda no início, pode parecer exagerado definir este como o melhor ano de Hugo Viana, mas o próprio reconheceu isso mesmo já no final da carreira. Aconteceu tudo tão rápido. O esquerdino tinha começado a época na equipa B, fez três jogos e pouco tempo depois estava ali, com Pedro Barbosa, Beto, Paulo Bento, João Pinto e Jardel, junto daquele que, nos primeiros tempos, foi o seu amigo mais próximo: Ricardo Quaresma.

      As fintas do extremo iam começando a dar nas vistas, mas era o requinte técnico, a visão de jogo, a capacidade de remate e o pé esquerdo de Hugo Viana que surgiam cada vez com mais regularidade. Nessa época, o Sporting sagrou-se campeão nacional. Boloni teve várias figuras de destaque nesse título, uma delas foi precisamente Hugo Viana. A época de estreia, a época do primeiro campeonato da carreira… a época da despedida.

      ©Carlos Alberto Costa

      Tão rápido apareceu como foi embora. Com um rótulo invejável, diga-se. Aos 18 anos, aquele miúdo, que uns anos antes fazia das meias uma bola de futebol, acabava de ser eleito «o melhor jovem da Europa». E foi assim que a Europa o viu, em pleno Europeu de sub-21. Até poderia ter visto também no Mundial 2002, uma vez que Hugo Viana foi caso raro: depois de jogar no Europeu de sub-21, ainda foi chamado para a seleção principal a tempo do Mundial do Japão e Coreia do Sul para substituir Kenedy, suspenso por doping, embora não tenha sido utilizado por António Oliveira.

      O Celta de Vigo acenou ao Sporting com 10 milhões de euros e o passe do chileno Contreras e o negócio estava quase a confirmar-se quando o novo treinador do emblema espanhol decidiu que queria manter o defesa. Os ingleses entraram em ação e aí as ligações a Portugal fizeram toda a diferença. Numa altura em que Hugo Viana passava a ser agenciado por Jorge Mendes, Liverpool e Newcastle disputaram o jovem mais cobiçado da Europa – Juventus, Milan e Lazio também estavam de olho no esquerdino. A dois dias de deixar em definitivo Alvalade, Hugo Viana esteve perto de reforçar o Liverpool de Gérard Houllier, treinador que falou pessoalmente com o português, mas seria outro treinador a fazer a diferença: Sir Bobby Robson. O antigo técnico do FC Porto aproveitou os contactos que tinha em Portugal, falou com o presidente do Newcastle, Freddie Sheperd, e convenceu-o a fazer de Hugo Viana o jovem mais caro da Europa. Os magpies roubaram o jogador ao Liverpool e pagaram 12,5 milhões de euros ao Sporting. Com isso, «o melhor jovem da Europa» passou a receber 15 vezes mais do que em Alvalade. Estava lançada uma carreira de sonho, pelo menos assim se esperava.

      «Viana or Viagra? Saturday afternoon, Viana. Saturday night, Viagra»

      A frase é de Bobby Robson, já depois de outras palavras terem marcado a chegada de Hugo Viana a Newcastle: «The best young player in the world [o melhor jogador jovem do mundo]». Foi desta forma que o presidente do emblema do norte de Inglaterra apresentou Hugo Viana depois de ter viajado para Portugal com um dirigente do emblema britânico para finalizar a transferência da grande promessa do futebol português e mundial. Bobby Robson tinha o reforço que pedia, até então a transferência mais cara do mercado em Inglaterra, a superar a de Jermaine Jenas, também ele reforço do Newcastle a troco de 7,7 milhões de euros.

      Todo este processo veio colocar ainda mais pressão nos ombros de Hugo Viana, ele que chegou mesmo a emocionar-se quando falou com Felix Carnero, diretor do Celta de Vigo, para lhe agradecer as tentativas que este fez para o levar para Espanha. O destino foi a Premier League, mas o jovem português sentiu dificuldades de adaptação e afirmação, também pela forma como os magpies olharam para a sua contratação.

