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      Brasil 1950
      Grandes jogos

      Brasil x Uruguai: «o Maracanazo»

      Texto por João Pedro Silveira
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      Esta é a história da vitória antecipada do Brasil que nunca chegou a acontecer, numa final que nunca chegou a ser. Esse jogo que perdura na memória dos amantes do futebol como o «Maracanazo», ou a tarde em que mais de 200 mil presenciaram nas bancadas à mais dura derrota do seu país. O dia que o Brasil inteiro chorou e o jogo em que o capitão adversário confessou mais tarde que se soubesse o desfecho não o queria querer vencer... Esta é a crónica de uma tragédia em quatro actos.

      Prêambulo

      O Mundial de 1950 foi particularmente sui generis. Após desistências de alguns competidores, a prova foi disputada apenas por treze equipas, distribuídos por quatro grupos. No grupo 4 só houve um jogo entre uruguaios e bolivianos (8x0) após os abandonos de escoceses e turcos.
       
      Os quatro vencedores de cada grupo qualificaram-se para um grupo final, onde jogavam todos contra todos para decidir quem era o campeão. Brasil, Suécia, Espanha e Uruguai começaram então a disputar o grupo final para atribuição do campeão. Pela primeira - e última - vez na história, o Campeonato do Mundo não tinha uma final para atribuição do vencedor.
       
      A equipa brasileira que todos antecipavam como futura campeã mundial.
      As primeiras jornadas da fase final deixaram o público brasileiro em êxtase. Duas goleadas sobre Suécia (7x1) e Espanha (6x1) encantavam a «torcida» que já sonhava com a primeira Copa da seleção brasileira. 
       
      Por outro lado, os uruguaios, tinham empatado a duas bolas com a Espanha e batido a Suécia por um magro 3x2. Com menos um ponto que os brasileiros, a Celeste Olímpica via-se obrigada a bater o Brasil na última jornada para conquistar o seu segundo Mundial.
       
      Apesar de não ter sido assim planeada, a última jornada do grupo final tinha um Espanha x Suécia onde que se disputava o terceiro lugar e um Brasil x Uruguai que decidia o título. Como tal, era como uma final do Campeonato do Mundo. As contas para o último jogo eram simples: todo o resultado que não fosse a vitória do Uruguai fazia do Brasil o novo Campeão Mundial. 
       
      Acto I: Carnaval fora d'horas
       
      Na manhã de 16 de julho, as ruas do Rio de Janeiro acordaram a fervilhar de antecipação e esperança. Um verdadeiro carnaval tinha tomado conta da cidade maravilhosa, com carros alegóricos, samba, confetis, serpentinas, bandeirinhas e cânticos de apoio aos onze heróis.
       
      Torcedores brasileiros nas bancadas do Maracanã.
      As autoridades mandaram cunhar moedas de ouro em homenagem ao Brasil Campeão do Mundo para entregar no final da prova pois, à época, a FIFA ainda não entregava medalhas na sua competição. O jornal O Mundo mostrava na primeira página uma foto dos onze titulares onde se lia na legenda «Estes são os Campeões do Mundo». 
       
      Obdulio Varela, capitão uruguaio, quando viu os jornais no quiosque do hotel comprou todos os que podia e trouxe-os para o quarto para mostrar aos colegas, espalhando-os depois no chão da casa de banho e encorajando os companheiros a urinar nos jornais, num dos mais famosos e ortodoxos métodos de motivação da história dos Mundiais.
       
      Minutos antes do jogo começar, enquanto os jogadores esperavam para subir ao relvado, Ângelo Mendes de Moraes, o então governador do Estado de Guanabara, dirigiu um discurso aos atletas:
       
      «Vocês brasileiros, que eu considero os vencedores do torneio... vocês jogadores que em menos de duas horas serão aclamados como campeões por milhões dos vossos compatriotas... vocês que não têm igual neste hemisfério...  vocês que são tão superiores a qualquer adversário... vocês a quem eu já saúdo como conquistadores». 
       
      Acto II: Motivação uruguaia
       
      Momentos antes, no balneário dos uruguaios, o técnico Juan López dava a última palestra e, inspirado no que vira os suíços fazer no empate com o Brasil, insistia com os seus jogadores que uma estratégia defensiva seria a única forma de travar o poder ofensivo dos brasileiros. 
       
      Estádio do Maracanã - epicentro do futebol brasileiro, palco do grande jogo.
      Depois do treinador sair dos vestiários, o capitão Obdulio Varela reuniu as tropas e falou com os colegas:
       
      «Juancito é um bom homem, mas ele hoje está errado. Se jogarmos defensivamente contra o Brasil, nosso destino não será diferente do da Espanha e da Suécia».
       
      Continuou com um discurso emocionado, apelando ao patriotismo e a coragem dos colegas, pedindo muita garra e amor à camisola celeste. As lágrimas correram na face de alguns jogadores e o grito de guerra puxou pela garra uruguaia: «Orientales, la Pátria ó la tumba»...
       
