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      Beto: O central verde e (quase) 'blanco'

      Texto por Ricardo Gonçalves
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      Foram 18 anos de leão ao peito, 10 deles na equipa principal, onde venceu todos os títulos nacionais e disputou uma final europeia. Durante todo esse tempo, foi um verdadeiro líder, dentro e fora de campo, daí ter recebido ainda jovem a braçadeira do clube que nunca escondeu ter no coração. Jogou 31 vezes pela seleção portuguesa, incluindo em provas como europeus e no Mundial de 2002 onde até marcou. Mais do que um defesa central de grande qualidade, Beto foi um símbolo daquilo que o Sporting representa, embora , por obra da repetição, aquilo que o nome "Beto" evoca aos adeptos de futebol português não são ideais de esforço e devoção, mas sim duas palavras: Real Madrid.

      Quase, quase Galáctico

      De Lisboa a Madrid são cerca de 625 quilómetros. De avião, é uma viagem que se faz numa hora, de carro são precisas seis e a pé, sem paragens, seriam precisos no mínimo cinco dias. Beto não chegou numa hora, nem seis, nem 120, aliás, a comparação nem sequer é justa porque Beto não chegou de todo. Foram anos a falar da mudança para a capital espanhola, onde o defesa central representaria o Real Madrid, só que a interminável jornada até Espanha acabou por terminar... no Sporting, de onde, por mais que os rumores continuassem, Beto nunca saía.

      O sonho de jogar nos grandes clubes europeus é comum a quase todos os jogadores de futebol, e o Real Madrid é sem dúvida um desses clubes. São os galáticos, a equipa das estrelas, que faz do campeonato espanhol um dos mais emocionantes do mundo e que coleciona troféus da Liga dos Campeões como se fossem selos. Mas este sonho concretiza-se só para uma percentagem minúscula de todos os jogadores de futebol. 

      Num particular contra o Newcastle ©Getty / Owen Humphreys - PA Images
      «O meu grande sonho de menino quando cheguei a Alvalade não era ir para o Real Madrid ou outro clube europeu, mas sim chegar à 1ª equipa do Sporting», disse Beto, deixando claro que não partilhava desse sonho que tinham tantos dos seus colegas de profissão. Em Espanha, passou a ser o defesa que recusou o Real Madrid. Em Portugal, o seu nome foi completa e permanentemente associado a essa interminável novela que tinha uma nova temporada a cada verão. A verdade é que nunca se chegou a saber ao certo aquilo que se passava: se o interesse era real ou não, se o jogador queria Portugal ou Espanha, e se o Sporting queria vender ou segurar.

      A transferência até fazia sentido no papel. O Real Madrid tinha Fernando Hierro no centro da defesa, mas parecia faltar alguém para completar a dupla com melhor qualidade do que Karanka ou Helguera (que também jogava no meio-campo). Aqui surgia Beto como uma opção interessante, o português estava em alta no início do novo século, tal como o Real Madrid, e o casamento das duas partes parecia ser bastante provável.

      Ainda assim, não aconteceu. A possível ida de Beto para o Real Madrid é uma das maiores quase-transferências que alguma vez (não) aconteceram no futebol português. Por mais que os jornais vendessem a ideia ano após ano, o jogador acabou por ficar nos leões. Beto viveu uma grande carreira no Sporting, com momentos doces e alguns mais azedos. Fez lembrar uma daquelas tartes de limão, excepto que o 'merengue' nunca chegou à mesa. 

      Sangue verde

      Estamos na oitava jornada do campeonato, em 1996/97, quando o Sporting e o Benfica se defrontam em Alvalade. O Benfica ocupa a primeira posição e o Sporting está em terceiro, mas uma vitória leonina colocaria as duas equipas em igualdade pontual, para aquecer a luta. Do lado caseiro há Sá Pinto, Marco Aurélio e Oceano; os encarnados contam com Preud'homme, Dimas e João Vieira Pinto, mas a figura estranha em campo é um jovem defesa de 20 anos, que fazia a sua estreia no Estádio de Alvalade: Beto.