      ©Getty Images
      «Estamos encantados por termos conseguido o Hugo Viana. É consensual a opinião de que se trata do melhor jogador jovem do mundo neste momento. É o médio-esquerdo que Bobby Robson queria para ter êxito na Liga dos Campeões», disse Freddie Sheperd na apresentação. Aquele que o presidente do Newcastle via como o «cérebro» da seleção portuguesa no Europeu sub-21 não teve espaço em Inglaterra onde se sentia mais confortável, no centro do terreno. Esse foi um dos fatores que levou a que a passagem por Newcastle fosse muito abaixo das expectativas.

      Sem velocidade para atuar nas alas, Hugo Viana foi sentindo cada vez mais pressão pelo valor que custou e pelo pouco que ia conseguindo produzir. Na primeira época em Newcastle, foi utilizado por Bobby Robson com alguma regularidade, mas longe de ter o impacto esperado aquando da sua contratação. Ainda assim, marcou um golo importante na vitória para a Liga dos Campeões sobre o Feyenoord, a segunda do Newcastle na fase de grupos depois de três derrotas consecutivas. Era a primeira época e por isso Hugo Viana teve o benefício da dúvida, apesar das críticas da imprensa – grande parte dos adeptos ainda tinha esperança que o jovem de 20 anos fosse explodir e pedia uma utilização mais regular no centro do terreno, onde o seu remate e visão de jogo podiam fazer a diferença.

      O certo é que o jogo físico da Premier League foi sempre difícil para Hugo Viana, habituado a um ritmo mais baixo em Portugal, onde tinha mais tempo para pensar e executar. A época seguinte mostrou que Hugo Viana ainda não estava pronto para jogar em Inglaterra. 2004 acabou por ser o ano da despedida do Newcastle, clube com o qual continuou ligado mais duas épocas. O próprio admitiu, mais tarde, em entrevista a um canal de fãs do clube inglês, a experiência falhada: «Sei que as minhas exibições não foram sempre boas. O Newcastle esperava grandes coisas de mim e eu não consegui». Depois de dois anos junto de «uma pessoa incrível» - é assim que Hugo Viana descreve Bobby Robson – chegava a hora de voltar à casa mãe e recuperar a alegria de jogar futebol.

      Faltou sempre qualquer coisa...

      A oportunidade até já tinha surgido na época anterior, mas a vontade de Bobby Robson em continuar a contar com o médio português manteve-se, com a condição que a partir do mês de dezembro seria mais utilizado. Não foi isso que aconteceu, por isso no final da época Hugo Viana já tinha o futuro praticamente decidido. Chegou a falar-se numa possível transferência para o Benfica, mas a casa que já conhecia bem voltou a recebê-lo da melhor maneira. À procura de voltar a entrar no radar do futebol europeu e da seleção nacional, Hugo Viana regressou a Alvalade por empréstimo.

      O esquerdino voltou a casa para jogar e foi isso mesmo que fez, numa das melhores épocas do Sporting no início do século. A equipa, na altura orientada por José Peseiro, praticava um bom futebol, com um meio-campo onde se destacavam três jovens da formação: Custódio, João Moutinho e Hugo Viana. O médio voltou a ter espaço para jogar onde mais gostava e acabou a fazer uma época muito positiva do ponto de vista individual e coletivo, mas, como aconteceu muitas vezes com o internacional português, o Sporting tocou o céu por pouco tempo.

      ©Getty Images
      Os leões acabaram por perder a Taça UEFA na final de Alvalade, frente ao CSKA, e disseram adeus ao campeonato depois de uma derrota com o Benfica na fase final da temporada. Para Hugo Viana, acabaria por ser um adeus definitivo à equipa leonina como jogador. Apesar dos 10 golos e 45 jogos que realizou em Alvalade (o melhor registo de toda a carreira), os leões não tinham meios financeiros para contratar Hugo Viana em definitivo, apesar do interesse do Newcastle em vender o jogador e o médio acabou por rumar a Espanha para tentar a afirmação num campeonato de topo.