      Para rematar, e enquanto se ouviam os mais de duzentos mil brasileiros nas bancadas, Varela não hesitou em dizer «Muchachos, los de afuera son de palo. Que comience la función», algo que poderia ser traduzido como «Rapazes, quem está do lado de fora não joga. Que comece o jogo. Vamos a eles!» E eles foram...
       
      Os hinos tocaram: primeiro o uruguaio, depois o brasileiro. Julio Pérez, médio interior direito, ao ouvir mais de duzentas mil gargantas efusivamente a cantar «Ouviram do Ipiranga as margens plácidas...» cedeu aos nervos e não conseguiu controlar a bexiga...
       
      Acto III: Friaça e a explosão de alegria
       
      Jogadores uruguaios celebram a vitória e a conquista do Campeonato do Mundo.
      O jogo começou e o Uruguai sofreu. Mas os brasileiros também acusavam os nervos. Ademir, melhor marcador da competição, que apontara já nove golos na prova, acusava a pressão e não fazia a diferença. O Brasil não conseguia marcar e o Uruguai começava a soltar-se no campo, com o seu futebol arte...
       
      George Reader apitou para o intervalo e, enquanto as equipas regressavam às cabinas, na bancada os brasileiros dividiam-se entre o otimismo e o medo de falhar no momento decisivo. 
       
      A segunda parte começou com o golo de Friaça - o único que marcou ao serviço da seleção - e as bancadas explodiram em emoção. Abraços, gritos, bandeiras, confetis e serpentinas, foguetes e estalinhos, tambores, samba improvisado... o Brasil estava tão perto do seu primeiro Campeonato do Mundo.
       
      Acto IV: Gigghia e Schiaffino deixam o Brasil a chorar
       
      Mas os uruguaios já tinham percebido que conseguiam vencer os brasileiros. Avançaram no terreno e, vaga atrás de vaga, foram assustando a defesa da equipa da casa. A 24 minutos do fim, Alcides Gigghia desceu pela direita e centrou para o golo de Juan Schiaffino. O Brasil tremeu, mas com este resultado, a Taça Jules Rimet ainda ficava no Rio de Janeiro.
       
      Rimet, o presidente e fundador da FIFA, recolheu então aos balneários para buscar o troféu com o seu nome e entregá-lo ao capitão brasileiro. Nas suas memórias, o francês lembrou que estava tudo preparado para a consagração nacional. Seria suposto caminhar pelo túnel de acesso ao relvado e depois subir, guardado por uma escolta, antes de atravessar uma guarda de honra. Após tocar o hino nacional, no centro do relvado, iria entregar a taça ao capitão brasileiro.
       
      Mas quando Rimet se preparava para subir para o relvado, a onze minutos do fim, ouviu alguns gritos seguidos de um silêncio ensurdecedor... Gigghia acabara de apontar o segundo tento uruguaio. Moacyr Barbosa, o guarda-redes brasileiro, levava as mãos à cabeça, alguns jogadores começavam a chorar e os uruguaios pareciam crianças, enquanto festejavam loucamente em pleno relvado...
       
      Os onze minutos mais longos do futebol uruguaio pareceram nanosegundos para os brasileiros. Quando o inglês Reader apitou para o final, a tragédia tivera o seu epílogo final no palco dos palcos.
       
      Nas bancadas, os brasileiros choravam copiosamente, alguns insultavam os jogadores, outros remetiam-se ao mais doloroso silêncio. Rimet subia ao relvado com o troféu na mão e não havia escolta, nem guarda de honra, nem hino nacional... Sentiu enorme dificuldade para encontrar o capitão Varela que recebeu o troféu clandestinamente entre jogadores e seguranças... Depois Rimet saiu e Varela juntou-se aos colegas no centro do relvado antes de seguir em festa para os balneários...
       
      Epílogo
       
      O pós-jogo foi terrível. Flávio Costa foi acusado pelo país de ser o responsável do falhanço. Barbosa teve que viver com o estigma do falhanço para o resto da vida. Ademir nunca mais voltou a ser o mesmo. Protestos por todo o país, diversos suicídios e um país em estado de luto. 
       
      Jules Rimet entrega o troféu ao capitão Obdulio Varela.
      Os uruguaios ficaram impressionados e não foi a toa que, anos depois, o capitão Obdulio Varela - o primeiro capitão negro a erguer a Taça de Campeão do Mundo - ao recordar esses dias, lembrou:
       
      «Se soubesse o que era um povo inteiro a chorar não sei se teria querido ganhar aquele jogo».
      Na manhã de 16 de julho, as ruas do Rio de Janeiro acordaram a fervilhar de antecipação e esperança. Um verdadeiro carnaval tinha tomado conta da cidade maravilhosa, com carros alegóricos, samba, confetes e serpentinas, bandeirinhas e cânticos de apoio aos onze heróis.
      As autoridades mandaram cunhar moedas de ouro em homenagem ao Brasil Campeão do Mundo para entregar depois da final, pois à época a FIFA ainda não entregava medalhas na sua competição.
      O jornal O Mundo mostrava na primeira página uma foto dos onze titulares onde se lia na legenda «estes são os campeões do mundo». 
       