      Num jogo europeu contra o Mónaco ©Getty / Matthew Ashton - EMPICS
      A primeira parte teve pouca história, mas a segunda foi rápida a trazer ação, precisando apenas de seis minutos para ver surgir o momento mais precioso do jogo. Dimas faz falta sobre Sá Pinto, Oceano bate uma bola larga para a área, à qual ninguém chegaria, se não estivesse Beto ao segundo poste, pronto para atacar a bola e fazer aquele que seria o seu primeiro golo pelo Sporting, e logo numa vitória sobre o rival.

      Para muitos adeptos no futebol português, o golo ao Benfica foi o início do trajeto do jovem central, mas a verdade é que já seguia uma grande caminhada. Roberto Severo, mais conhecido como Beto, nasceu a 3 de maio de 1976 em Lisboa e desde cedo revelou uma grande apetência para a viver a vida com a bola nos pés, de preferência vestido de verde e branco. Aos 12 anos, já jogava no Sporting, clube que tão cedo não trocaria. Fez o seu caminho pela formação do clube, antes de completar os 18 anos e dar os os primeiros passos fora da zona de conforto, que coincidiram com uma conquista europeia por parte da seleção portuguesa de sub-18.

      A espinha dorsal dessa equipa campeã continha, para além de Beto, nomes familiares como Nuno Gomes, Dani e Quim, e manter-se-ia junta durante algumas competições. O Campeonato do Mundo de sub-20, no ano seguinte, viu a equipa das quinas conquistar um terceiro lugar, que garantiu a qualificação para os Jogos Olímpicos de 1996 em Atlanta, onde Portugal voltaria a cair na meia-final.

      Estreia na seleção foi na Alemanha, em 1997, num empate a um ©Getty / Michael Steele - EMPICS
      Beto começava a carreira enquanto sénior em empréstimos. Esteve primeiro no União de Lamas e depois ao serviço do Campomaiorense, onde disputou pela primeira vez a primeira divisão nacional, às ordens do técnico Manuel Fernandes. Após o vigésimo aniversário, Beto ficou na equipa principal do Sporting, pela qual se estrearia uns meses depois, sendo lançado por Robert Waseige numa partida da Taça UEFA que o Sporting acabaria por perder, em França frente ao Metz.

      Apesar da derrota, Beto deixou boas impressões aos olhos dos adeptos e do treinador belga, que decidiu dar continuidade à aposta. Quatro dias após a estreia, o jovem central jogou os 90 minutos de uma vitória do Sporting sobre o Vitória, em Guimarães, mas o verdadeiro impacto surgiu na semana seguinte, na tal receção ao Benfica que viu Beto fixar-se permanentemente na defesa leonina.

      A primeira vez que Beto visitou o Estádio de Alvalade tinha quatro anos, na primeira ocasião em que se lembra de ver um jogo de futebol. O amor pelo Sporting vinha do pai, que segundo Beto era um «enorme leão» e influenciou uma família que se fez 100% sportinguista. Ainda cedo, na juventude de Beto, o seu pai faleceu, não tendo tido oportunidade de ver o seu filho pisar pela primeira vez o relvado da "casa" que tanto amavam, ainda que permitindo formar o caráter de um homem que se faria líder no clube do coração.

      Então Beto tinha já conquistado o lugar no centro da defesa, ao lado de um jogador que seria o seu mentor e exemplo: Marco Aurélio. Ao longo de quase três anos, jogaram juntos, semana após semana, com o brasileiro a apadrinhar o jovem leão até decidir rumar a Itália, numa transferência que colocaria o Sporting em necessidade de um companheiro para Beto. A solução veio também de Itália e era da mesma nacionalidade, sendo esta a história do início da dupla Beto/André Cruz, uma das maiores duplas defensivas na história do futebol português.

      O líder

      O virar do século foi também um ponto de viragem no Sporting. Os leões já não venciam o campeonato nacional há 18 anos e isso refletia-se nos adeptos, que desesperavam pelo sucesso da equipa, mas seria na temporada de 99/00 que o troféu chegaria. O início não foi o melhor. O treinador era o italiano Giuseppe Materazzi, que mostrou dificuldades e foi despedido após a quinta jornada, momento em que o Sporting decidiu apostar num português que conhecia bem o clube, pois já lá tinha jogado: Augusto Inácio.