      O português mudou-se então para o Valência, onde já estavam os portugueses Marco Caneira e Miguel, mas também não foi feliz na equipa che, sob o comando de Quique Flores, muito por culpa da concorrência que encontrou em Espanha. Apesar de contar com Edu e Aimar, a equipa espanhola avançou mesmo para a compra definitiva depois de uma temporada pouco conseguida por parte do português, uma figura secundária na solarenga cidade de Valência. O Newcastle acabaria por ter um prejuízo acentuado, depois de vender o internacional português por pouco menos de três milhões de euros, numa altura em que, apesar da época abaixo do esperado, Hugo Viana tinha sido convocado por Scolari para o Mundial de 2006.

      Definitivamente afastado dos relvados ingleses, onde a intensidade de jogo foi sempre apontada como determinante para a pouca produtividade em campo, Hugo Viana podia pôr essa etapa para trás das costas e concentrar-se na afirmação definitiva em Espanha, onde passou a ser utilizado com maior regularidade, mas ainda longe do que tinha mostrado nos relvados portugueses. O tempo ia passando, o destaque ia sendo cada vez menor e ao fim de mais duas épocas em Espanha, uma delas emprestado ao Osasuna, despedir-se-ia do futebol espanhol. A alegria não era a mesma e a vontade era apenas e só uma: «Quero jogar, mas quero continuar a jogar a alto nível. Acho que tenho condições para o fazer». O Sporting voltou a surgir como hipótese, mas, 13 anos depois, Hugo Viana estava de volta ao Minho.

      A espalhar classe na Pedreira antes da despedida

      Na hora de continuar a carreira, o SC Braga surgiu como a melhor hipótese. Num clube em crescimento e com muitos jogadores talentosos, aos 27 anos Hugo Viana estava em ponto rebuçado para ajudar a formação bracarense a aproximar-se dos três grandes candidatos ao título. Os minhotos pagaram 300 mil euros ao Valência pelo empréstimo do médio, mas os 33 jogos e quatro golos convenceram todos na Pedreira, por isso foi fácil chegar a um acordo para continuar em Braga em definitivo.

      Há muito que Hugo Viana procurava isto: espaço para jogar e ser feliz com uma bola nos pés, como nos tempos em que brincava com as meias. Em Braga, tão perto de casa e da família, o esquerdino era uma criança feliz e um dos melhores jogadores do campeonato, apesar de parecer cada vez mais afastado da seleção nacional - esteve cinco anos sem jogar com a camisola portuguesa.

      ©Catarina Morais
      O talento de Hugo Viana era cada vez mais consensual entre os portugueses, que com frequência pediam a Paulo Bento o regresso do esquerdino. Enquanto isso, Hugo Viana ia marcando golaços em Braga – em 2011 fez um golo atrás do meio-campo frente ao Portimonense – e foi um dos destaques do melhor trajeto da história do clube nas competições europeias. Uma vez mais, Hugo Viana perdeu a final da Liga Europa, desta vez para o FC Porto.

      A carreira do médio foi muito assim. Enquanto de um lado apareciam oportunidades inesperadas – a de Boloni no Sporting, a chamada para o Mundial 2002 e a transferência para o Valência – havia sempre algo que impedia o esquerdino de atingir o sucesso – lesões, quebra de rendimento ou um mero detalhe numa final. Perante tudo isto, mérito para a perseverança do minhoto, que voltou finalmente a merecer a oportunidade que muitos pediam na seleção portuguesa, desta vez por um infortúnio de Carlos Martins, que se lesionou e abriu espaço para o regresso à seleção e para a participação na terceira fase final da carreira.

       

      ©Carlos Alberto Costa
      Não viria a jogar no Euro 2012 e já na casa dos 30 decidiu abandonar de vez o futebol português, não sem antes mostrar a todos que iria deixar saudades pelos relvados nacionais. Fez 10 golos na época de despedida em Braga, onde saiu com a conquista da Taça da Liga, e em 2013 mudou-se de armas e bagagens para os Emirados Árabes Unidos, numa decisão que ainda hoje considera «a melhor a nível pessoal». Aos 33 anos, acabaria por se despedir em definitivo do futebol, com 490 jogos no histórico, 48 golos, um pé esquerdo que fica na memória e a dúvida: se tivesse resultado no Newcastle…

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