      Obdulio Varela, capitão uruguaio, quando viu os jornais no quiosque do hotel, comprou todos os que podia e trouxe-os para o quarto para mostrar aos colegas, espalhando-os depois no chão da casa de banho, e encorajando os colegas a urinar nos jornais, num dos mais famosos e ortodoxos métodos de motivação da história dos mundiais.
       
       
      Minutos antes do jogo começar, enquanto os jogadores esperavam para subir ao relvado, Ângelo Mendes de Moraes, o então governador do Estado de Guanabara, dirigiu um discurso aos atletas:
       
      «Vocês brasileiros, que eu considero os vencedores do torneio... vocês jogadores que em menos de duas horas serão aclamados como campeões por milhões dos vossos compatriotas... vocês que não têm igual neste hemisfério...  vocês que são tão superiores a qualquer adversário... vocês a quem eu já saúdo como conquistadores. 

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      Comentários (9)
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      motivo:
      VA
      selevasco
      2014-07-04 13h16m por vascobaptista
      o brasil em 50 era a base vencedora e vitoriosa do club de regatas vasco da gama com Barbosa, Augusto, Danilo, Maneca, Ademir (artilheiro da Copa) e Chico - e dois entre os reservas - Eli e Alfredo. Mais dois do elenco, Friaça e Jair, eram ex-jogadores do Expresso da Vitória.
      o povo e o grande eterno e saudoso Barbosa não merecia esta derrota. . .
      PI
      artigo Brasil 1950 (zerozero)
      2014-05-29 20h40m por Pirisca
      Umas vezes é referido, e bem, q este mundial n teve uma final, pq o campeão apurou-se num grupo final de 4 selecçoes e foi campeão quem fez mais pontos (Uruguai) e em outras partes do texto fala-se em final qd se refere ao jogo da fase final de grupos Brasil-Uruguai.


      " Pela primeira - e última - vez na história, o Campeonato do Mundo não tinha uma final para atribuição do vencedor. "


      "As autoridades mandaram cunhar moedas de ouro em homenagem ao Brasil Campeão do Mundo para entregar depois da final"
      Agradecimento
      hm por zerozero.pt
      Muito obrigado pelo reparo, o texto foi corrigido.
      RU
      Parabéns pelo artigo
      2013-11-28 21h08m por rubencera
      Parabéns ao autor deste artigo, João Pedro Silveira por retratar todo o acontecimento histórico sucedido nesta final do campeonato do mundo de 1950 no Brasil. De facto como já foi comentado aqui por outros utilizadores fez-me lembrar infelizmente a final do Euro 2004. . . Mas o futebol é assim mesmo e em finais como estas a pressão está toda do lado da equipa da casa.
      Brasil-Uruguai
      2013-11-21 17h44m por Thirteenth
      Pode muito bem ser a final de 2014. . .
      VD
      Barbosa
      2013-06-26 10h36m por vdef
      Coitado do GR. . . nunca mais o deixaram em paz.
      DO
      Uruguai
      2012-07-16 20h12m por DouglaS10
      Foi a segunda e última grande conquista da selecção do Uruguai. Já tinha conhecimento que o Brasil ficou traumatizado com a sua derrota caseira, mas nunca pensei que fossem atingidos os limites. Suicídos por uma derrota de futebol é muito mau!!! O Brasil, pelo menos, minimizou os estragos provocados na final de 1950 ao sagrar-se campeão do mundo oito anos depois, já Portugal ainda não compensou os portugueses da derrota sofrida na final do euro 2004!!
      FI
      Maracanazo
      2012-07-16 16h22m por filipe_k3
      ahahahahahah eu ainda há pouco tive a ver todos os maracanazos.

      O mais recente foi a final da Champions 2011/2012 onde o anfitrião Bayern Munique foi derrotado por um surpreendente Chelsea.

      E o pior destes todos foi a final do Euro 2004. . .
      JU
      . . .
      2012-07-16 16h11m por Junior99
      Este Mundial tem ainda outra coisa "sui generis" - foi o primeiro Mundial em 12 anos.
      O Mundial de 1942 (atribuído à Alemanha Nazi) não se realizou devido à II Guerra Mundial) e o Mundial de 1946 (atribuído ao Brasil) também não se realizou por os países ainda se encontrarem a recuperar dessa mesma Guerra.
      Brasil
      2012-07-16 15h46m por JHendrix
      O Brasil chorou em 50, mas viria a sorrir nos anos seguintes em 58 e 62 com o Zagallo, Vavá, Mané, Didi e o jovem Pelezinho, o que acabou por atenuar um pouco a desilusão do "Maracanazo".

      Como eu gostava que Portugal conseguisse fazer esquecer a desilusão de 2004, mas nunca mais é. . .
      jogos históricos
      U Domingo, 16 Julho 1950 - 19:00
      Estádio Jornalista Mário Filho (Maracanã)
      George Reader
      2-1
      Juan Schiaffino 66'
      Alcides Ghiggia 79'
      Friaça 47'
      Estádio
      Estádio Jornalista Mário Filho (Maracanã)
      Lotação78838
      Medidas105x68
      Inauguração1950
      TEXTO DISPONÍVEL EM...
      Competição