      Foi capitão muitas vezes ©Getty / Christof Koepsel
      Depois do início, veio Inácio, e foi aí que as coisas se começaram a endireitar. Beto Acosta estava em forma no ataque, mas o primeiro Beto a surgir no onze inicial, semana após semana, era o que jogava no centro da defesa, e sob a sua liderança o Sporting lá começou a acumular vitórias até janeiro, altura em que chegaram ao clube vários reforços, incluíndo André Cruz.

      Se uma defesa liderada por Beto já era sólida, então ao lado do veterano brasileiro melhor ainda, acrescenta-se Peter Schmeichel na baliza e temos uma parede de betão. O trio sofreu apenas oito golos em 19 jornadas do Campeonato, sendo que na última celebraram a tão desejada conquista da liga portuguesa. Além de campeão, pôde também jogar a Liga dos Campeões, onde defrontou... o Real Madrid, na fase de grupos. Talvez o momento em que esteve mais próximo da camisola blanca (que nos perdoe a brincadeira, o Beto).

      Dois anos depois, já com experiência europeia e internacional, Beto continuava a figurar numa das melhores equipas leoninas da história recente. Em 2002, o Sporting voltou a ser campeão nacional, fazendo a dobradinha depois de vencer o Leixões na final da Taça de Portugal. Nessa equipa, jogavam nomes como Mário Jardel, César Prates, Pedro Barbosa e João Vieira Pinto, para além de jovens valores como Quaresma e Hugo Viana, mas não era por isso que Beto perdia dimensão no clube, pois vinha da sua época mais goleadora e mantinha a titularidade, ora como defesa central, ora a lateral.

      Marcou aos EUA no Mundial ©Getty / Gary M. Prior
      Quer em 2000, quer em 2002, a importância e qualidade demonstradas no clube valeram-lhe presenças nas fases finais de grandes competições, ainda que mais a lateral do que a central. Foi assim em 2000, onde fez dois jogos na fase de grupos, e foi assim em 2002, onde marcou mesmo, no descalabro inicial contra os Estados Unidos e foi um dos expulsos contra a Coreia, no último jogo. Estaria ainda nos 23 do Euro 2004, embora aí sem ter sido utilizado. Aliás, ao longo dos anos, ao contrário do que acontecia no clube, Beto nunca se pôde considerar um titular na seleção, onde Jorge Costa e Fernando Couto primeiro, Jorge Andrade e Ricardo Carvalho depois, estiveram habitualmente à sua frente.

      Um final (que podia não ter sido) amargo

      Durante os vários anos de balneário no Sporting, Beto nem sempre foi capitão, um pouco por conta do impacto de Pedro Barbosa mais à frente no campo, mas ainda usava a braçadeira dos leões em 2005, quando integrava a equipa que fez uma invejável caminhada até à final da Taça UEFA (foi dele o golo da reviravolta na épica eliminatória contra o Newcastle), disputada em casa, e tragicamente perdida para os russos do CSKA

      No épico golo de Miguel Garcia ©Getty / Richard Heathcote
      O resultado da única final europeia em que participou foi negativo, tal como os tempos que se seguiram. Com a chegada de Paulo Bento, o capitão perdeu o lugar no onze para Tonel, e com a chegada do mercado de janeiro em 2006 seria mesmo vendido para os franceses do Bordéus, a troco de pouco mais que um milhão de euros, depois de tantos anos a ser associado a mudanças de maior valor.

      Despedia-se assim Beto, um leão que rugiu bem alto na defesa daquele que era o seu amor de menino. O legado que fica é de um capitão com grande garra e atitude, que esteve presente nos mais recentes títulos do clube, a camisola 22 que deu tantas alegrias e um defesa central capaz no desarme e nos duelos. No total foram 315 jogos, um número que o coloca como 17º jogador com mais partidas na história do clube. Marcou ainda 25 golos, alguns deles muito importantes.

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